A realização do WebSummit em Portugal em 2016, e durante três anos, foi um dos temas que ganhou maior número de referências no trabalho realizado de balanço de 2015 e perspetivas para 2016. O impacto do evento, que é um dos mais dinâmicos e com visibilidade garantida para as startups, é olhado com optimismo sem reservas por todas as associações convidadas pelo Tek para este trabalho. E a expectativa é que exista um contágio positivo do empreendedorismo nacional.

Como não podia deixar de ser, as promessas do Mercado Digital Único centram também muitas das expectativas para este ano, a maioria das quais positivas, nomeadamente pela mão da APDSI e da ANETIE. Já a próxima eliminação das taxas de roaming divide opiniões, enquanto do lado dos consumidores é vista como uma conquista, as operadoras comunicações temem o impacto que pode ter na criação de assimetrias na balança de pagamentos entre países, nas receitas e na capacidade de inovação e diferenciação das empresas.

O défice de competências em TI, e a necessidade de reforçar mais recursos, está presente também em muitos dos alertas, avisando a ANETIE que este poderá ser o calcanhar de Aquiles de um desenvolvimento mais acentuado do sector em Portugal.  

Sem surpresas, a estagnação económica foi também apontada pela APDC, que espera que este ano o tecido empresarial nacional invista para aprofundar a mudança para o digital, uma transformação obrigatória para garantir a sobrevivência das empresas. 

A Associação para o Desenvolvimento das Comunicações destaca ainda o movimento de fusões e aquisições, onde a entrada da Altice na PT é um dos pontos fortes, mas onde não falta também a referência à compra da Alcatel-Lucent pela Nokia e à parceria global entre a Cisco e a Ericsson.

No geral, o optimismo é uma nota presente na grande maior das opiniões expressas ao Tek, mesmo com avisos e alertas à "navegação" em algumas áreas relevantes para as Tecnologias da Informação, Comunicação e Media. A ideia de que tudo, ou quase tudo, será possível está bem patente, podendo Portugal assumir um papel de destaque no panorama internacional.

E no próximo ano cá estaremos para ver se as previsões se concretizam.

Convidamos agora todos os leitores a lerem, ou relerem, os contributos das principais associações desta área nas próximas páginas.

Fátima Caçador

 

 

 

O potencial do Mercado Único Digital e o risco de não aproveitar as oportunidades

Por Vítor Rodrigues (*)

Balanço 2015

Positivo

Em 2015, a ANETIE congratulou-se com o plano da Comissão Europeia para a criação de um Mercado Único Digital. Trata-se do reconhecimento de que a Europa tem um grande potencial em matéria tecnológica. Potencial este que acreditamos ser capaz de superar a hegemonia norte-americana. Mas para que tal aconteça é, efetivamente, urgente um plano verdadeiramente concertado, de vocação comunitária, que nos permita eliminar barreiras há muito inexistentes em outros mercados.

Foi também um ano com uma evolução significativa em matéria de internacionalização do setor tecnológico português, com a ANETIE a distinguir-se, uma vez mais, como agente catalisador e facilitador da entrada das nossas empresas no exterior. Neste âmbito, deve destacar-se a crescente proximidade com o mercado da América Latina, para a qual contribuiu uma maior integração em entidades internacionais, nomeadamente a ALETI - Federación de Asociaciones de América Latina, El Caribe, Espanã y Portugal de Entidades de Tecnologias de Informácion y Comunicación. Recorde-se que a ANETIE acaba de integrar a direção desta federação internacional de entidades tecnológicas, que reúne as grandes associações latino-americanas com as suas congéneres de Portugal e de Espanha, pelo que será certamente um veículo privilegiado para a defesa dos interesses das empresas de TICE nacionais.

Ainda no que concerne à internacionalização é de salientar a atuação da ANETIE e das TICE em mercados alternativos, no sentido de expandir a presença internacional das tecnologias e também de diversificar estratégias, contornando os problemas inerentes ao contexto de destinos mais tradicionais como Brasil e Angola.

O ano que agora termina foi ainda particularmente positivo no que toca à emergência internacional do empreendedorismo tecnológico português. Com Lisboa eleita Cidade Empreendedora Europeia 2015, com o anúncio da mudança do Web Summit para território português em 2016 e com os recentes dados que dão conta de que as startups e scaleups portuguesas estão em crescimento acelerado e em estreita competição com outros países europeus, não restam dúvidas de que há um novo movimento empresarial de base tecnológica. O ecossistema empreendedor português está com um nível de dinamismo consideravelmente superior e as TICE destacam-se entre as áreas de negócio com maior potencial de investimento e internacionalização.

Negativo

Pela negativa, destaco, primeiramente, que continuamos, em 2015, a lutar contra o desfasamento entre a qualificação dos nossos recursos humanos e as necessidades das empresas. Este défice de competências técnicas é penalizador para a competitividade das tecnológicas e carece de uma intervenção estratégica mais abrangente, ainda que o trabalho iniciado pela ANETIE em 2014 tenha já começado a dar resultados. Mas é importante que todos tenhamos consciência disto: o défice de talentos não é um problema só nosso, é o calcanhar de Aquiles da fileira tecnológica de toda a Europa.

Depois, não posso deixar de evidenciar pela negativa um tema que tanto preocupou as tecnológicas nacionais, suscitando a intervenção direta da nossa Associação. Falo da Altice e das novas políticas de gestão impostas aos fornecedores da PT Portugal. Foi uma batalha delicada para estas empresas, sendo que a ANETIE assumiu a representação dos fornecedores e acabou por obter disponibilidade para a resolução das falhas reconhecidas.

Expectativas 2016

Positivo

Estamos convictos de que 2016 é o ano do tudo ou nada na materialização dos objetivos do Mercado Único Digital. Aliando a este projeto a aplicação dos apoios disponíveis no Horizon 2020, a Europa - e Portugal está naturalmente incluído - terá a oportunidade de mostrar ao mundo que tem tudo para entrar na corrida onde os mercados americano e asiático continuam tão bem posicionados.

No caso português, a realização do Web Summit será, certamente, um excelente impulso promocional e operacional para o desenvolvimento da competitividade lusa em áreas como o cloud computing, a internet das coisas e o mobile, bem como em setores complementares como a biotecnologia e até as atividades aeroespaciais. Trata-se de um certame de referência, com um elevado potencial de negócio, particularmente no que toca ao seu impacto a médio prazo. Falo da afirmação de Portugal como polo tecnológico internacional, que alia as valências do seu ecossistema empreendedor com as vantagens inerentes ao posicionamento geoestratégico.

No que depender da ANETIE, em 2016 não faltarão oportunidades de internacionalização e de qualificação, áreas em que vamos dar início a novos projetos. Continuamos empenhados na resposta eficiente e conveniente às reais necessidades dos empresários nacionais e assim orientamos a nossa intervenção institucional, não só ao nível da representação associativa, mas também no que toca ao nosso plano de ação, com a apresentação de alternativas viáveis e sustentáveis face aos constrangimentos internacionais.

