Ao longo das últimas semanas passaram pelo Tek as ideias e as perspetivas de um conjunto de especialistas para 2016, que foram desafiados a olhar para algumas das áreas que mais podem marcar o ano no domínio da tecnologia.

Da segurança, à mobilidade, passando pelo comércio eletrónico, desafiámos especialistas a partilharem com os leitores do Tek as suas perspetivas para 2016. A falarem sobre os temas que vão marcar o ano em Portugal e fora do país nos próximos meses, mas também sobre o que pode começar a acontecer já para produzir efeitos mais vincados nos anos seguintes.

A forma como consumimos conteúdos também esteve em análise, tal como o empreendedorismo, a realidade virtual ou os drones. E os temas não se esgotam aqui.

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#tendências2016: A competitividade também passa pela indústria de software "made in Portugal"
A internet das coisas (IoT) e a aceleração da mobilidade estão a potenciar o desenvolvimento e adoção de software nas empresas portuguesas. Mas a aposta deve ser sobretudo em sistemas de geração automática de código e em software português, defende João Paulo Carvalho. 

#tendências2016: Recentrar o eGovernment em torno do cidadão deve ser uma prioridade
A prescrição eletrónica, o BIORC (Business Intelligence do Orçamento) e a generalização da fatura eletrónica são alguns dos pontos positivos apontados por Luis Vidigal nas estratégias de eGov em 2015. Mas o novo Governo tem desafios pela frente e há recomendações que vale a pena conhecer.

#tendências2016: Até a crise dos refugiados vai ter impacto direto no mercado dos drones 
Quando falamos em drones possivelmente pensa de imediato num jovem com um comando na mão a pilotar uma aeronave de pequenas dimensões e com quatro rotores. Mas há um lado muito mais sério no desenvolvimento deste mercado. Em qualquer um dos casos, a legislação está à espreita para os dois segmentos.

#tendências2016: Portugal pode afirmar-se como uma referência na área da mobilidade 
Eis 'a revolução silenciosa'. A inovação no segmento dos transportes - pessoais ou públicos - está a acontecer a grande ritmo, mas só daqui a alguns anos é que seremos capazes de sentir o verdadeiro impacto. Este será um ano de desafios, mas no qual Portugal pode aproveitar grandes oportunidades. 

#tendências2016: Muita realidade virtual ao virar da esquina. E com qualidade 
Ganhou protagonismo graças a dispositivos como os Oculus Rift ou Samsung Gear VR, sem nunca esquecer a proposta em cartão da Google, mas 2016 é o ano para passar verdadeiramente à prática. A realidade virtual surge em força e vem capaz de seduzir os mais céticos. 

#tendências2016: Assistentes virtuais vieram para ficar e têm muito mais para mostrar 
Os assistentes virtuais ganharam destaque em 2015. Tornam-se mais inteligentes, chegaram a novas plataformas e aprenderam novas línguas. A Gartner vê-os como percursores de uma mudança maior nas interfaces que usamos no dia-a-dia. Miguel Sales Dias explica o que vai acontecer a seguir. 

#tendências2016: Os dados não vão parar de crescer. E podem ser usados contra si ou a seu favor 
Quantas fotografias já colocou em serviços cloud ou partilhou nas redes sociais? E onde estão guardados os seus dados pessoais? Cada vez geramos mais informação e as organizações querem tirar partido do conhecimento que isso traz para gerar melhor serviço. Mas o Big Brother pode estar à espreita.

#tendencias2016: Portugal - Um país de muitos smartphones mas de poucas compras online
Tem vindo a crescer em popularidade, mas a um ritmo e volume muito longe do observado noutros países. O comércio eletrónico tem demorado para se afirmar em Portugal e é possível que 2016 não traga as melhores notícias. 

#tendências2016: Eles vão extorqui-lo, roubá-lo e infetá-lo. A menos que saiba proteger-se na Internet
Nos últimos dois anos o tema da segurança na Internet esteve em destaque e não pelos melhores motivos. Basta lembrar que o roubo de informações do site Ashley Madison terá levado ao suicídio de três pessoas. O que podemos esperar da cibersegurança em 2016? Nesta área só há uma certeza: é sempre preciso fazer mais.

#tendências2016: modelo do Netflix está condenado ao sucesso 
A forma como consumimos conteúdos de media está a mudar. Os ecrãs com suporte para vídeo estão a tomar conta da nossa vida e a transformar-nos em consumidores mais exigentes. Rodolfo Correia acredita que a oferta de serviços vai continuar a mudar e faz algumas previsões.

#tendências2016: Vamos ter "mais" smartphone por menos dinheiro e "verdadeiros" assistentes pessoais
Pode parecer "chato" mas 2016 não deverá trazer novidades no equilíbrio das plataformas móveis, com o iOS e o Android a dominarem 95% do mercado. Mas é na massificação de funcionalidades de topo e no crescimento dos assistentes digitais que se faz a diferença.

#tendências2016: No empreendedorismo só podemos esperar um grande ano 
Portugal fechou 2015 com a promessa de um grande ano para o empreendedorismo em 2016 e temos tudo para concretizar a expectativa. De startups reconhecidas em toda a Europa a eventos de escala mundial. Carlos Silva da Seedrs fala no que já fazemos bem e no que podemos fazer ainda melhor.

#tendências2016: Reserve uns minutos (muitos) para jogar. E para compras in-app
Se olharmos rapidamente para os pitch de jovens empreendedores, parece que todos querem desenvolver apps. E os jogos têm um peso importante. Mas será esta uma aposta ganha em 2016?


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#tendencias2016: Portugal - Um país de muitos smartphones mas de poucas compras online

Tem vindo a crescer em popularidade, mas a um ritmo e volume muito longe do observado noutros países. O comércio eletrónico teima em afirmar-se em Portugal e é possível que 2016 não traga as melhores notícias.

Apenas 31% dos portugueses fizeram compras online em 2015 segundo os mais recentes dados do Eurostat. O valor fica muito abaixo dos 81% registados no Reino Unido, um dos mercados de referência do sector, estando também longe da média europeia de 53%.

