O recrutamento de novos colaboradores faz parte das intenções de grande parte das empresas em Portugal, principalmente no sector das Tecnologias da Informação. Assim mostrava um relatório publicado pela Hays em janeiro, que ouviu 800 entidades empregadoras, em que 74% assumia essa vontade.

Na mesma análise ficava explícito que as TI são uma das áreas onde os candidatos têm mais opções de escolha e onde, inclusive, se podem “dar ao luxo” de recusarem ofertas de emprego.

O Guia do Mercado Laboral 2016 da Hays também indicava que os recursos humanos relacionados com as TI são os que demonstram menor disponibilidade para mudar de emprego. Tudo isto, apesar de serem os profissionais mais procurados pelas empresas em Portugal, e essa é uma tendência que deverá continuar a aumentar.

Mas o que se passa afinal no mercado de trabalho das TI no momento? Que caminhos deve seguir quem quer optar por esta área no ensino superior e como podem os profissionais preparar-se para as exigências das empresas?

Número de vagas de TI mantém crescimento

“O número de posições continua, nesta fase, a crescer e sentimos igualmente que tem existido um impacto positivo pelo investimento, quer de empresas nacionais, quer de empresas internacionais”, sublinhou ao Tek Joana Panda, senior consultant & team leader especializada em recrutamento de TI na Hays.

No meio académico, a visão é idêntica. “Creio que é seguro dizer-se que a grande maioria dos cursos de nível superior nesta área têm e terão, nos próximos anos, um nível de empregabilidade muito alta, tanto em Portugal como na Europa e nos Estados Unidos”, defende António José Mendes, diretor do departamento de Engenharia Informática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC).

A procura por profissionais na área das TI que se faz sentir no mercado português é um dado adquirido e fica bem demonstrada por Miguel Mira Silva, do Instituto Superior Técnico, que garante que naquela instituição de ensino os cursos na área de informática têm uma empregabilidade total. “Os alunos finalistas de mestrado recebem dezenas de pedidos de entrevista, e propostas de emprego em quase todas as entrevistas”, conta.

Existem algumas áreas, como por exemplo dados ou segurança, em que a procura é ainda maior do que a média na informática. “Mas a procura é elevada em todas as áreas, visto que não existem informáticos suficientes para os empregos que atualmente estão disponíveis”, aponta Miguel Mira da Silva.

O professor de Sistemas de Informação no Departamento de Engenharia Informática do Instituto Superior Técnico também revela que a função mais procurada ainda é a de programador, mas a procura por outras funções, por exemplo na área dos dados e segurança tem vindo a aumentar e atualmente “a programação já deve representar menos de metade de todos os novos empregos na informática”.

É um facto que a quantidade de vagas para profissionais nas áreas das novas tecnologias estão a crescer de dia para dia. E esta tendência regista-se, naturalmente, de duas formas distintas, que acabam até por complementar-se e criar uma certa harmonia no mercado: à medida que a procura por profissionais do sector por parte das empresas aumenta, a oferta de formação académica aumenta a par.

“São cada vez mais as solicitações do mercado por profissionais de TI, seja de empresas já implantadas no nosso país, seja de novas empresas que estão a deslocalizar áreas técnicas para Portugal”, informa Célia Vieira, managing director de IT Contracting da Novabase.  

“Atualmente, a formação em Portugal é bastante robusta a nível tecnológico”, diz a responsável da empresa, referindo ainda que existe espaço para melhorar a determinados níveis: “deveria existir uma maior aproximação dos casos de estudo e projetos práticos dos alunos à realidade empresarial”.

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Mas o que escolher?

Sob a perspetiva de quem recruta, a conclusão é clara: dentro das novas tecnologias, ter um curso superior é determinante. Depois, na hora de escolher, é preferível optar por uma engenharia aplicada à área em causa. Engenharia informática, eletrotécnica de computadores ou informática e gestão são os cursos que a Novabase mais procura na seleção dos seus colaboradores.

Célia Vieira conta ao Tek que, atualmente, disponibilizam mais oportunidades para “profissionais com perfis para Software Developer (frontend, backend e mobile), Quality Assurance, assim como para Business Analysts e System Architects”. Serão estas as profissões que mais prometem num futuro próximo? Não se sabe ao certo (e falamos disso mais à frente neste artigo), mas nota-se uma forte procura dentro da área específica do desenvolvimento de software, colaboradores que dominem perfeitamente “tecnologias como Java, .net, Android, iOS e Angular.JS”, por exemplo. E, “noutras áreas, Siebel, Outsystems, Tibco ou Business Analytics”, atira a responsável de contratações IT na Novabase.

