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"Nos últimos 8 anos transcendemos as fronteiras do conceito de um pacote de Office"

Publicado por Casa dos Bits às 17.58h no dia 08 de Outubro de 2008 | 10 comentários
 
Com uma visão muito marcada e definida sobre as vantagens do open source face ao software proprietário, Louis Suárez-Potts, coordenador mundial do desenvolvimento do OpenOffice.org está em Portugal para falar com o Governo sobre os projectos nas Escolas, e especialmente o Magalhães, que vai integrar a suite de produtividade na partição de Linux.

Louis Suárez-PottsEm entrevista ao TeK, Louis Suárez-Potts fala da sua perspectiva dos aspectos mais marcantes dos oito anos do projecto e o seu desenvolvimento e adopção, mas também traça rumos para o futuro.

TeK - Quais são os principais marcos dos últimos 8 anos do OpenOffice? Na sua perspectiva, claro...
Louis Suárez-Potts - É uma questão estranha em que não tinha pensado muito. E pode haver diferentes perspectivas...
Acho que o mais interessante é que deixámos de ser apenas uma suite de produtividade que é uma alternativa grátis ao Microsoft Office, ou a outras suites proprietárias, para algo que é mais entendido na generalidade como um pacote de produtividade para que as pessoas não se limitem a usar o OpenOffice para fazer coisas "tipo Office", como criar um documento, uma apresentação ou uma folha de cálculo, mas ir mais além. Nos últimos 8 anos transcendemos as fronteiras do conceito de um pacote de Office e chegámos ao ponto em que as pessoas o entendem como um conjunto de ferramentas que lhes permitem fazer quase qualquer tipo de conteúdo no desktop, na Web, em qualquer lado.
O mais notável é que já localizámos em centenas de línguas e entrámos nos corações de muitas comunidades como a "coisa" que lhes permite libertarem-se das correntes do software proprietário. O software proprietário não é mau, mas algo como o OpenOffice permite às pessoas colaborar de uma forma mais fluida, livre e produtiva do que o software proprietário. Assim o que destaco é que as comunidades em todo o Mundo, em Portugal, Moçambique, Angola e noutros países que falam português, como também na China e Índia, assumiram o OpenOffice como seu. Por isso nos últimos dois anos tivemos sobretudo developers da Sun a fazer 95% do código e provavelmente ainda são eles a fazer a maioria do código, mas também estamos a ver grandes contribuições da IBM, da China e de grandes empresas que estão a aplicar grandes investimentos e recursos no desenvolvimento e teste do OpenOffice.
Não é coincidência que o Governo chinês, que representa um mercado possível de centenas de milhões, esteja a olhar para o OpenOffice e o ODF e para as aplicações que usem estejam a usar este standard. E o mesmo acontece em países por todo o mundo. Podia estar durante toda a entrevista a enumerar os países e companhias que estão a usar o OpenOffice.
Com a versão 3.0 e a sua antecessora 2.4.1 vimos avanços marcantes em tecnologia, usabilidade e mais importante adopção. E estamos a ver essa adopção porque os Governos, especialmente estão a reconhecer a importância de ter software aberto que pode ser usado e criado para o transformarem em algo seu.
Estamos a ver essa mudança na consciência das pessoas normais que vêm o software que não é mais uma coisa que se compra na loja e que não se pode tocar, dar às crianças, para poderem adaptar e mudar. Isso é realmente notável e extraordinário e podemos dizer às pessoas: olhe, todo o dinheiro que tem vindo a gastar com pessoas a milhares de quilómetros de distância, não precisa de continuar a fazê-lo. Pode gastá-lo nas suas coisas, investi-lo no seu país, a construir a sua economia nacional. E as pessoas estão a reconhecê-lo.