Entre os portugueses são os jovens adultos os maiores adeptos das compras online, principalmente na faixa entre os 25 e os 34 anos (59%). O entusiamo pelo comércio eletrónico vai diminuindo à medida que avança a idade.

A preferência pelas compras em pessoa, receios relacionadas com o pagamento ou com a privacidade, questões sobre a encomenda ou entrega, o facto de preferirem a compra numa loja por motivos de garantia são algumas das razões apontadas, no geral, por quem não costuma fazer compras através da Internet e prefere fazê-lo offline.

Em Portugal, especificamente, as constantes promoções e as campanhas de desconto que as marcas fazem sucessivamente nas lojas físicas, principalmente no mercado de produtos tecnológicos, são um dos fenómenos que mais tem prejudicado o comércio eletrónico, na opinião de Miguel Faias, Retail Manager da GfK Portugal, em declarações ao Tek.  

O sector de produtos tecnológicos é um dos de maior peso no ecommerce português, com o maior destaque para os smartphones, PCs portáteis e televisores, mas nem isso parece dar dinâmica suficiente às compras online, nota o responsável.

“[O online] Tem sido um canal de vendas que se tem desenvolvido muito e de forma rápida, mas que não tem conhecido o sucesso de outros países”, refere Miguel Faias, sublinhando que nos países da Europa Ocidental, a média das vendas online no total ronda os 22%, quando em Portugal é de 4%.

Um dos grandes desafios que se colocam ao ecommerce, em termos mundiais, diz respeito ao estabelecimento dos preços de entrega. “Muitas vezes, este fator, principalmente se tivermos a falar de encomendas transfronteiriças, pode representar um acréscimo significativo no valor dos produtos que deixa a compra mais cara do que optar pela compra numa loja local”.

Portugal, o país dos smartphones

São o produto mais desejado, principalmente os topo de gama, num fascínio que também se justifica por serem um dispositivo do dia-a-dia. Os smartphones lideram as compras de produtos tecnológicos em Portugal e um pouco por todo o mundo. Os tablets ficam para trás.

O mercado português de Produtos Tecnológicos para o Lar (PTL) tem evoluído bastante bem da forte queda registada em 2011 e 2012, quando retraiu mais de 20%, relativamente aos valores de registados em 2010.

“Daí para cá, o mercado tem recuperado, apesar do valor que deve registar em 2015 ficar ao nível do ano de 2005”. 

O segmento das telecomunicações tem sido um dos que mais contribui para esta recuperação, a “reboque” dos smartphones, que no terceiro trimestre de 2015 conseguiam um crescimento de 17% em comparação homóloga. Nos primeiros nove meses do ano passado o mercado dos produtos tecnológicos de telecomunicações ultrapassava os 500 milhões de euros em receitas.

Já no que diz respeito à informática - PCs e tablets - a quebra era de 13%, ainda que a faturação fosse de 131 milhões de euros. Os portáteis garantiam quase 60% deste segmento, com os tablets a caírem pela primeira vez abaixo dos 20%.

“O produto rei no mercado tecnológico, em Portugal e no mundo, são os smartphones, principalmente os artigos topo de gama. São os produtos mais desejados e também aqueles que a pessoa acaba por dar mais uso no seu dia-a-dia”, indica Miguel Faias. “É o produto que permite às pessoas estarem sempre ligadas ao mundo”. 

 

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#tendências2016: No empreendedorismo só podemos esperar um grande ano
Portugal fechou 2015 com a promessa de um grande ano para o empreendedorismo em 2016 e temos tudo para concretizar a expectativa. De startups reconhecidas em toda a Europa a eventos de escala mundial. Carlos Silva da Seedrs fala no que já fazemos bem e no que podemos fazer ainda melhor.

Ainda faltam muitos meses para que a primeira edição em Portugal do Web Summit se realize, mas já é seguro dizer que o momento será um dos pontos altos do ano para o empreendedorismo em Portugal. Ter na capital portuguesa um dos eventos mais mediáticos do mundo nesse domínio promete fazer virar muitos olhos para este cantinho da Europa e para os projetos que por cá se desenvolvem. “A Web Summit é um evento com alcance mundial e durante esses dias também os olhos de investidores do Estados Unidos estarão voltados para Portugal. É certamente mais um selo de validação e de afirmação de Lisboa como uma das novas capitais do empreendedorismo Europeu”, acredita Carlos Silva, presidente da Seedrs.

O também cofundador da plataforma de financiamento para startups sedeada no Reino Unido defende que Portugal já estava no mapa do empreendedorismo para quem acompanha esta área mais de perto, mas reconhece que a presença da Web Summit em Lisboa “trará certamente mais visibilidade ao ecossistema nacional e colocará as nossas startups no radar de muito mais gente”.

Em cinco anos a Web Summit passou de uma audiência de 400 pessoas para 42 mil e transformou-se num evento de referência mundial. Já deu palco a várias empresas portuguesas e também já teve empresas nacionais entre as vencedoras dos concursos que atravessam os dias do evento, até agora sempre realizado em Dublin na Irlanda. Nos próximos três anos assenta arrais em Lisboa e espera-se que gere um impacto positivo na economia de vários milhões de euros.

Mas nem só a vinda da Web Summit para Portugal permite antecipar um ano positivo para o empreendedorismo no país. Carlos Silva vê outros sinais: 2016 “segue-se a um ano em que várias startups (Seedrs, Talkdesk, Feedzai e Uniplaces) levantaram rondas de financiamento consideráveis e por isso irão certamente crescer de uma forma ainda mais acentuada”. Crescer mais depressa pode significar chegar mais rapidamente ao patamar de maturidade que permita a saída e remuneração dos investidores que suportaram a viagem destas empresas até esse momento. É um degrau que poucas empresas suportadas neste tipo de investimento já conseguiram atingir e seria importante reforçar esse universo, defende o empreendedor.

“Iremos também certamente ver outras startups a levantar mais rondas Series A com capital internacional” e assistir ao nascimento de novos fundos investimento patrocinados por investidores nacionais.