Na Bold International, por sua vez, seguem-se as mesmas preferências, de certa forma: “Os cursos de engenharia, tais como informática e de computadores, telecomunicações e tecnologias de comunicação, são uma aposta segura”, garante Hugo Fonseca, partner desta consultora de recrutamento especializada em tecnologias.

E não restam grandes dúvidas… “Neste momento, as profissões mais solicitadas em TI são ao nível da programação nas diferentes tecnologias, nomeadamente Java, .Net e mobile, entre outras”, explica o especialista, deixando outro conselho precioso: “quanto às competências técnicas, valorizam-se os profissionais que demonstram uma verdadeira paixão pela tecnologia. É fundamental trabalhar com profissionais autodidatas, que procuram sempre conhecer e saber mais, e que detém boas soft skills de comunicação, capacidade de adaptação e relacionamento com o cliente”.

O meio académico partilha de visão idêntica sobre a necessidade de existir, como base, um curso superior para quem quer optar pela área profissional das TI, mas nesse campo, há exigências específicas a ter em conta, na opinião de António José Mendes.

Destacando que as necessidades do mercado de emprego nestas áreas estão a evoluir com grande rapidez, o diretor do departamento de informática da FCTUC considera que é importante que as formações de base a nível superior forneçam uma formação forte em aspectos fundamentais da informática e de outras competências necessárias na vida profissional - capacidades de trabalho em equipa, de comunicação, etc. “Desta forma, podem preparar os alunos, futuros profissionais, para uma vida onde frequentemente terão que se reconverter, aprender novas tecnologias e desenvolver novas competências”.

É claro que as instituições poderão também ter ofertas muito especializadas, de duração mais curta, em diversas áreas, dirigidas a pessoas já com uma boa formação de base e, normalmente, já inseridas no mercado de trabalho. Desta forma pode facilitar-se a adaptação dessas pessoas às necessidades que forem surgindo em cada momento.

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As profissões do futuro

Nesta análise, o Tek quis ir um pouco mais longe, tentando descobrir quais são então as "profissões do futuro". E, pelo que tivemos oportunidade de constatar, já é possível antecipá-las, à medida que estas novas áreas tecnológicas crescem e o mercado começa a tirar maior partido dos seus benefícios, gerando oportunidades. Isto pelas palavras de Hugo Fonseca, da Bold International.

“A área de mobile continuará a ser uma forte aposta de futuro, pois a transformação digital é hoje uma realidade em todas as indústrias. O aparecimento do IoT, por exemplo, proporciona elevados benefícios para as empresas, como o acesso a dados em tempo real, a obtenção de uma informação mais coerente e atualizada e uma visão mais ampla do negócio”, explica o partner da empresa, que todos os dias procura colaboradores com este tipo de perfis, visando a satisfação das exigências das suas empresas clientes.

Já Célia Vieira, da Novabase, avança uma ideia fundamental, parece-nos: “mais do que profissões do futuro, é preciso olhar para profissões com futuro”, em função das necessidades atuais do mercado e para as quais são procurados profissionais em maior qualidade e quantidade.

A managing director de IT Contracting da empresa especifica ainda mais a ideia: fala de data scientists, pois "o volume e dispersão dos dados gerados atualmente são possíveis de processar, analisar e extrair valor para as empresas apenas quando se recorre a métodos e poderosas tecnologias. E esta nova vaga de Business Analytics vai necessitar de um novo perfil de profissionais, aqueles que consigam combinar disciplinas diversas como a estatística, a análise preditiva, a computação de alta performance e a inteligência artificial”, por exemplo.

E depois há os Experience Designers, já que torna-se vital adaptar ao utilizador toda a “tecnologia (seja software ou hardware)”, para que esta possa “cumprir verdadeiramente a sua função”. Estes são profissionais que têm de conseguir “combinar linguagem visual, arquitectura de informação, transparência de utilização, ergonomia visual e física, entre outros elementos”.

Também na Hays há “pistas” face às funções que vislumbram um futuro mais risonho. “As posições mais solicitadas pelas empresas para a área tecnológica são programadores, responsáveis de segurança de informação, engenheiros de redes e especialistas de virtualização”, lista Joana Panda.

A senior consultant & team leader da Hays avança também os cursos ou especializações a escolher por quem está ainda indeciso, referindo as “áreas da segurança, virtualização e BI, entre outras”.