Negativo

Não gostaria de começar um novo ano com previsões negativas. Por isso, limito-me a reforçar alguns receios, na sequência dos pontos abordados anteriormente.

Começo por sublinhar o grau de exigência e de compromisso que um projeto como o do Mercado Único Digital impõe no sentido de dar origem a resultados concretos.

Ressalvo ainda a importância de permanecermos atentos relativamente ao problema da escassez de talento, aliado à fuga e dificuldade de atração do mesmo.

Por fim, ainda que veja um enorme potencial no novo movimento empreendedor de base tecnológica, penso que teremos também de permanecer atentos com a possível aproximação da já anunciada “bolha tecnológica” inerente a uma eventual sobrevalorização generalizada das startups. 

(*) Presidente da ANETIE.

  Veja a próxima opinião

 

2015 foi ano de consolidação e há novas perspetivas de evolução em 2016

Por Luisa Lopes Gueifão (*)


Começando por olhar retrospetivamente, 2015 foi, para além de um ano de consolidação, um ano marcado pelo crescimento do .pt e pelo lançamento de novos serviços e iniciativas que acabam por refletir a dinâmica que sempre quisemos impor à nossa atividade enquanto registry nacional do .pt.

Difícil é destacar o que de mais importante foi feito, desde logo, porque os projetos mais emblemáticos irão prolongar-se para 2016. De qualquer forma, não podemos deixar de destacar o desafio que lançámos à comunidade nacional no Concurso de fotografia com o tema “Revela o teu .PT” em que convidámos os portugueses a retratar Portugal e os seus valores de identidade, tendo sido os trabalhos selecionados depois utilizados para o desenvolvimento da nossa campanha institucional.

O crescimento do 3em1, com uma taxa de renovação que atinge já os 50%, merece-nos também especial nota. A nível técnico procedemos à migração, para um sistema autónomo e integralmente gerido pelo DNS.PT, dos nossos sistemas aplicacionais. Realça-se os valores de disponibilidade perto dos 100% dos nossos principais serviços para o exterior, em especial, o serviço de registo do .pt. Procurámos mais e melhor ao nível da segurança, assim lançámos o Registry Lock Service .PT, serviço premium que fornece uma proteção adicional de segurança evitando alterações, transferências ou remoções não autorizadas.

Diga-se que, ao longo do ano, figurámos sempre nas estatísticas do CENTR como um dos ccTLDs europeus que mais cresceu. A taxa de crescimento que anunciamos em 2015, 8%, revela inclusivamente uma tendência adversa àquilo que tem sido o cenário a nível mundial marcado pelo decréscimo no registo de domínios. Por fim, em 2015, concretizámos um sonho que vinha de longe, a criação da LusNIC, uma associação que agrega os congéneres da Associação DNS.PT nos países falantes de língua portuguesa.

A língua portuguesa tem aproximadamente 280 milhões de falantes, o português é a 5ª língua mais falada no mundo e a mais falada no hemisfério sul. Dados recentes revelam que na Internet o português já é a quinta língua mais utilizada; nas redes sociais – Facebook e Twitter – é a terceira. O DNS.PT tem Protocolos formais de Cooperação e opera ou dá apoio à operação técnica dos domínios de topo de .AO (Angola), .CV (Cabo Verde) e .GW (Guiné Bissau. O circunstancialismo ora descrito, levou à sedimentação da ideia de criar uma Associação dos registries de língua Portuguesa, cuja missão central estará focalizada nos seguintes princípios gerais:

•             Cooperar e partilhar conhecimento nas áreas de intervenção dos ccTLDs em matérias técnicas e segurança, legais, promoção e divulgação e desenvolvimento de políticas comuns;

•             Envidar ações conjuntas para potenciar o crescimento sustentado dos domínios de topo de língua portuguesa: .pt ; .br ; .ao; .cv; .gw;  .st; .tl;

•             Promover e colaborar na defesa dos interesses do ccTLDs de língua portuguesa;

•             Promover a utilização da língua e dos conteúdos portugueses na Internet.

 

Um encontro de vontades e necessidades comuns levou os responsáveis pela gestão destes registries, a saber: Centro UNINET da Universidade Agostinho Neto (Angola); Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR – NIC.br; (Brasil); Autoridade Reguladora Nacional das Tecnologias de Informação e Comunicação (ARN-TIC), (Guiné-Bissau); Associação DNS.PT; (Portugal); AGER - Autoridade Geral de Regulação, (São Tomé e Príncipe) e Ministério dos Transportes e Comunicações (Timor Leste), a chegar ao acordo de constituição formal da LusNIC, como associação de direito privado com objeto de cooperação institucional multilateral entre os registries de língua portuguesa no âmbito das suas áreas de intervenção.

2016 encerra o importante ciclo de 3 anos de existência da associação DNS.PT, razão pela qual vale a pena relembrar o enquadramento organizacional preconizado como fator de sucesso para a missão que se pretendia promover: "Contribuir para o desenvolvimento da Internet em Portugal, assente na prestação de um serviço de qualidade, prosseguindo uma política de inovação e atualização tecnológica e garantindo a correta gestão técnica e administrativa do espaço de nomes sob o TLD.pt, orientada para as necessidades e expetativas dos utilizadores".

Para alcançar esta ambiciosa missão importava salvaguardar a independência do modelo, a participação de todos os atores (modelo multistakeholder) e a autossustentação. Só esta estrutura de gestão eficiente e flexível do domínio de topo de Portugal garantia o desenvolvimento harmonioso, livre, aberto, sem discriminação mas seguro da Internet a nível nacional, com a participação dos diversos atores interessados, nomeadamente instituições nacionais, instituições supranacionais, organizações não-governamentais, pequenos e grandes operadores privados e o "público da Internet", composto pelos utilizadores e consumidores.

Quase a concluir este primeiro ciclo, a convicção inicial foi superada e constantemente reforçada pela excelência que a participação de todos os associados (ACEPI, DECO, FCT e IANA) e todos os parceiros (Registrars, membros do Conselho Consultivo, instituições internacionais, fornecedores e outras organizações) com o empenho de todos os colaboradores do DNS.PT, fizeram que aquilo que nos parecia ambicioso fosse apenas um ponto de partida para projetos e crescimento acima do que inicialmente prevíamos.

O .PT  tornou-se, pela ação de todos, mais do que o Domínio de Portugal, é hoje sinónimo de confiança, orgulho, paixão, independência e uma referência nacional e internacional na gestão da Internet.

