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O que é preciso para um programador se tornar um empreendedor de sucesso?

Publicado por Casa dos Bits às 18.27h no dia 06 de Janeiro de 2012 | 10 comentários
 
O TeK inicia hoje uma colaboração com a Revista Programar. Um projeto sem fins lucrativos que junta amadores e profissionais ligados à programação e que soma uma média de 12 mil downloads por edição.

No âmbito desta colaboração iremos disponibilizar conteúdos produzidos pelos autores que habitualmente alimentam a edição online da revista, num misto de artigos exclusivos ou disponibilizados em antecipação e artigos, análises ou opiniões, que os autores já usaram na publicação online.

É o caso deste primeiro artigo gcc – Wall my App.c – Linstantaneous – o sucess, originalmente publicado na edição 27 da revista. O primeiro artigo que deixamos aos nossos leitores foi escrito por Fernando Martins, um técnico e empreendedor, especialista em migração de dados, que criou a sua própria consultora, a Hexónio.

O texto aborda precisamente os desafios de criar uma empresa, com o autor a deixar um conjunto de conselhos úteis a quem tem uma ideia que acredita poder transformar no próximo grande sucesso da tecnologia, numa espécie de teste à resistência do empreendedor e à sua capacidade para perceber quais são de facto os elementos críticos de sucesso para qualquer negócio. Quem passa o teste é incentivado a avançar, revelamos desde já.

Deixamos abaixo o texto integral do artigo. O acesso à revista Programar pode ser feito a partir da página de Internet da comunidade de programadores Portugal a Programar.


Escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico


Nome imagem

gcc -Wall myApp.c -linstantaneous -o success


Desde a década de 1970 que a área de informática tem sido prolifera na geração de empresas, empreendedores e aplicações de sucesso. Estes sucessos, muitas vezes bombásticos e sempre mediáticos, parecem indicar que é muito fácil criar um negócio multi-milionário do dia para a noite.

Quando um bom programador olha para uma aplicação de sucesso identifica imediatamente um conjunto de variáveis que o levam, invariavelmente, a concluir “Eu sou capaz de fazer isto!” e costuma rematar com “E até sou capaz de o fazer melhor!” E tipicamente um bom programador diz a verdade numa situação destas.[1 ]

Se juntarmos à capacidade técnica o baixo custo actual de criar uma aplicação e de a disponibilizar para todo o mundo ficamos a pensar porque razão apenas uma ínfima a quantidade de programadores cria e gere o seu próprio negócio e porque não são todos multi-milionários.

A resposta é bastante simples, e ao contrário de 99% das respostas dadas por quantos lêem esta coluna, a razão não é dinheiro para arrancar. A questão também não é técnica nem tecnológica mas sim de personalidade. Apenas uma infama parte dos programadores é realmente empreendedor e desses nem todos têm a coragem de arriscar a voar por si. E todos quantos arriscam mudar de vida sofrem na pele todas as torturas e maus tratos que advém da gestão de um negócio próprio, a começar pelo facto de que não existem sucessos instantâneos, muito menos para negócios multi-milionários. Sem dúvida que há excepções à regra, mas mesmo essas excepções que tiveram uma capitalização exponencial sofreram as dores de cabeça de um negócio pequeno onde, cada dia passado era uma vitória e sem haver certezas quanto ao mês seguinte.

Uma lição muito importante para quem pretende ser empreendedor é compreender que a tecnologia é totalmente irrelevante para o sucesso, excepto, obviamente, se o negócio se baseia precisamente na tecnologia em si. Aprender esta lição é de extrema importância e muitas vezes não é compreendida por quem faz o desenvolvimento. Ninguém compra um produto por este ser desenvolvido em determinada tecnologia.

Outra lição de extrema importância é que um programador não é um designer e também não é um utilizador comum, o que tipicamente o leva a desenhar aplicações funcionalmente más. E como se não bastasse ainda fica ofendido com os utilizadores por estes não compreenderem que para activar a assinatura digital apenas têm de correr determinado comando numa shell com permissões de administração![2]

Uma terceira lição de extrema importância é que uma aplicação não é um produto. Um produto é constituído por muito mais do que uma aplicação de software. Por exemplo, um produto tem um manual de instruções que efectivamente explica o produto e como operar com o mesmo.

Por esta altura muitos estão a pensar “mas eu compreendo tudo isto, acho que tenho veia de empreendedor”. A todos vocês que pensaram isso vou lançar um desafio. Respondam às seguintes questões:

  1. Quantos projectos vossos já idealizaram?
  2. Desses, quantos começaram?
  3. Dos projectos que começaram, quantos terminaram?
  4. Dos projectos que terminaram, quantos lançaram para o mercado?