Mais financiamento nacional. É preciso, mas não falta só isso

O tema do financiamento continua a estar na ordem do dia. É hoje mais fácil para os novos projetos encontrarem parceiros de capital, mas o investimento estrangeiro continua a ter primazia, sobretudo em rondas acima dos 10 milhões de euros, sublinha Carlos Silva, que também ainda identifica algumas falhas nas fontes de capital disponíveis para alguns sectores, sobretudo para startups já com negócio estruturado e à procura de apoio para ganhar escala ou chegar a novos mercados (Series A).

A Seedrs divide-se entre Portugal e o Reino Unido, mas é no maior ecossistema de startups da Europa que a plataforma de equity crowdfunding (investimento em troca de participações de capital) opera. Comparando as duas realidades, Carlos Silva defende que Portugal já deu passos importantes para se afirmar com uma das novas capitais do empreendedorismo. Destaca a ação de estruturas como a Startup Lisboa ou a Beta-i e o esforço dos próprios empreendedores com projetos conseguiram ganhar visibilidade fora do país, mas também reconhece que ainda há muito trabalho a fazer.  

“Ainda assim pecamos no que toca a atrair projetos internacionais, no que toca a lei laboral, simplificação de processos administrativos ou estabilidade fiscal”, identifica o empreendedor.

No capítulo da legislação, 2015 foi o ano em que Portugal fez aprovar regras para o crowdfunding. Isso trouxe enquadramento legal a domínios do crowdfunding que até à data não tinham enquadramento jurídico no país, como o equity crowdfunding, e alguma expectativa em relação ao impacto destas ferramentas no financiamento de novos projetos, mas Carlos Silva dúvida que a alteração venha a ter grande impacto no mercado.

Nota que a lei portuguesa se inspira demasiado no modelo norte-americano, que está longe de ser o mais evoluído e que até pode ser revisto em breve. Por outro lado considera que o impacto do crowdfunding no empreendedorismo nacional passará muito mais pela capacidade de as plataformas nacionais se conseguirem implementar e pela capacidade dos empreendedores aproveitarem as plataformas que já existem a nível internacional.

Cristina A. Ferreira

 

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#tendências2016: Recentrar o eGovernment em torno do cidadão deve ser uma prioridade

A prescrição eletrónica, o BIORC (Business Intelligence do Orçamento) e a generalização da fatura eletrónica são alguns dos pontos positivos apontados por Luis Vidigal nas estratégias de eGov em 2015. Mas o novo Governo tem desafios pela frente e há recomendações que vale a pena conhecer.

Por Luís Vidigal (*)

 

O ano que findou foi marcado pela continuidade das políticas restritivas derivadas do ajustamento financeiro a que o XIX governo esteve sujeito. As TIC no sector público, para além de não fugirem a este constrangimento, foram alvo de uma surpreendente desvalorização  política, como se fossem a principal causa do deficit público. Através do PGETIC, foi dada prioridade à dimensão infraestrutural, passando as TIC no sector público a serem encaradas sobretudo como um centro de despesa e não como um instrumento de transformação, de inovação e de melhoria dos serviços públicos.

Apesar desta mensagem negativa sobre o papel das TIC, destaco como positivos no âmbito da atuação do PGETIC, os esforços de racionalização dos vários centros de dados e das redes de comunicações. No entanto faltaram políticas mobilizadoras para a aceleração e desmaterialização de processos interdepartamentais orientados aos eventos de vida dos cidadãos e agentes económicos. Continua a faltar uma perspetiva holística e uma visão de longo prazo nas estratégias de e-government.

Apesar da concentração de poder normativo e financeiro (como o SAMA e a medida 6 do PGETIC), faltou uma governance efetiva por parte das entidades coordenadoras centrais (AMA e ESPAP), onde se continuam a confundir missões de regulação e mobilização interdepartamental com tarefas de prestação de serviços e disponibilização de infraestruturas comuns como as lojas e os espaços do cidadão, a plataforma de interoperabilidade, o cartão do cidadão ou os serviços partilhados nas áreas de administração de recursos (ERP), onde a credibilidade se perde na concorrência com os restantes organismos públicos.

Continua-se a ter muito poder, mas pouca autoridade, cumplicidade e credibilidade junto dos organismos públicos, sobretudo junto dos sistemas mais relevantes, como os impostos, a justiça, a segurança social e a saúde. Faltam principalmente redes de afeto e confiança mútua, como já tivemos no passado.

No final de 2015 destaco como muito positivas as seguintes três iniciativas: (1) O Portal da Saúde e a prescrição eletrónica, pelo grau de integração e serviços disponibilizados; (2) O BIORC (Business Intelligence do Orçamento), porque finalmente se dispõe de informação global sobre os recursos financeiros em todos os setores  estatais, apesar de ainda faltar a necessária transparência para a sociedade; (3) A generalização da fatura eletrónica para efeitos fiscais, que colocou Portugal no topo das administrações tributárias e abre novos desafios para o big data e aos seus impactes na privacidade. Também saliento pela negativa o caos a que se chegou no sistema judiciário, protagonizado pelo CITIUS.

O anterior executivo ficará na história da modernização administrativa particularmente por ter aberto um novo canal de acesso universal a serviços públicos eletrónicos, baseado nos “Espaços do Cidadão”, recorrendo a mediadores de cidadania que contribuem, de forma inovadora e com poucos recursos, para a redução da exclusão digital e para uma maior e mais massificada utilização dos serviços de e-government no nosso país. Também dou o meu aplauso ao anterior governo por ter prosseguido sem complexos com as iniciativas do Licenciamento Zero e do Licenciamento Industrial (oriundos do SIMPLEX), contribuindo para o aumento da transparência e do rigor na tomada de decisão administrativa e para a diminuição dos riscos de corrupção.

Mas o que falta fazer por parte deste novo governo, que reforçou o poder desta área ao colocar a modernização administrativa no segundo lugar da hierarquia do estado, como nunca aconteceu na história do país?