Com este património soubemos crescer e partir para novos desafios que o ano 2016 vai consagrar. De salientar:

  • o “Selo de Confiança on-Line” a implementar este ano e que sob a égide do .PT junta consumidores (DECO) e Comércio e Serviços (ACEPI);
  • o Portal “ofertaslegais.pt”, cujo objeto central passa pela promoção da cultura, da criatividade e a defesa dos Direitos de Propriedade Intelectual, surgindo o DNS.PT com a função de disponibilização do alojamento e do domínio de suporte ao portal – www.ofertaslegais.pt -, onde será disponibilizada uma lista dinâmica de sítios com ofertas legais nas áreas da música, videojogos, livros, audiovisual e eventos desportivos;
  • o reforço e dinamização do projeto “3em1.pt”, no qual é atribuído juntamente com os nossos Registrars,  a quem crie uma empresa, associação ou sucursal na hora, ENH, um pacote de serviços gratuitos, pelo período de um ano, que inclui um domínio registado sob .pt, uma ferramenta para desenvolvimento de um site e respetivo alojamento técnico e caixas de correio eletrónico;
  • a 3º edição concurso sitestar.pt lançado em parceria com a DECO, tendo-se associado também INPI/GDA/SPA e a IGAC, e que desafia pelo terceiro ano consecutivo os estudantes dos 14 aos 18 anos a desenvolver websites originais com conteúdos em português e sob o domínio .PT;
  • as várias parcerias que queremos manter com os Registrars, como parceiros premium, nomeadamente: Organização de sessões de formação de cariz técnico ou administrativo sobre matérias relativas ao processo de registo de domínios .pt; Criação de um programa de fellowship, financiado pelo DNS.PT, por forma a garantir a presença de registrars em fóruns internacionais; Programa de co-branding para duas campanhas a decorrer nos dois semestres do ano; Implementação da nuvem Anycast de .PT.

 

2016 será, também, o ano de início de atividade da LusNIC – Associação de Registries de Língua Portuguesa , devendo o DNS.PT assumir um papel de liderança e impulso nas diversas ações visíveis e efetivas que contribuam para promover e colaborar na defesa dos interesses do ccTLDs de língua portuguesa.

Manteremos e reforçaremos a colaboração institucional, técnica, administrativa e jurídica com os países de expressão portuguesa que ao longo destes anos temos vindo a apoiar: .GW, .AO, .CV e .ST (neste último caso com o desafiante processo de redelegação junto da IANA).

A aposta na inovação e desenvolvimento da Internet em Portugal e a crença nos novos talentos leva-nos a um investimento reforçado num Programa de Apoio a Mestrados, iniciado em 2015, na área da engenharia informática que acreditamos ser um meio de desenvolvimento das Universidades (IST e Nova), dos alunos e do DNS.PT e de crescimento da qualificação nesta área tão necessária ao nosso país.

Por último mas base de todas as nossas ações, centrados na fiabilidade e resiliência técnicas dos serviços de que somos responsáveis, 2016 será o ano de afirmação da autonomia da nova infraestrutura técnica implementada em 2015 e de um novo paradigma de atuação com a implementação e certificação do referencial ISO 27001:2013 – Segurança da Informação.

Manteremos e reforçaremos também o foco na segurança do protocolo DNSSEC, promovendo o acompanhamento das práticas internacionais para a sua disseminação na Internet portuguesa, com a concretização de um piloto de Rollover das chaves DNSSEC (KSK) e com a Implementação do protocolo DANE no DNS.PT.

Sabemos que a atividade dos ccTLDs tem vindo, em termos gerais, a conhecer um abrandamento do crescimento de registos, estamos, no entanto, a contrariar esta tendência ao longo dos últimos 3 anos. Cientes de continuar a apostar na divulgação do .PT e da imagem de confiança junto das empresas, reconhecemos um potencial de crescimento que nos faz acreditar em valores acima dos 5% de aumento de novos registos em 2016.

Podemos dizer que 2016 significará diversificação de atividade e crescimento, o que só nos pode fazer agradecer a todos os que têm acreditado na nossa missão e nos têm desafiado a ser cada vez melhores e diferentes, em especial, a todas as pessoas que formam a equipa do DNS.PT que sem hesitação e com esforço e dedicação têm colocado o seu melhor em prol do .PT e da sua afirmação enquanto uma referência no mundo digital.

 

(*) presidente da associação DNS.pt 

 

  Veja a próxima opinião

O bom, o mau e o melhor das TIC 

Pela Direção da APDSI (*)


A atualidade do ano que agora termina voltou a ser fortemente marcada pelos avanços da tecnologia.

Para a APDSI houve aspetos positivos nestes avanços, nomeadamente na área da saúde, já que a Associação começou 2015 a congratular-se pela decisão do Ministério da tutela de tornar obrigatória a prescrição eletrónica, a par das melhorias a que fomos assistindo no decorrer do ano no Portal da Saúde. O sistema de informação e monitorização do Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente a metodologia de acompanhamento de cuidados de saúde primários, constituem avanços importantes para o cidadão.

Ainda na Sociedade da Informação, Portugal foi um dos países que parece ter reagido mais efusivamente ao anúncio do fim das tarifas de roaming na União Europeia, que virá a concretizar-se em junho de 2017 (ainda que os operadores de comunicações não partilhem desse entusiasmo). Para quem viaja com frequência entre os Estados Membros a expectativa da preparação da viagem colidia sempre com a preocupação com os sobrecustos de se manter “ligado”, pelo que a notícia era muito esperada.

Nos computadores, o ano ficou marcado pelo lançamento do Windows 10. Uma das novidades reside no facto de já ter sido pensado para se adaptar à era da “Internet das coisas”, com o foco nas apps. Regozijámo-nos pelo regresso do “start menu”. O novo sistema operativo reforça a tendência da indústria das TIC, particularmente no segmento dos utilizadores individuais, que tem vindo a “forçá-los” a adotar crescentemente serviços e aplicações disponibilizados a partir da Nuvem e para funcionarem na Nuvem - o que corresponde genericamente a levar os utilizadores a mudarem muitos dos seus  hábitos.

Numa nota menos positiva, fica a preocupação da APDSI com os temas da privacidade e da segurança, que debatemos em 2015, e que estão potenciados por influência das tecnologias. Dando a devida margem ao exagero, a sensação dominante é a de que já ninguém pode “dormir descansado” a partir do momento em que tenha um smartphone ou tablet por perto. Há, efetivamente, um excesso de informação requerida ao cidadão para qualquer movimentação online e, ao mesmo tempo, grande desconhecimento sobre a utilização que dela é feita a seguir.

Na modernização administrativa do Estado, continua por assegurar maior agilidade, capacidade de ação e eficiência nos serviços onde é crítico promover uma cultura e um ambiente de maior colaboração, exigência e responsabilização, conferindo simultaneamente maior liberdade operativa e reforçando as capacidades de gestão. Ainda há um longo caminho a percorrer até que os objetivos dos serviços do Estado estejam orientados aos resultados para os utentes. Entendemos que do rigor na gestão orçamental não tem que resultar falta de flexibilidade e burocracia.