Se a resposta foi “nenhum” à questão 1 , então vocês não são empreendedores. Se a resposta foi “nenhum” à questão 2, então vocês não são empreendedores. Se a resposta foi “nenhum” à questão 3, então vocês não são empreendedores. Se a resposta foi “nenhum” à questão 4, então vocês não são empreendedores. A minha aposta é que a larga maioria de vocês respondeu “imensos” às duas primeiras questões, mas muito poucos responderam “um” ou “dois” e muitíssimo poucos terão respondido “um” à quarta pergunta.

Acima de tudo um empreendedor “ships it”. Um empreendedor tem, pelo menos, um projecto que já terminou. Só há produto quando este se encontra concluído. No entanto um empreendedor tem também de saber quando desistir de um projecto e saber adaptar o seu produto ao longo do caminho.

Tipicamente a ideia inicial é apenas isso mesmo, uma ideia que se tem no início. É apenas a semente que, bem cuidada, germinará algo de que poderemos oferecer e alguém quererá comprar. Resumindo, e para os que ainda continuam animados, desenvolver um produto é a parte fácil.

O empreendedorismo, de forma geral, não se esgota na construção do produto. Na verdade isso é apenas um meio para atingir um fim. E o fim é a criação de um negócio, inicialmente sustentável e mais tarde de sucesso.

E também aqui é necessário explicar que o sucesso não existe apenas se conseguirmos entrar para a Fortune 500. A maioria dos empreendedores considera o seu negócio um sucesso quando este lhe dá aquilo que o empreendedor procura na vida. Mas para lá chegar há um longo caminho a percorrer.

Tipicamente esse caminho começa com uma ideia, mas antes da sua concretização é necessário passar por vários estados, sendo um dos mais importantes o da validação da ideia.

Muitas vezes o programador aspirante a empreendedor valida a ideia com amigos e familiares. Aqui acontecem duas coisas, quem tem conhecimentos técnicos compreende a coisa e apaixona-se pela ideia e diz “espectacular” e quem não tem conhecimentos técnicos acredita no que lhe é dito e diz que “é boa ideia”. Há vários erros aqui, um deles é que os amigos técnicos compram a parte sexy do desenvolvimento da aplicação, outro é que o aspirante a empreendedor não sabe explicar a uma qualquer pessoa o que realmente vai ser essa sua ideia.

Mas o erro mais grosseiro é não saber responder à pergunta “que problema é que isso resolve?” Se não houver um problema, então não é necessária nenhuma solução, pelo que a ideia cairá por terra. Havendo um problema, e quanto mais difícil de resolver melhor, então tal terá de ser expresso numa frase curta e clara, finda a qual a nossa tia-avó compreende perfeitamente que produto será construído.[3]

Para todos os que ainda não abandonaram a leitura desta coluna furiosos comigo por lhes estar a deitar por terra ser o próximo multi-milionário da web, peço apenas mais um minuto.

É que mesmo com uma ideia validada e uma vontade inabalável de desenvolver um software que se vai vender como bolos quentes porque resolve um problema complexo a um número infindável de pessoas, há imensas variáveis que o programador aspirante não pensou ou, pior, pensou de forma leviana. É necessário ter a consciência de que não basta construir um bom produto de software, é necessário vendê-lo. Isto implica uma estratégia de marketing e de vendas. E não, gastar uns trocos, ou mesmo uns milhares, em Google Ads não é suficiente. Da mesma forma, não é suficiente colocar um link para download da aplicação para que alguém a use. Da mesma forma, não é suficiente ter um manual de instruções, é necessário estar preparado para dar suporte à aplicação e, em alguns casos, até formação.

E enquanto tudo isto se desenrola é necessário tratar da burocracia inerente ao negócio, recolher feedback dos utilizadores, corrigir bugs em produção, ajustar o road map para a próxima release, melhorar a funcionalidade, escolher um novo plano de alojamento, dar o produto a conhecer a mais pessoas, pagar as contas do mês e, no meio de tudo isto, ter umas horas para dormir por dia e tentar fazer com que o temo “fim-de-semana” passe a ter o mesmo significado que os nossos amigos não empreendedores lhe dão...

Ainda sobrou alguém a ler? Então estás à espera de quê? Valida a tua ideia e mão à obra. Garanto-te que é uma experiência profissional única da tua vida, e quem sabe, talvez venhas mesmo a ser o próximo multi-milionário! Boa sorte! ;)

Escrito por Fernando Martins


Notas:
[1] A prová-lo está o facto de determinada aplicação de sucesso ser clonada por várias empresas e por vezes até melhor do que original. Mas só ser bom não basta, e por isso os clones raramente destronam quem chegou primeiro.

[2]Todos quantos não compreenderam o que acabei de dizer nesta linha têm duas hipóteses: (i) esquecer o empreendedorismo, ou (ii) contactar-me para vos explicar o que isto tem de mal.

[3]Para os mais cépticos deixo um desafio. Olhem para o vosso desktop e vejam se têm alguma aplicação instalada que não vos seja útil. Todas elas vos resolvem um problema, seja apenas ouvir um MP3 ou efectuar o controlo de versões em ambientes distribuídos.

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