O início da legislatura é o momento mais adequado para lançar as iniciativas mais estruturantes e de longo prazo. É por isso urgente e prioritário dar início a uma efetiva arquitetura informacional do estado, capaz de viabilizar a estratégia do “once only”, já aprovada na legislação portuguesa e em mais de dois terços dos países europeus, conduzindo à criação e gestão dos principais curadores de dados partilháveis e dos respetivos repositórios em torno das pessoas, empresas, território, veículos, etc.

Destaco a urgência da criação do cadastro multifuncional do estado, que tem sido, desde há muitos anos, uma das grandes causas da APDSI junto das instituições que deveriam partilhar responsabilidades em torno das várias dimensões relacionadas com o território. Continua ainda a faltar um grito mobilizador para a criação de “um Portugal para todos!”. 

Recentrar o e-government em torno do cidadão e não apenas no protagonismo de cada ministério, deve ser também uma prioridade para o novo governo, colocando em evidência os vários públicos (idosos, crianças, migrantes, deficientes, pobres, etc.) e os respetivos eventos de vida, mobilizando através disso, a vontade de colaboração e partilha de recursos e dados entre todos os organismos envolvidos na tão desejada interoperabilidade tecnológica, semântica e principalmente organizacional. Para além dos novos sistemas, é também urgente dar sequência e desbloquear alguns projetos interrompidos ou subaproveitados, como o “Nascer Cidadão”, o “SICO” (controlo de óbitos) e o IES (informação empresarial).

Em relação às questões da segurança, tão debatidas em 2015 a propósito das “listas VIP”, esperamos que não se confunda cibersegurança com ciberdefesa, ciberguerra ou "inteligência", pois a administração pública e a sociedade civil precisam estar emancipadas destes propósitos mais ou menos secretistas e ter instrumentos efetivos de ajuda à continuidade dos serviços públicos, reforçando a confiança, a privacidade e a transparência na relação entre o estado e a sociedade.

Na maioria dos sistemas interdepartamentais de e-government verifica-se ainda, uma tendência para a apropriação do protagonismo por parte das entidades promotoras, nem sempre acompanhada por uma coordenação política neutral e transversal, capaz de garantir a globalidade e a sustentabilidade dos sistemas, acabando por se afastar do foco nos respetivos eventos de vida dos cidadãos e agentes económicos. A ausência de coordenação global tem conduzido os sistemas do estado a um afastamento centrífugo e à concorrência entre os organismos envolvidos, perdendo a mutualidade, a confiança e a visão interdepartamental, ao mesmo tempo que reforça as autonomias e a defesa dos territórios institucionais.

Por último, deixo aqui cinco recomendações finais para 2016: (1) A regulação dos serviços TIC não pode estar contaminada pela execução; (2) São necessárias soluções mais federadas e interoperáveis do que centralizadas e impositivas; (3) O estado não deve substituir-se ao mercado nem concorrer com ele no fornecimento de serviços TIC; (4) O processo legislativo deverá ter em consideração cada vez mais as potencialidades das TIC, de modo a reduzir efetivamente os comprovantes e os procedimentos inúteis, numa nova lógica decorrente da sociedade digital; (5) Mais do que invocar o poder da coordenação, é necessário adotar uma atitude genuína de serviço público e atuar com credibilidade e redes de afeto, conquistando desse modo a autoridade e a confiança mútua, que são indispensáveis ao sucesso do e-government em todo o sistema de informação do estado.

(*) Luis Vidigal é Licenciado em Gestão de Empresas e em Ciências Sociais e Políticas, doutorando em Administração Pública, e consultor nacional e internacional nas áreas de e-Government e IT Governance. É ainda Membro da Direção da APDSI, Associação para a Promoção e Desenvolvimento da Sociedade da Informação, tendo desempenhado cargos de direção de topo na Administração Pública ao longo de 39 anos nos domínios da modernização administrativa e das tecnologias da informação.

 

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#tendências2016: Eles vão extorqui-lo, roubá-lo e infetá-lo. A menos que saiba proteger-se na Internet
Nos últimos dois anos o tema da segurança na Internet esteve em destaque e não pelos melhores motivos. Basta lembrar que o roubo de informações do site Ashley Madison terá levado ao suicídio de três pessoas. O que podemos esperar da cibersegurança em 2016? Nesta área só há uma certeza: é sempre preciso fazer mais.

Pessoas que morrem por causa de um ataque informático. O cenário pode parecer exagerado, mas para as famílias das vítimas é muito real. A pressão provocada pela possibilidade de dados pessoais de milhares de pessoas que frequentavam a rede social de relações extra-conjugais serem publicados online terá terminado da pior forma para três internautas.

Se esta ideia não o assusta existem outras fáceis de elaborar: neste momento há um cracker que está a acompanhar a sua leitura deste artigo; o seu smartphone pode estar infetado com malware que regista tudo o que faz; ou então pense que da próxima vez que se sentar em frente ao portátil, um pirata informático está do outro lado em modo Casa dos Segredos.

Em qualquer um destes casos não seria a primeira vítima. E certamente não será a última.

O mundo da cibersegurança é complexo pois se as defesas evoluem a grande ritmo, os cibercriminosos respondem na mesma moeda explorando novas engenharias de ataque e falhas de segurança até então desconhecidas. O boom registado na venda de smartphones só trouxe mais uma porta de entrada para a vida dos internautas.

“Consideramos que o malware móvel continuará a crescer e que o nível de sofisticação dos criminosos continuará a aumentar. Temos assistido nos últimos anos à democratização das ferramentas ao serviço dos cibercriminosos”, comentou o diretor de marketing da AnubisNetworks, Nuno Periquito, a propósito dos principais perigos para 2016.

O Centro Nacional de Cibersegurança também aposta nos dispositivos móveis, mas tem outras tendências em mira. “Temos observado um aumento no número de incidentes relacionados com extorsão por meio informático e de phishing. Também verificamos um aumento no número de casos de vishing, e em particular telefonemas em nome de entidades conhecidas a solicitar a instalação de software malicioso no seu computador ou smartphone pessoal”, explicou o coordenador do departamento de operações, Lino Santos.