Neste domínio, foi divulgado que mais de 80% da população utiliza o Cartão do Cidadão, mas apenas 1% tira partido da valência eletrónica do documento. A chave móvel digital continua a não ser um instrumento popular ou massivamente utilizado.

Sinal “menos”, ainda, para a acessibilidade web a cidadãos com necessidades especiais. A usabilidade das plataformas de comércio eletrónico nas mil maiores empresas e PMEs portuguesas tem tido uma evolução pouco significativa. Continuamos a ter erros sistemáticos, que são banais e simples de resolver, e que estão a limitar fortemente a qualidade de vida dos cidadãos com deficiência.

No fecho de 2015 destacamos, ainda, duas questões que mereceram atenção da APDSI: a aprovação da Nova Lei da Cópia Privada e a relação entre as tecnologias e emprego.

Em parceria com a VdA, recordámos que a Lei da Cópia Privada já existe desde 1998, tendo sido revista em 2004, e novamente agora em 2015. A premissa da lei é que, enquanto clientes, devemos pagar uma taxa de utilização dos suportes físicos ou digitais compensando assim os autores pela pressuposta cópia privada das suas obras. No que concerne ao âmbito de aplicação, a lei não é extensível a programas de computador e bases de dados constituídas por meios informáticos; aplica-se a todos os aparelhos que permitam a fixação de obras e suportes materiais virgens (smartphones, discos externos, cartões de memória, leitores de mp3 e tablets). A aplicação da lei aos smartphones é polémica porque coloca a hipótese de surgir algum fabricante que admita ser possível separar a capacidade utilizável do aparelho para a reprodução de obras protegidas, resultando numa compensação equitativa.

Ainda no balanço do ano, embora reconhecendo-se que as tecnologias, e em particular as que caraterizam a Sociedade da Informação, destroem emprego, por exemplo substituindo tarefas administrativas por processamentos informáticos, é preciso relevar que criam emprego, o chamado "Emprego Digital" que tem merecido uma especial atenção da Comissão Europeia, traduzida em Portugal pela iniciativa "Coligação Portuguesa para a Empregabilidade Digital". Foi a esta importante relação entre as tecnologias e o emprego que a APDSI dedicou o seu Fórum da Arrábida deste ano.

Quanto ao futuro próximo, a APDSI antevê que 2016 vai ser o ano da Segurança, o ano em que vamos perceber melhor que nenhuma instituição está imune a  interferências ilícitas, sobretudo por parte de hackers. A cibersegurança promete estar na ordem do dia na medida em que, com a mobilidade e as capacidades dos dispositivos tecnológicos a serem cada vez mais evidentes e banais, as organizações vão estando também cada vez mais vulneráveis. É claro que o mesmo vai acontecer com a Sociedade em geral. A segurança de dados é já, hoje em dia, um grande e próspero negócio.

A comunicação entre carros é outro assunto que não vamos poder ignorar em 2016. Se, por um lado, a tecnologia promete tornar a condução mais segura, num mundo em que milhões de automobilistas morrem nas estradas todos os anos, por outro os carros auto pilotáveis ainda apresentam deficiências graves com os sensores que comunicam com o software a serem afetados por condições meteorológicas adversas, e com o facto de não conseguirem lidar bem com obstáculos inesperados nem com alterações de última hora no trânsito. Por exemplo, a GM Motors já anunciou que pretende ter em 2017 um Cadillac completamente equipado e a funcionar com base na chamada “car-to-car communication”. No entanto, temos que ter em atenção que por mais avançadas que sejam estas soluções, ainda muito haverá que fazer por parte de entidades nacionais e regionais – muita legislação terá que ser revista; muitas infraestruturas rodoviárias terão que ser renovadas; muitos hábitos terão que ser adaptados.

Para os carros auto pilotáveis e para os drones, urge a criação de legislação própria, principalmente para o seu uso civil ou comercial (sendo também necessário que isso aconteça para a sua utilização com fins de segurança pública e de Defesa). Embora os benefícios da tecnologia dos drones ainda não sejam suficientemente claros (as preocupações avolumam-se com os problemas que podem trazer e já trouxeram, nomeadamente nos Estados Unidos), ela corresponde à criação de dispositivos móveis que vão resultar (conforme os fins de cada modelo) da aplicação convergente de várias tecnologias em evolução) e que vão continuar a dominar as atenções e terão impactos significativos no funcionamento das sociedades. A adoção de drones para muitos e diversos fins acompanhará essas mudanças no funcionamento das sociedades, criando novas profissões como por exemplo, “piloto de drones”.

Do ponto de vista ético, tornar o acesso à Internet global é, em nosso entender, outro assunto cuja discussão vai continuar em 2016, a par das questões de justiça social que se vão tornar mais imperativas dado o mainstream que são as redes sociais.

Por último, e embora ainda não sejam conhecidas em detalhe as intenções do novo governo em relação aos temas centrais do desenvolvimento da Sociedade da Informação, um dos quais a Administração Pública Eletrónica, a informação até ao momento tornada pública alimenta expectativas elevadas de um redobrado impulso na digitalização dos serviços públicos e na redução dos custos de contexto para cidadãos e empresas na sua relação com o Estado.

Pensamos que urge clarificar o que pensa o Governo relativamente à governação e à ação de entidades que são peças-chave na aplicação de uma Estratégia Nacional de Cibersegurança (que, tal como acontece com qualquer outra estratégia, necessita de ser revista), cuja organização e ação deverão ser primordialmente orientadas para a proteção de cidadãos, de empresas, do sector público e do terceiro sector, enquanto utilizadores do ciberespaço e que dele dependem cada vez mais. Neste quadro, a Proteção de Dados individuais e a Privacidade deverão constituir uma preocupação fundamental de regras e das práticas seguidas.

Uma inadequada atenção sobre estes aspetos irá minar a confiança dos cidadãos e de empresas, com impacto evidente nas formas como inovam e utilizam o ciberespaço.

(*) Associação para a Promoção e Desenvolvimento da Sociedade da Informação

 

  Veja a próxima opinião

Open Source a caminho da maturidade mas com desafios a enfrentar

Por Álvaro Amorim Pinto (*)

Em 2015 a ESOP continuou a prossecução dos seus objectivos de divulgação e promoção das tecnologias abertas e das empresas portuguesas que prestam serviços e desenvolvem produtos open source.

O enquadramento legal favorável à adopção de tecnologias open source pelos serviços públicos manteve-se em 2015. Hoje Portugal tem um enquadramento legal de referência, em matéria de adopção de open source no sector público, que estimula a utilização de tecnologias e normas abertas e que se pode traduzir em maior eficiência e melhores serviços para o cidadão e empresas.

A efectiva adopção e utilização destas tecnologias pelos serviços públicos tem vindo a acontecer, mas a um ritmo inferior ao esperado face ao enquadramento político e legal existentes e à capacidade de oferta do sector. Este cenário resulta de diversos factores, dos quais destacaríamos a falta de recursos técnicos qualificados, indispensáveis ao suporte e desenvolvimento de projectos tecnológicos na administração pública.