TeK - Mas mesmo que as pessoas já não vejam o OpenOffice apenas como alternativa ao Office da Microsoft é dessa forma que anda podemos compará-lo, sobretudo em quota de mercado. Nos últimos oito anos, embora seja aberto e gratuito, o crescimento da quota de mercado do OpenOffice não é significativo. Como é que explica esse crescimento lento?
L.S.P - >Eu não usaria a palavra lento, mas incremental. Os saltos dependem mais do mercado. E ao colocar esta questão de forma “naive” está a falhar redondamente o objectivo. Porque não percebe com essa pergunta a forma como a quota de mercado é avaliada, como a Microsoft, a Gartner, olha para ela. Se olhar para um mercado particular, como o americano, então a quota aumentou lentamente, porque esse é um mercado dominado, particularmente pela Microsoft, mas se virmos o que o Google tem a dizer sobre isso, com o Google Docs. Mas podemos olhar para outros mercados, como a Índia, onde a Microsoft compete contra si própria não só por causa das várias versões, porque as mais antigas são mais populares do que as novas versões, mas sobretudo porque a pirataria é muito mais popular do que outra coisa qualquer, seja a Microsoft ou o open source. Se eu tivesse a hipótese de comprar o OpenOffice.org ou o Microsoft Office por um dólar na China, na Índia ou na Rússia, provavelmente gastá-lo-ia naquilo que era mais interessante para esse dinheiro, que podia ser uma versão mais velha ou mais nova mas não obrigatoriamente a versão oficial.
Mas se olharmos para a forma como as pessoas estão a instalar o OpenOffice.org, e especialmente os Governos, então estimaríamos uma enorme quota de mercado. Há alguns anos a IDC e a Gartner estimaram que teria entre 7 e 17% de quota de mercado, mas em alguns mercados específicos estamos a falar de mais de 20%... E se olharmos para as instalações e downloads é ainda superior. Estamos a registar downloads acima dos 3 milhões por semana só de utilizadores do Windows para a versão 2.4.1.
Os números dependem dos mercados e das quotas de cada sistema operativo. Dependem do nível de pirataria. E não estamos ainda a considerar os mercados emergentes, de pessoas que têm 7 anos e começam a usar o computador. E por isso é que este projecto Magalhães é tão interessante, porque traz as crianças para o mundo TI. Há países em todo o mundo a fazê-lo e estão a usar OpenOffice e Linux, open software. Porque quereriam obrigar as crianças a uma vida – não diria de servidão mas de licenciamento? É o mesmo que dizer: habituem-se a esta aplicação. Não pensem que podem fazer mais alguma coisa com ela, adaptem-se e paguem, paguem, paguem, durante o resto da vossa vida.
Nós preferimos no open source dar às pessoas o gosto da liberdade desde cedo e a nível económico penso que este é o melhor caminho, porque de outra forma o dinheiro vai todo para onde? Bem, os Estados Unidos precisam de todo o dinheiro que conseguirem...

TeK - E nas empresas, o OpenOffice está a conseguir uma boa adesão ou esta é uma área onde as quotas são menos representativas?
L.S.P - Depende das empresas também. Nas pequenas empresas sim, e nas médias está também a avançar rapidamente, sobretudo por causa das bases de dados que conseguem migrar de forma fácil. Já as grandes companhias movem-se muito lentamente para o OpenOffice. Por exemplo os grandes bancos nos Estados Unidos têm feito apresentações nesse sentido e vamos assistir em breve a anúncios, se não tiverem afundado com a crise económica actual... E essas empresas vão adoptar o OpenOffice ou o StarOffice para centenas de milhar de empregados.

TeK - Acha que a Fundação OpenOffice devia ganhar mais força para conseguir dar mais visibilidade ao projecto e promovê-lo junto de Governos e grandes empresas? É isso que têm feito nos últimos dois a três anos?
L.S.P - Na verdade quanto maior for a empresa ou o Governo mais lento é o movimento. Se compararmos taxas de adopção de Windows Vista e Office 2007 na verdade o OpenSource está a ganhar. Não porque o software da Microsoft é mau mas porque a energia e dinheiro que exige para a mudança são grandes. É preciso ter as máquinas mas também formar os utilizadores. E nesse ponto as empresas e governos têm de pensar se vale a pena fazer essa mudança e gastar dezenas de milhões de euros em licenças ou considerar a mudança para o OpenOffice, que é grátis, com uma grande disponibilidade de línguas, em várias plataformas e tem à sua disposição uma grande oferta de formação.
As empresas deviam considerar seriamente o software open source porque dá mais retorno pelo dinheiro. É melhor software. É mais fácil de usar. Pode ser costumizado. Já não é uma alternativa barata para pessoas pobres. É a melhor opção.

Continua na próxima página: O atraso da versão 3.0, as novidades e a questão do dual-boot no computador Magalhães.

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