E há quem tenha mais palpites diferentes sobre o que de pior vai haver na cibersegurança este ano. “O sector financeiro bem como as empresas em que o seu negócio assenta em plataformas de comércio eletónico continuarão a ser um dos alvos preferenciais dos cibercriminosos. Acreditamos também que o cibercrime vai crescer quer nas instituições públicas quer nas empresas de infraestruturas críticas”, antevê o vice-presidente da S21sec para Portugal, Pedro Leite.


Três entidades especialistas a terem prognósticos tão variados. Sabe o que significa? Isso mesmo - na área do cibercrime não há certezas pois os motivos e modus operandi dos piratas informáticos mudam de país para país, de época para época e até consoante as motivações pessoais.

O CNCS adiantou ainda uma outra tendência, uma que diz que os ataques de negação de serviço (DoS) e de desconfiguração das páginas Web estão a ficar menos frequentes. Outrora imagem de marca de grupos como os Anonymous, a situação parece mostrar que o hacktivismo perdeu espaço para o cibercrime organizado.

Uma perspetiva nada positiva.

‘Abra este email, é mesmo importante!!!’

Existem conselhos básicos de segurança que as pessoas e as empresas vão aplicando na sua rotina online. Há no entanto uma mudança de cultura que é necessária fazer: estar disposto a investir para estar mais seguro, ou melhor, menos exposto.

“As organizações têm de começar a olhar para a sua segurança como uma parte intrínseca do seu core business no sentido em que as vulnerabilidades a este nível têm, como temos verificado nos últimos anos, um custo financeiro e de reputação muito elevado”, salienta Nuno Periquito da AnubisNetworks.

Não é por evitar os emails suspeitos ou por navegar no modo anónimo do browser que fica a salvo. Mas se do ponto de vista da utilização pessoal cada um terá de saber gerir a sua situação, ataques a empresas ou a entidades estatais colocam de uma só vez milhares de pessoas em xeque.

Das opiniões ouvidas pelo Tek, Portugal até tem um bom perfil de cibersegurança. Pedro Leite, da S21sec, disse que no ano passado a empresa já viu  “algumas iniciativas públicas e privadas interessantes”, adiantando que estão “conscientes que este investimento terá de aumentar até porque os cibercriminosos começam a redefinir os seus alvos”.

“No momento em que o custo de ataque é superior ao proveito, os cibercriminosos alteram a estratégia, identificando alvos mais vulneráveis e onde a probabilidade de serem bem-sucedidos é maior”, concluiu o especialista.

Já a AnubisNetworks considera que “Portugal tem feito um esforço muito grande na criação das condições que permitam a rápida mitigação de ameaças cibernéticas e educação dos cidadãos e empresas para os cuidados a ter ao nível da segurança da informação”.


Até na área da legislação as posições que Portugal tem tomado parecem satisfatórias. “A atual Lei do Cibercrime é boa e incorpora as melhores referências internacionais”. Lino Santos, do CNCS, considera que um reforço da legislação apenas a nível nacional pode ser algo que não faz muito sentido já que o crime na Internet não tem fronteiras.

“As dificuldades com o cibercrime são as mesmas do crime organizado transnacional, do crime financeiro transnacional e de outros tantos que se escudam nas diferenças entre jurisdições e entre as respetivas capacidades de investigação. Por outras palavras, é um problema que precisa de uma abordagem global em complemento às atuais responsabilidades nacionais”.

Mas, claro, há sempre espaço para melhorias e atualizações. Mais não seja pela facto de o cibercrime ser bastante flexível. “Dada a dependência que todos temos da Internet, garantir a segurança da informação é vital neste contexto. Por isso a legislação neste processo é fundamental para o combate ao cibercrime. Acreditamos que uma legislação mais específica poderá melhorar o combate ao cibercrime. Tudo o que seja possível melhorar neste capítulo é bem recebido”, analisou Pedro Leite.

Importante no meio de toda esta dinâmica é não perder o ritmo e o foco.

Um escudo chamado CNCS

Esta postura defensiva é espelhada pelo coordenador do Centro Nacional de Cibersegurança, Lino Santos, que deixa mesmo um alerta às instâncias superiores.

“Relativamente às políticas públicas, vimos aprovada em meados do ano passado a nossa estratégia nacional de segurança do ciberespaço. A opção política na altura foi a de não produzir em paralelo o respetivo plano de ação que congregasse os contributos de todas as autoridades nacionais competentes em matéria de cibersegurança. Como consequência precisamos com urgência de produzir esse plano, com a contribuição de todos, sob pena de se esgotar o tempo de vida útil da estratégia sem a concretizar”.

E há uma segunda chamada de atenção. “Também é necessário criar o órgão político-estratégico que supervisiona a execução da Estratégia (conforme definido na própria estratégia)”, defendeu o especialista.


Para este ano o CNCS prevê terminar um documento durante o primeiro trimestre que vai ajudar as entidades do Estado e os operadores de infraestruturas críticas - eletricidade, água e ferrovias por exemplo - a garantirem uma melhor postura relativamente à cibersegurança.

“Este documento define os requisitos técnicos, humanos, processuais e organizacionais que devem ser cumpridos num plano de desenvolvimento que permitirá avaliar cada uma das entidades pelo seu nível de maturidade em cada uma destas áreas. Este ano pretendemos celebrar protocolos de colaboração e trabalhar com cerca de 50 entidades para elevar a maturidade destas entidades até ao nível 4 (de 5 níveis disponíveis)”.

Neste novo capítulo o Centro Nacional de Cibersegurança vai assumir uma postura de consultoria, formação e exercícios durante todo este processo. Será portanto como um escudo que não só protege, mas ensina a proteger.

Pois seja qual for o negócio, é preciso saber defender-se. Caso contrário eles vão extorqui-lo, roubá-lo e infetá-lo. Disso pode ter a certeza.