Ainda assim, há vários projectos públicos de adopção de open source que merecem destaque. Um bom exemplo é o Instituto de Informática da Segurança Social, que foi um dos nossos nomeados para o prémio Abertura 2015, o qual visa reconhecer projectos que se evidenciaram pela utilização de tecnologias open source e que tem vindo a adoptar soluções open source de forma consistente. A este propósito, importa referir que o vencedor deste ano foi a TAP Portugal com o seu portal online. É motivo de orgulho vermos as tecnologias abertas a serem a escolha de grandes organizações nacionais.

Após um compasso de espera de alguns anos,  em 2015 o modelo de contratação pública electrónica sofreu mudanças significativas no seu enquadramento legal. Algumas das medidas agora adoptadas foram publicamente defendidas pela ESOP, com o objectivo de tornar os procedimentos de contratação mais fáceis e menos onerosos para as empresas e permitir maiores ganhos de eficiência para o Estado. É importante que em 2016 o controlo da qualidade das plataformas electrónicas e a monitorização destes processos permita agir de forma mais célere sempre que surgem obstáculos ao seu bom funcionamento.

Continuando um trabalho que já vem de anos anteriores, a ESOP monitorizou, ao longo do ano de 2015, os procedimentos de contratação pública para aquisição de software e foram inúmeros os casos detectados de falsos concursos públicos. Ou seja, procedimentos em que é exigido o fornecimento de produtos de um determinado fabricante, ou a inclusão de requisitos técnicos específicos de um produto de um fabricante, desrespeitando-se os mais elementares princípios da contratação pública. Nesta matéria ainda há um longo caminho a percorrer.

Para as empresas associadas da ESOP 2015 ainda foi um ano difícil, dada a conjuntura económica e considerando o fraco investimento em TIC nos sectores público e privado. O investimento em mercados externos continuou a ser uma resposta e uma tendência.

Em 2015 o ecossistema de start-ups nacionais de cariz tecnológico ganhou maturidade e hoje temos empresas portuguesas que se destacam no panorama internacional, muitas delas com soluções tecnológicas baseadas em software open source. É motivo de orgulho para todos nós e é importante  garantirmos condições cada vez mais competitivas de acesso à inovação, ao investimento e também de formação de bons quadros técnicos.

O que se perspectiva para 2016

A ESOP identifica alguns desafios importantes para 2016. Em primeiro lugar, estamos no início de um novo ciclo político em Portugal. Importa, por isso, reflectir sobre o caminho realizado nos últimos anos em matéria de TIC e avaliar os resultados alcançados. A ESOP está empenhada neste processo, de forma a dar o seu contributo para a definição da estratégia para este sector nos próximos anos.

Nesta matéria, destacamos cinco desafios importantes para 2016:

1. Acelerar o processo de simplificação e modernização dos serviços públicos através da utilização de tecnologias abertas, standard e facilmente interoperáveis, com uma forte aposta na sua adequação à utilização em dispositivos móveis;

2. Reforçar a promoção da utilização de tecnologias open source junto dos serviços públicos através da divulgação de casos de sucesso;

3. Investimento no desenvolvimento de soluções partilhadas por múltiplos serviços, em open source e investimento na formação de recursos humanos;

4. Fomentar a participação dos cidadãos e do sector público nos processos de governação e modernização administrativa através de plataformas de crowdsourcing, open data, smart cities, entre outras;

4. Definir um enquadramento claro para a adopção de serviços cloud pelos serviços públicos, que garanta a utilização de normas abertas, a independência de fornecedores, a efectiva avaliação de TCO, o controlo dos custos de saída, a segurança e confidencialidade dos dados.

As tecnologias open source são um instrumento fundamental para a formação e expansão da indústria nacional de base tecnológica. É graças às tecnologias open source que hoje é possível lançar ideias inovadoras e criar start-ups tecnológicas de forma rápida, fácil e barata.

E para garantir a qualidade do ecosistema nacional de start-ups tecnológicas, é importante investir mais na formação em open source e nos projectos de investigação e desenvolvimento no ensino superior em Portugal.

No contexto global, as tecnologias open source continuam a ter um papel central nas plataformas móveis. Hoje a maioria dos equipamentos móveis do tipo smartphone e tablet utilizam sistemas operativos open source. E no mercado em expansão da IoT (internet of things) o software open source, as normas abertas e a interoperabilidade são instrumentos fundamentais para a proliferação de soluções mais inteligentes e eficientes.

(*) Presidente da ESOP Associação de Empresas de Software Open Source Portuguesas


 

  Veja a próxima opinião

Mudança de paradigma do comportamento do consumidor em destaque

Por DECO 


Sem prejuízo da crise económica que todas as famílias sentiram, 2015 conseguiu ainda assim revelar-se um ano positivo para a defesa do consumidor, uma vez que assistimos à mudança de paradigma do comportamento do consumidor perante as empresas, os decisores políticos e a sociedade em geral.

São disso exemplo as várias iniciativas que a DECO lançou durante este ano, nomeadamente o Cartão DECO+ que já atribuiu 2 milhões de euros de descontos imediatos, o abaixo-assinado a exigir regras para a refidelização dos contratos de comunicações eletrónicas e a recente campanha de informação e apoio relativa às cauções prestadas pelos consumidores no âmbito dos contratos de energia e água, ações estas que contaram com mais de duzentos mil consumidores que a nós se juntaram para obter poupanças, maior transparência e reembolso de valores que lhes pertenciam.

Paralelamente, foram ainda adotadas diversas iniciativas no âmbito de reivindicações da DECO, nomeadamente a limitação e eventual eliminação dos custos do roaming para os consumidores europeus que contou também com o apoio de outras congéneres internacionais – a adoção por parte do Banco de Portugal de medidas que permitiram aos consumidores ter acesso à base de dados de contas bancárias no seu portal. Também a possibilidade de os consumidores que utilizem gás de botija, poderem efetuar a troca em qualquer fornecedor, a alteração de regras respeitantes ao IMI, a nova lei que veio proibir práticas desleais em saúde reforçam o saldo positivo deste ano para os consumidores e refletem a importância do movimento associativo. Já recentemente a aprovação, no Parlamento por unanimidade, da petição da liberdade na fidelização dos contratos de telecomunicações foi demonstrativa da força dos consumidores.