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Novas perspetivas num futuro (muito) próximo

Miguel Mira da Silva, do IST, relembra que o futuro fará com que todas as profissões careçam de conhecimentos de tecnologia. “Alguns médicos terão de perceber tanto de informática que serão mais informáticos que médicos. Esta profissão hoje em dia não existe, mas poderá empregar milhares de pessoas em Portugal daqui a poucos anos. E uma situação parecida vai acontecer noutros setores – indústria, transportes, educação, etc”, considera.

Nesse sentido, há cursos superiores que acompanham estas tendências, apesar de ser “muito difícil aumentar as vagas dos cursos existentes, ou mesmo criar novos cursos de licenciatura e mestrado”, diz Miguel Mira da Silva. “Por isso, nas universidades provavelmente os novos cursos serão de especialização em áreas novas, como big data ou mobile, ou pós-graduação”. Fundamentais são “as parcerias que continuam a ser estabelecidas entre universidades e empresas”.

António José Mendes, diretor do departamento de Engenharia Informática da FCTUC, é da mesma opinião, reforçando a importância desse tipo de parceiras e protocolos. Quanto às formas de aumentar a oferta de formação académica em resposta às necessidades do mercado, deixa a sua visão em particular: “essas novas necessidades podem ser supridas através de mestrados especializados numa área específica, destinados a pessoas já com uma boa formação de base”.

E revela o que a FCTUC faz nesse campo. “O Acertar o Rumo é um programa que vai para a sua 4ª edição e que foi criado pelo DEI/FCTUC em parceria com a ITGrow”. Diz o professor que esta é uma iniciativa de reconversão profissional destinada a dotar pessoas com formação superior noutras áreas de conhecimentos avançados de programação. “O objetivo é permitir que pessoas com formação em áreas de menor empregabilidade possam reconverter-se e passar a desempenhar funções de programação em empresas ou instituições com necessidade dessas competências”, complementa o responsável pelo departamento daquela universidade. 

Mercado a três dimensões

A CIONET é uma comunidade de executivos de TI na Europa e na América Latina e conta já nas suas “fileiras” com mais de 6.100 profissionais em todo o mundo. Mas qual o ponto de vista de uma organização do género face ao mercado português da atualidade? Será que podem ajudar quem está a pensar enveredar por profissões da área? A resposta é sim, obviamente.

Rui Serapicos também “refere que o número de vagas na área das TI segue a tendência do sector e está em crescimento. E esse crescimento ao nível de profissões mais procuradas situa-se em três dimensões essenciais: a dimensão técnica, a dimensão de gestão de TI e uma dimensão associada à inovação”.

Pelas palavras de Rui, a dimensão técnica é a que abrange a procura de profissionais especializados em execução de tecnologias, como programadores e engenheiros de software especializados em diversas linguagens de codificação, plataformas e soluções móveis. Depois, enquanto a dimensão gestão de TI atenta sobretudo em especialistas em gestão de sistemas de informação (e também em empresas industriais ou de serviços), a dimensão associada à inovação está relacionada com realidades mais diversificadas, em que “os perfis desejados são multidisciplinares, indo do marketing digital, à programação, à física quântica ou até à medicina”.

O managing partner da CIONET Portugal introduz um ponto curioso ao tema, contudo, ao falarmos da quantidade e qualidade da oferta de formação em Portugal. “O que está realmente em falta é uma verdadeira ‘formação de conversão’, ou seja, aquela que permite que profissionais provenientes de áreas com fraco nível de empregabilidade consigam fazer uma transição sólida para áreas com um nível de empregabilidade mais elevado”, defende Rui Serapicos adicionando que “ os perfis multidisciplinares têm vindo a assistir a um aumento de procura”.

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O que escolher para um futuro “tecnológico” de sucesso?

A resposta é fácil. Pelos dados a que o Tek teve acesso, e perante as perspetivas dos vários especialistas na matéria que dão o seu testemunho ao longo deste artigo, quem estiver determinado a iniciar uma carreira na áreas das TIC deve atentar neste conselho-base: escolher um curso superior de engenharia informática, de telecomunicações ou de informática aplicada à gestão, por exemplo, pois são os ramos mais procurados pelos empregadores e mais “alavancados” pelas instituições de ensino. Depois especializar-se na sub-área que mais gosta ou considera mais atrativas.

Em paralelo, não descure nunca as soft skills relacionadas com comunicação e relações interpessoais, pois as profissões do novo milénio requerem não só competências técnicas e científicas como também fatores ao nível do trabalho em equipa, da adaptação a novos processos e da atitude colaborativa.

É esta a “nova anatomia do mundo do trabalho atual, a chamada workplace transformation“, como diz Rui Serapicos, da CIONET Portugal. Concordamos e assinamos por baixo.