Rui da Rocha Ferreira

 

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#tendências2016: Vamos ter “mais” smartphone por menos dinheiro e "verdadeiros" assistentes pessoais
Pode parecer “chato” mas 2016 não deverá trazer novidades no equilíbrio das plataformas móveis, com o iOS e o Android a dominarem 95% do mercado. Mas é na massificação de funcionalidades de topo e no crescimento dos assistentes digitais que se faz a diferença.

Os smartphones parecem prontos a dominar o mundo, e a nossa atenção. Os terminais agregam cada vez mais funcionalidades, tomam conta de tarefas como a gestão da actividade física, a centralização dos emails e a comunicação através das redes sociais, para além da fotografia, os jogos, os mapas e a navegação por GPS ou a leitura e edição de documentos, e chegam a novos domínios como a detecção de doenças, ou a identificação de taxas de alcoolemia elevadas. A simples comunicação de voz, que era o seu objectivo inicial, parece uma tarefa cada vez menos central, e a imaginação é o limite para o que se pode ainda “empacotar” nestes equipamentos cada vez mais inteligentes. Sejam eles smartphones, tablets ou acessórios wearables.

E que tendências vão dominar este ano? O Tek falou com Francisco Jerónimo, Research Director de Research da IDC para a área de equipamentos móveis na Europa, Médio Oriente e África, para antecipar as tecnologias que vão ser dominantes no mundo dos telemóveis, mas também nos tablets e nos portáteis e híbridos. E as notas dominantes são a massificação das funcionalidades de topo de gama e a adição de mais inteligência nos assistentes digitais.

“Em 2015 assistimos, ao nível dos smartphones, a um focus crescente nos produtos de média gama (telefones entre os €150-€300). Cada vez mais marcas estão a apostar em trazer para a média gama as características dos telefones de alta gama. Para os utilizadores isto significa que a qualidade dos ecrãs, a qualidade das câmaras fotográficas, a velocidade dos processadores, etc. já estão acessíveis a um maior número de pessoas”, explica Francisco Jerónimo, que garante que esta tendência está a acentuar-se à medida que as fabricantes chinesas continuam a alargar a sua presença nos mercados ocidentais.

“Assistimos a um forte dinamismo de novas marcas que se tentam diferenciar dos tradicionais fabricantes, através de uma proposta de valor baseada em designs atractivos, a preços competitivos”. E isso é bom sobretudo para os clientes.

A nível de novidades tecnológicas não há muito a dizer, excepção feita ao “force touch”, ou no caso da Apple ao 3D touch. A tecnologia permite expandir a forma de interacção com o telefone, dando acesso a mais informação sem obrigar a novos clique para passar para um novo ecrã ou aplicação.

Crescimento mais lento

A massificação dos smartphones está porém a ditar uma tendências a que já assistimos noutras categorias de produtos: o abrandamento do crescimento das vendas. Em 2015 a IDC estima que o mercado de smartphones em Portugal cresceu apenas 8%, um valor significativamente inferior ao crescimento de 24% verificado no ano anterior. “Em determinados países Europeus verificou-se mesmo uma queda neste segmento, o que reflecte bem as dificuldades dos fabricantes em atrair os utilizadores para as últimas novidades. Isto é também resultado da escassez de novidades em termos de inovação dos produtos lançados em 2015”, admite o analista da IDC.

Nos tablets a entrada da Apple no segmento mais profissional em 2015, com o iPad Pro, e o lançamento do Surface Pro 4 da Microsoft, são os momentos mais marcantes. A categoria dos híbridos promete destronar os computadores portáteis e ao juntar o melhor de dois mundos, com o ecrã táctil de um tablet com o processamento de um portátil, atrair uma nova categoria de utilizadores. Contudo Francisco Jerónimo nota que os preços elevados ainda são uma forte limitação à massificação. Mesmo com boa vontade não será fácil à maioria dos portugueses pagar entre 1.000 e 2.500 euros para ter uma destas máquinas consigo.

Mesmo assim, dentro da categoria de tablets os híbridos serão a categoria que mais deve crescer em 2016, isto apesar das “quantidades vendidas representarem uma percentagem bastante pequena do volume de portáteis e tablets que se perspectivam vender em 2016, uma vez que o preço ainda continuará a ser um inibidor da procura”, adianta Francisco Jerónimo.

O ciclo de vida mais longo dos tablets não ajuda a dinamizar o mercado, já que a atualização não é tão premente como nos smartphones. “Quem comprou um tablet há três anos, por exemplo, continua a ter um produto em perfeitas condições de utilização para as necessidades de acesso à internet, redes sociais, ver conteúdo multimédia, etc”, refere o analista.

A tendência este ano passará por lançar produtos mais direcionados ao segmento empresarial. “Para além de ser o segmento com maior potencial de crescimento, é também o mais lucrativo, uma vez que os tablets direcionados aos consumidores estão destinados a serem produtos de preço muito baixo”.

Em termos de plataformas não se esperam mudanças na posição de cada sistema operativo, “por muito desinteressante que seja para quem acompanha o mercado de telecomunicações”. “O Android e o iOS continuarão a representar conjuntos cerca de 95% das vendas totais de smartphones na Europa e em Portugal, em 2016. O Windows continuará a perder quota de mercado, uma vez que o focus está a direcionar-se para produtos de mais alta gama e para o segmento empresarial”, justifica Francisco Jerónimo.

Então e sem novidades que interesse haverá? Há novidades, e uma das principais áreas de inovação nos próximos será o desenvolvimento de verdadeiros “assistentes pessoais digitais”.

“Empresas como a Google, Apple e Microsoft estão activamente a trabalhar em sistemas que permitam aos utilizadores interagirem com os smartphones de uma forma inteligente”, adianta o analista. A Siri da Apple, Cortana da Microsoft e Google Now da Google permitem aos utilizadores utilizar comandos de voz para ativar algumas funções dos telefones ou querer algumas ações limitadas. Contudo, o smartphone sabe mais da vida do utilizador, do que muitas vezes os próprios utilizadores.