No entanto, o ano de 2015 também ficou marcado por acontecimentos negativos para os consumidores e que demonstraram que ainda existe um longo caminho a percorrer no âmbito da introdução de regras que melhor salvaguardem os direitos dos consumidores e uma adequada e efetiva fiscalização por parte de entidades reguladoras e fiscalizadoras. Exemplo disso é a própria crise do sistema financeiro, com a insolvência de dois bancos portugueses que expõem a vulnerabilidade da supervisão, várias vezes alertada pela DECO. A eliminação dos Conselhos Consultivos em algumas Entidades Reguladoras como a ANACOM, onde, perante as queixas dos consumidores mais se sente a necessidade da intervenção da sociedade civil nos processos regulatórios não pode deixar de ser um marco negativo para a história da defesa do consumidor. Outro exemplo prendeu-se com o recente escândalo da VW em que, mais uma vez, se verifica que a fiscalização é insuficiente e vulnerável ao avanço tecnológico e às condutas das empresas. Este ano também assistimos a um condicionamento do exercício dos direitos dos consumidores no caso da ocorrência de circunstâncias extraordinárias nos transportes públicos e a política de liberalização do mercado energético continua a carecer de verdadeiros incentivos e de maior independência, bem como de uma fiscalização mais assertiva, atentas as queixas dos consumidores.

2016 irá trazer, certamente, muitos desafios, nomeadamente sobre áreas ainda disruptivas como o mercado digital, a sustentabilidade, a saúde, as comunicações eletrónicas e a energia. Esperamos que no próximo ano, possamos ter reguladores mais proactivos, melhor qualidade dos serviços e dos bens, maior acesso dos consumidores a serviços essenciais, melhor proteção dos consumidores vulneráveis e sobretudo que estes estejam sempre no centro das políticas de mercado, nacionais e internacionais, representados pelas suas Associações que, através da sua mobilização, maior voz dará às suas reais necessidades e problemas, no seu dia-a-dia.

Cada consumidor contará, individualmente, com a DECO para o acompanhar na resolução dos seus problemas e para lhe garantir que todas as suas escolhas sejam sempre as mais acertadas.

(*) Associação de Defesa do Consumidor


 

  Veja a próxima opinião

Cloud Computing no centro da revolução digital na Europa em 2016

Por Paulo Calçada (*)

 

O desenvolvimento do Cloud Computing na Europa tem sido efetuado de forma quase silenciosa, mas de acordo com estudos recentes poderemos mesmo afirmar que este desenvolvimento tem na verdade acontecido de forma muito “tímida”. Segundo estudos do Eurostat, na Europa menos de 20% das empresas utilizam soluções Cloud. Quando comparamos este cenário com números do mercado americano, onde estudos idênticos apontam para valores de utilização superiores a 80%, torna-se claro que ainda é necessário percorrer um longo caminho para que a adoção da Cloud na Europa seja uma realidade. Sem uma forte procura, e existindo do lado da oferta um enorme conjunto de barreiras, as oportunidades criadas, pela tão espera revolução apresentada por este novo paradigma, têm demorado a ter o impacto esperado.

São conhecidas muitas das debilidades e obstáculos do mercado Europeu que contribuem para este cenário. Para além da fragmentação existente no mercado digital, resultado das barreiras à criação de um verdadeiro mercado digital Europeu, que impedem, por exemplo, o desenvolvimento de operadores locais com serviços à escala Europeia, existem também questões fundamentais relacionados com segurança e privacidade dos dados. Este fator é particularmente determinante pois tem um impacto na procura, pela redução da confiança dos consumidores e, ao mesmo tempo, tem um impacto na oferta de soluções, pois impossibilita que os fornecedores, em particular os fornecedores de referência americanos, como exemplo,  Google, Microsoft, IBM, Rackspace, entre outros, desenvolvam verdadeiras estratégias de escala Europeia.

Apesar dos esforços para que o acordo de “Safe Harbor”, que existia entre a Europa e os Estados Unidos, pudesse ser utilizado pelas empresas americanas para declarar que executam os seus serviços de acordo com a legislação de proteção de dados Europeia, salvaguardando assim em particular os dados na Cloud, o ano de 2015 poderá ser considerado um grande ponto de viragem no desenvolvimento de politicas neste campo. Após um processo apresentado pelo estudante universitário Austriaco, Max Schrems, contra o Facebook, o Tribunal Europeu de Justiça, no Luxemburgo, decretou a anulação do acordo “Safe Harbor” em Outubro de 2015.

Como resposta imediata a este processo, empresas como a Salesforce e a Microsoft têm desenvolvido estratégias para aumentar a confiança dos seus consumidores Europeus. A Salesforce viu recentemente aprovado pela autoridade Francesa para a proteção de dados, o pedido de validação de um código de conduta do tipo "Binding Corporate Rules" (BCR), no entanto este tipo de acordos é considerado por muitos especialistas um instrumento  frágil, por exemplo, em Portugal existem muitas dúvidas de que a Comissão Nacional de Proteção de Dados aceite este tipo de mecanismos. No caso da Microsoft, e para além de também recorrer a mecanimos idênticos aos utilizados pela SalesForce, é importante referir o exemplo do acordo que a Microsoft alcançou em Novembro de 2015 com Deutsche Telekom (DT). Neste acordo a DT funcionará como um “fiel depositário” dos dados existentes nos serviços fornecedidos pelas infraestruturas criadas no âmbito desta parceria, salvaguardando assim a total proteção dos dados dos utilizadores na Alemanha.

O ano de 2016 será sem dúvida um ano decisivo neste campo, pois todas as medidas que agora estão a ser desenvolvidas, como são exemplo os esforços da Microsoft e da Salesforce, vão ser verdadeiramente testadas pelo mercado, e mais importante, surgirão com certeza novos processos processos judiciais, colocando assim uma verdadeira pressão nas autoridades europeias e americanas para que se encontrem soluções mais estáveis e duradouras.

Neste âmbito, a Comissão Europeia tem concentrado grande parte dos seus esforços na revisão da diretiva de proteção de dados, visando dar o total controlo dos dados aos cidadãos e simplificar a regulamentação para as empresas. Como resultado deste esforço espera-se que durante 2016 possamos ter acesso a um modelo de regras comum para a proteção de dados em todos os paises da comunidade europeia.

Como referido, o tema da proteção de dados e privacidade é um dos grandes obstáculos ao desenvolvimento da Cloud na Europa, no entanto a inexistência de um verdadeiro mercado digital Europeu é sem duvida um dos grandes responsaveis pelo “tímido” crescimento na adoção de Cloud Computing pelos Europeus. De acordo com números da própria Comissão Europeia, cerca de 325 milhoes de europeus utilizam a Internet todos os dias, no entanto só 4% utiliza serviços fornecidos por um fornecedor Europeu fora do seu país, sendo que 54% utiliza serviços fornecidos por empresas americanas. Para este cenário contribuem fatores como a complexidade legal, dificuldades no processamento do IVA, os custos na entrega final dos serviços, ou mesmo o processamento das garantias e devoluções. Para resolver todos estes problemas, e criar um verdadeiro mercado digital europeu, a Comissão Europeia apresentou em finais de 2015 a proposta para a criação do “Mercado Único Digital”, esta iniciativa é liderada pelo Vice Presidente da Comissão Europeia, Andrus Ansip, e pelo comissário Gunther H. Oettinger. Já em 2016 vão ser apresentadas propostas para a reforma da propriedade intelectual digital e para a simplificação do IVA. Mais importante ainda, vão ser apresentadas medidas claras para a livre circulação de dados e para que seja desenvolvida uma verdadeira plataforma de Cloud Europeia.