“Se perguntar a qualquer pessoa o que estava a fazer há um ano atrás num determinado dia e a uma determinada hora, provavelmente a pessoa não saberá responder porque não se lembra. Mas o smartphone saberá. E sabe porque tem acesso à nossa localização, chamadas, mensagens, emails, fotografias, videos, histórico de pesquisas na net, informação das redes sociais, etc., etc.”, explica Francisco Jerónimo, que admite que apesar de toda esta informação estar disponível no smartphone hoje, continua a estar localizada em aplicações independentes que não comunicam entre si.

“Os gigantes desta industria estão a desenvolver tecnologias avançadas de “deep learning” e inteligência artificial que permita a um telefone responder a questões avançadas dos utilizadores, ao mesmo tempo que activamente executa acções por nós. Como se se tratasse de um verdadeiro assistente pessoal, mas digital”, alerta.

Esta é uma revolução que já começou e que vai acentuar-se em 2016 com o lançamento de versões mais avançadas do Siri, Cortana, Google Now e de outras empresas como a Facebook e Amazon.

E daqui a um ano talvez estes assistentes façam as suas próprias previsões para 2017…

 

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#tendências2016: modelo do Netflix está condenado ao sucesso
A forma como consumimos conteúdos de media está a mudar. Os ecrãs com suporte para vídeo estão a tomar conta da nossa vida e a transformar-nos em consumidores mais exigentes. Rodolfo Correia acredita que a oferta de serviços vai continuar a mudar e faz algumas previsões.

Em 2020 vão existir 26 mil milhões de dispositivos conectados. Nestes, 15 mil milhões vão possuir suporte para vídeo, um cenário que pressupõe uma profunda alteração na forma como consumimos conteúdos de media. É uma mudança que já está a acontecer, sobretudo em países como Portugal, onde a apetência para a utilização de novas tecnologias – como os telemóveis – é grande e onde a utilização de conteúdos on demand e vídeo já está muito acima do registado noutros países.

Em quatro anos, o suporte para vídeo estará em mais de metade dos dispositivos conectados e a banda larga estará em todo o lado, defende a Ericsson. Metade dos conteúdos que consumimos estará gravada (on demand ou time-shift), por oposição ao que acontece na TV linear. Porquê? Porque procuramos experiências cada vez mais à medida dos nossos gostos.

Descobrir conteúdos de forma personalizada, garantir uma experiência de TV igual em todos os equipamentos e encontrar melhorias e inovação constante nas plataformas de media são características que definem já hoje quem consome conteúdos de media, identifica Rodolfo Correia, diretor de TV e Media para a região mediterrânea na Ericsson.

Para quem oferece serviços sobra um mercado cada vez mais competitivo, onde as empresas de serviços de TV por subscrição terão de saber transformar-se, adaptando os seus pacotes de conteúdos áquilo que os consumidores procuram, mas as oportunidades para o fazer existem, defende o responsável.

E como podem os operadores tradicionais vencer esta batalha, ou pelo menos não ficar fora dela? Rodolfo Correia acredita que os polémicos modelos de distribuição Over the Top, criticados pelos operadores tradicionais porque funcionam sobre as suas redes, com menos restrições regulamentares, muitas vezes para oferecer serviços concorrentes, são o futuro. “Se os estreantes no mercado conseguem construir um negócio de sucesso de vídeo online, baseado em sistemas de streaming adaptados e redes de fornecimento de conteúdos (Content Delivery Networks) então os restantes players devem fazer o mesmo”, defende.

Mas há mais regras de ouro, para vencer num tempo em que a televisão já não ocupa o lugar de outros tempos e o consumidor não se satisfaz sentando-se no sofá à espera de uma programação que outros definiram.

Criar ou gerir conteúdos apetecíveis, conseguir distribui-los globalmente tirando partido da Internet e saber entregá-los ao consumidor de forma a que este possa moldá-los ao seu gosto são algumas das tendências identificadas por Rodolfo Correia.

Neste leque, comecemos pelo trunfo dos conteúdos, que tende a ser cada vez mais valioso. Posicionar-se é comprar produtos fortes nas áreas identificadas como áreas chave, como o entretenimento e a informação, por exemplo. Também é produzir conteúdos com direitos de propriedade intelectual e apostar na procura de novos mercados para a distribuição de uns e outros, apostando em estratégias globais que tirem partido do poder da Internet.

“Aqueles que têm conteúdos vão consolidar ainda mais a sua posição. É o caso da Netflix e de outros players que atuam no mesmo espaço da cadeia de valor”, acredita Rodolfo Correia.

Para os operadores com um posicionamento multisserviço, Rodolfo Correia também antecipa movimentos de consolidação que ajudem a ganhar escala em termos geográficos, melhorar a infraestrutura, ou o poder na negociação de direitos de conteúdos.

Outra estratégia que pode render pontos a quem oferece conteúdos de media passa por disponibilizar ferramentas que facilitem a procura de conteúdos, uma tarefa que se revela cada vez mais complexa, perante uma oferta que é cada vez maior.

“A capacidade de escolha está rapidamente a tornar-se a rainha no que respeita a media. Nesta enorme mudança em direção à liberdade de escolha, os consumidores de media estão sujeitos – ironicamente – a uma grande dor de cabeça: descobrir algo para ver”, sublinha Rodolfo Correia.

Quem fornece conteúdos pode ganhar pontos neste domínio apostando em soluções que combinem e aproveitem diferentes fontes de dados, desde metadados de conteúdo a recomendações sociais e baseadas no comportamento dos utilizadores. Tudo para ajudar a personalizar a experiência.

2016 já é um ano de mudança em que todas estas transformações dão sinais, num clima que é de crescimento para a indústria de media. O sector valia 530 mil milhões de dólares em 2014 em 2020 e deverá valer 750 mil milhões de dólares em 2020.

 

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#tendências2016: Assistentes virtuais vieram para ficar e têm muito mais para mostrar
Os assistentes virtuais ganharam destaque em 2015. Tornam-se mais inteligentes, chegaram a novas plataformas e aprenderam novas línguas. A Gartner vê-os como percursores de uma mudança maior nas interfaces que usamos no dia-a-dia. Miguel Sales Dias explica o que vai acontecer a seguir.