Com esta iniciativa, a Europa demonstra que apesar do desenvolvimento silencioso, ou crescimento “tímido”,  continua a acreditar que o Cloud Computing possui um papel único, e central, na revolução digital que se espera aconteça já em 2016.

 

(*) fundador da European Association for Cloud Computing (EuroCloud) e presidente do capitulo português da associação


 

  Veja a próxima opinião

 

Economia portuguesa precisa de um sector de telecomunicações forte

Por Apritel (*) 

Visto um pouco em retrospetiva, o setor nacional das comunicações eletrónicas assistiu a profundas alterações estruturais entre 2013/2014 (com a fusão Zon/Optimus) e 2015 (com a venda da Cabovisão e Oni à APAX pelo Grupo Altice e a compra, por este, da PT), ao mesmo tempo que a economia nacional dava os primeiros sinais de saída de um ciclo de crescimentos negativos. Porém, apesar da evolução das taxas de crescimento do PIB -1,6% e 0,9% em 2013 e 2014 (a preços constantes), respetivamente, nesses mesmos anos o rendimento global das comunicações eletrónicas foi de -7,3% e -9,2%, também respetivamente, registando, portanto, quebras acentuadas em disparidade com os valores da economia nacional, que começava a registar crescimento negativo moderado e princípios de crescimento positivo. 

Quanto a 2015, os dados da ANACOM relativos aos 3 primeiros trimestres de 2015 denotam uma redução nas receitas dos serviços móveis, de -18,8%, nos fixos, de -14,4%, mas um aumento das receitas dos serviços em pacote de 32%. Porém, em termos totais, este aumento não compensou as reduções das outras modalidades de venda já que o 3.º trimestre de 2015 regista uma variação das receitas  no totais de -2,5% face ao período homólogo de 2014. 

Visto na perspetiva da evolução das receitas médias mensais por acesso, são boas notícias para os consumidores portugueses a constatação de uma redução de 0,9% na receita média mensal por acesso, que acomoda uma variação de -17.7% nos serviços móveis, de 1,4% nos serviços fixos e de 18% nos pacotes. Pode notar-se que o aumento da receita média mensal associado às vendas em pacote não anulou o efeito dos cortes de despesa dos clientes, já que, na média da totalidade das modalidades de serviços e pacotes, a fatura mensal registou uma redução perto de 1% nos três primeiros trimestres.

Estes dados demonstram de forma clara que certas formas de cálculo ou métodos estatísticos de cálculo da evolução de preços no setor em Portugal que têm sido publicadas alegando haver aumentos de preços não espelham a realidade. De facto, os consumidores de comunicações eletrónicas em Portugal diminuíram a fatura média mensal que pagam aos operadores.

Para o ano que começa, só se pode contar com o forte empenho de todo o setor para investir na oferta competitiva de mais e melhores serviços e seus atributos e no desenvolvimento de sinergias com outros setores da economia nacional. 

Com efeito, é nas comunicações eletrónicas, nas plataformas do digital, que se alicerçam a sociedade e a economia digital e, portanto, este é um setor de base ao desenvolvimento transversal da economia nacional, criando inúmeras oportunidades para o florescimento da criatividade, o sucesso do empreendedorismo português e mesmo para a renovação da indústria e dos setores primário e terciário, por todo o potencial associado à computorização de processos e sua gestão em rede. 

A APRITEL advoga a contínua promoção do setor como trunfo para a afirmação do País como centro de competências de excelência nos vários ramos da Sociedade da Informação e espera-se que os agentes políticos e regulamentares nacionais reconheçam todo este seu potencial, procurando desonerar sistematicamente o setor e promover as melhores condições económicas e técnicas para que este se afirme como sustentáculo do desenvolvimento da economia nacional.   

Sob as condições certas, o ano de 2016 pode esperar a melhoria contínua da satisfação dos consumidores pela maximização dos benefícios disponibilizados aos clientes, pelo trabalho próximo e dinâmico com as empresas e a Administração Pública, e pela contínua capacidade de surpreender os consumidores  residenciais e empresariais ou institucionais portugueses no acesso aos mais recentes e inovadores produtos e serviços. 

(*) Associação dos Operadores de Telecomunicações


 

  Veja a próxima opinião

TIC e Media - chave para a Economia e Cidadania Digitais

Pela Direcção da APDC


Em tempos ímpares, de profundas mudanças e de enorme imprevisibilidade, não só ao nível económico como político e social, 2016 é visto pelo setor das TIC e Media com um otimismo moderado desejando que se verifique alguma retoma da economia num contexto internacional de grande complexidade.

Depois de anos de congelamento dos investimentos, o tecido empresarial nacional terá que aprofundar a mudança para o digital. Mais do que uma opção, esta transformação é agora um imperativo para garantir a sobrevivência num mundo cada vez mais global.

2015 foi um ano marcado por uma crescente aposta nas tecnologias e na inovação. Especialmente com as novas startup’s, que apostam no seu business case e numa economia cada vez mais global. Mas também nas empresas menos recentes que continuaram a sua política de trabalhar cada vez mais para mercados internacionais, para crescer e compensar a perda de receita doméstica.

Esta retoma, ainda ténue, registada ao longo de 2015, teve impactos positivos nas TIC e Media. Depois de anos de perdas acentuadas de receitas, decorrentes do congelamento dos investimentos e da retração do consumo, houve no ano passado sinais de reanimação: nas Tecnologias de Informação, já se registou crescimento, ainda tímido; nas comunicações, desacelerou o ritmo de queda das receitas; e nos media a publicidade voltou a reanimar.

Em paralelo, o setor voltou em 2015 a registar novos movimentos de consolidações, aquisições, parcerias, reorganizações e reestruturações. Não apenas ao nível nacional – onde se destacou a entrada da Altice como novo acionista único da PT Portugal e a consequente venda da Cabovisão e Oni - como internacional. Operações como a compra da Alcatel-Lucent pela Nokia, num processo de fusão que será finalizado a 14 de janeiro, dando lugar a um novo gigante mundial, a cisão da HP (em novembro último) em duas empresas ou a parceria global entre Cisco e Ericsson terão certamente impactos no mercado português.

Ajustar-se, ganhar escala, garantir capacidade de investimento e ter as respostas mais diferenciadoras e inovadoras a um mundo em mudança continuam a ser prioridades e objetivos de todos os players do ecossistema, que se posicionam para ‘agarrar’  as novas oportunidades de negócio decorrentes da necessidade de transformação para o digital.

O setor dispõe hoje de uma oferta de infraestruturas de comunicações que está entre as melhores do mundo. Os operadores vão investir no seu reforço, tanto em capacidade como em abrangência, como mostram os recentes anúncios da PT e da Vodafone. A inovação é cada vez mais central no setor, garantindo uma oferta de soluções TIC das mais avançadas do mundo, com produtos e serviços cada vez mais centrados nas necessidades concretas do mercado e em propostas que acrescentem valor.

São estas soluções TIC que têm estado na base da multiplicação dos exemplos de sucesso de projetos inovadores. Especialmente vindas de novas empresas que pensam ‘fora da caixa’ e se assumem desde o arranque como globais e que colocam cada vez mais Portugal em destaque no panorama mundial, em termos de empreendedorismo e inovação tecnológica.

A presença do Web Summit, o maior evento de tecnologia e empreendedorismo europeu, nos próximos três anos na cidade de Lisboa, confirma a boa imagem que o País está a construir. Muito também graças ao facto de serem cada vez mais os projetos de investimento de várias multinacionais em centros de competências e de serviços internacionais sediados em Portugal. Aliás, a consultora Gartner reconhece o País como um dos mais atrativos para o fornecimento de serviços de TI e outsourcing/nearshoring.

Casos como estes inspiram-nos e mostram que é possível mudar de paradigma e apostar com sucesso no digital. A Europa não garantiu uma posição de liderança neste domínio face às grandes regiões do mundo que são suas principais concorrentes, já que, se há novos grandes players globais no setor, são quase todos de origem norte-americana e asiática. O projeto da Comissão Europeia de criar um verdadeiro Digital Single Market (DSM) está em marcha e traz com ele alguns receios pelo seu impacto negativo para algumas áreas. Como as decisões sobre a neutralidade da rede e o roaming, que entrarão em vigor em abril próximo. No roaming, cujo preço voltará a descer em abril e desaparecerá em 2017, o impacto negativo para Portugal, dadas as assimetrias verificadas entre os países do Norte e do Sul, é evidente, criando desequilíbrios na balança de pagamentos (minutos de roaming entre os países).

Destaca-se ainda o processo de revisão do quadro regulatório europeu, iniciado pela Comissão em setembro de 2015, prosseguirá ao longo de 2016, sendo expectável que surjam propostas legislativas durante o segundo semestre. Tendo em conta a realidade convergente e digital da década 2020-2030 e a necessidade de promover o investimento em redes de acesso de alta velocidade, a expetativa é que o novo quadro seja mais simples e não discriminatório, menos interventivo e com menos regulação ex-ante. Cedendo espaço a instrumentos horizontais, quer no âmbito da regulação ex-post, no domínio do Direito da Concorrência, quer através de legislação específica de aplicação transversal.

Salvaguardadas estas condições, que garantirão a capacidade dos players do mercado e a concorrência sã, a construção de um mercado digital europeu assume-se como uma grande oportunidade. Não apenas para a Europa como um todo, mas também para o nosso País, que pode e deve agarrar apostar na sua transformação para o digital. E há fundos disponíveis para investir, nomeadamente através de programas comunitários estruturais, para a mudança. Como o ‘Portugal 2020’, orientado para a competitividade, inovação e internacionalização, ou o programa europeu ‘Horizonte 2020’. Por isso, desejamos uma retoma do investimento, que seja transversal a todos os setores de atividade e dimensão das empresas.

Sabemos que este é um processo que não será fácil nem rápido, que exige novas formas de pensar e de fazer negócio e que implica agilidade e capacidade de adaptação permanente. Mas está ao nosso alcance. Mobilidade, cloud computing, tecnologias sociais, big data, analítica e Internet das Coisas (IoT) terão que ser olhadas como ferramentas essenciais para o futuro e que terão que estar cada vez mais na agenda de todos os gestores de todas as áreas. Porque só elas garantem a mudança, a eficiência e a competitividade.

E o setor está preparado, como ficou bem evidente no 25º Congresso das Comunicações, da APDC, o maior evento nacional das TIC e Media, que se realizou no final do ano passado. A regulação setorial tem pela frente desafios e dossiers a resolver. Como a decisão final sobre a o preço das ligações entre o Continente e as Regiões Autónomas, contribuindo para dar às populações mais e melhor escolha, reforçando o acesso destas regiões à revolução digital.

Nas comunicações, haverá mais investimento em fibra. E as opiniões dividem-se entre os players que apostam em redes próprias e os que defendem a adoção de um modelo de coinvestimento, com vantagens como garantir um investimento mais racional, assegurar mais e melhor concorrência para o país e maior cobertura de territórios e populações mais desfavorecidas, além de minimizar os inconvenientes ambientais decorrentes da construção desregrada de infraestruturas.

Na guerra da diferenciação, a luta entre os grupos com plataformas de comunicações trava-se agora nos conteúdos, com destaque para os desportivos. Há quem defenda a aposta em conteúdos exclusivos. Há quem esteja completamente contra, argumentando que a concorrência deve estar centrada na relação preço/qualidade de serviço e não deve ser desvirtuada pela exclusividade de conteúdos relevantes. Até porque limita a maximização das audiências num mercado já de si reduzido como é o Português.

No setor postal, o digital é também cada vez mais central e estratégico. A tecnologia está disponível e pode ajudar a pensar novos e disruptivos modelos de negócio, aportando cada vez mais valor à economia. Para além da aposta na diversificação, como o arranque este ano do Banco Postal por parte dos CTT. Nos media, há formatos completamente inovadores de consumo que colocam desafios renovados e obrigam a respostas inovadoras, num mercado cada vez mais digital e ainda à procura da rentabilização.

Este poderá ser o ano do verdadeiro início da era “all-connected” e do Big Data. Muitos projetos ganharão vida porque não podem esperar mais. A interoperabilidade e o cruzamento de informação entre todas as entidades do Estado português será uma realidade e o novo Ministério da Modernização Administrativa permite antever um maior investimento em TIC a caminho de uma verdadeira cidadania digital.

Hoje, todos os setores estão a ser e serão cada vez mais impactados pelo digital. E muito mais estará para vir. Cidades cada vez mais inteligentes - há casos concretos de pensamento e ação – que importa replicar. Estratégias adequadas de privacidade e segurança da informação. Novas formas de Ensino e de Aprendizagem. Novos conceitos de empregabilidade. Novos negócios, como os sociais. Reforço da exportação dos serviços tecnológicos. A captação de talento, que continua a sair de Portugal, assim como a necessidade crescente de recursos humanos qualificados nas áreas tecnológicas, subsistem como um entrave que se impõe ultrapassar. Se bem que perspetiva de médio prazo, a exploração atual de talentos possa trazer vantagens competitivas associadas à globalização e ao retorno destes recursos.

Para Portugal tudo será possível. Mas exigem-se novas atitudes. E uma estratégia nacional, que permita colocar o País no seu verdadeiro lugar. Na Europa e no Mundo. O setor das TIC e Media está apostado neste objetivo e em assumir um papel central na construção do nosso futuro enquanto nação.