Nos próximos cinco anos vamos evoluir para um mundo pós-aplicações, com agentes inteligentes a assegurarem interfaces e ações dinâmicas e contextuais, que vão tomar conta de ações rotineiras e deixar para as pessoas as tarefas que só estas podem fazer. A tendência é uma das 10 eleitas pela Gartner para 2016.

Os agentes autónomos vão demorar muito mais do que 12 meses a invadir o mercado e a tomar o lugar das interfaces que hoje mais usamos – é um caminho que continuaremos a fazer nas próximas duas décadas, defende a consultora - mas os primeiros passos já foram dados e a transformação está em marcha.

Cabe aos líderes tecnológicos tirarem partido da tecnologia para criar soluções que nos ajudem a ganhar tempo e a usar melhor o tempo que teremos a mais, sublinha a Gartner.

As tecnologias de machine learning são a matéria-prima desta transformação, que se materializa em dispositivos físicos como robots, mas também no mundo virtual, alimentando software cada vez mais inteligente. Os assistentes virtuais que hoje usamos sobretudo nos telemóveis são percursores destes agentes autónomos que as tecnologias avançadas de machine learning - cada vez mais apuradas na capacidade de aprender e evoluir com o que as rodeia - vão ajudar a criar, refere a mesma análise.

Google Now, Siri da Apple ou Cortana da Microsoft são os exemplos mais mediáticos, mas são também as ferramentas que chegaram mais longe, em maturidade e número de utilizadores.    

“Estas tendências da Gartner para 2016 fazem todo o sentido, em particular nas regiões e países para os quais as línguas nativas estejam suportadas nas respetivas tecnologias”, concorda Miguel Sales Dias, responsável pelo centro de linguagem natural da Microsoft na Europa, que está localizado em Lisboa, por onde passa boa parte do desenvolvimento internacional da Cortana.

“É um facto conhecido já evidenciado em diversos estudos científicos internacionais, que a fala é o meio de comunicação que os utilizadores selecionam em primeiro lugar para interagir com os dispositivos, quando comparada com outras modalidades, como por exemplo o uso do toque”, defende o responsável.

Para as empresas que trabalham neste tipo de soluções Miguel Sales Dias acredita que os grandes desafios passam por garantir o reconhecimento e síntese de fala no maior número possível de línguas, componentes que permitem os níveis de interação mais simples com este tipo de software. Mas sobretudo pela “recolha de dados anotados em bases e redes de conhecimento”, a terceira componente chave destes produtos.

São estes dados que “permitem o treino de modelos de compreensão do domínio do discurso e, para cada domínio da identificação da respetiva intenção, de forma a que a tecnologia possa ajudar com sucesso nas tarefas de dia-a-dia dos consumidores, ou nos processos de negócio das aplicações empresariais”, explica Miguel Sales Dias.

O responsável antecipa aliás que o domínio empresarial será uma das próximas áreas de expansão dos assistentes inteligentes e exemplifica com a estratégia da própria Microsoft que já fez a integração da tecnologia com o OneDrive ou com o Power Business Intelligence.

A integração dos assistentes pessoais inteligentes e da interação por voz em produtos direcionados aos mais diversos segmentos de mercado já marcou os últimos dois anos. Em 2015 a Siri chegou à Apple TV, a Cortana chegou ao iOS e ao Android e está a caminho da Xbox. Um ano antes o Google Now chegou ao Android Wear e aos wearables. A tendência é para continuar. 

 

 

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#tendências2016: Muita realidade virtual ao virar da esquina. E com qualidade
Ganhou protagonismo graças a dispositivos como os Oculus Rift ou Samsung Gear VR, sem nunca esquecer a proposta em cartão da Google, mas 2016 é o ano para passar verdadeiramente à prática. A realidade virtual surge em força e vem capaz de seduzir os mais céticos.

O ano vai ser marcado pela chegada de mais alternativas efetivas ao grande público, como são exemplo a proposta que junta a Oculus VR e o Facebook, mas também a da HTC.

No seu conjunto, as vendas de tais dispositivos poderão atingir a marca dos 2,5 milhões de unidades este ano, antecipa a Deloitte, com as receitas a alcançarem os mil milhões de dólares: 700 milhões em hardware e 300 milhões em software.

São os primeiros números de um segmento de mercado ainda muito longe de demonstrar o todo o potencial de utilização massificada que a tecnologia tem, como faz questão de sublinhar José Santos-Victor, professor do Instituto Superior Técnico.

A evolução dos algoritmos de rastreamento gráfico e de captura de modelos, o crescimento do volume de informação e conteúdos disponíveis e os avanços ao nível dos equipamentos são fatores que irão contribuir para a popularidade do conceito, considera o também responsável pelo Institute for Systems and Robotics, da mesma instituição de ensino.

“A evolução dos algoritmos tem sido mais ou menos constante nas últimas décadas, levando a ganhos de qualidade e eficiência notáveis”, explica. “Esta evolução dos algoritmos aliada ao crescimento extraordinário do número, capacidade de cálculo de dispositivos móveis e a cloud ou a internet das coisas levou a um aumento muito significativo da informação disponível para aplicações de RV”.

Mas o impacto maior, “verdadeiramente revolucionário” surgiu do lado dos dispositivos tecnológicos, destaca José Santos-Victor, referindo-se ao lançamento de sensores 3D ou câmaras RGB-D, como é exemplo o Microsoft Kinect, a custos muitíssimo acessíveis.

Desta forma, a tecnologia ficou ao alcance de um número sem precedentes de utilizadores e produtores de conteúdos , “ao ponto de muito em breve poderem equipar um número significativo de smartphones, tablets e computadores portáteis”.

Segue-se a própria evolução dos dispositivos portáteis, smartphones e tablets,  dotados de capacidade de cálculo, memória, sensores (acelerómetros, giroscópios, magnetómetros, ...) e conectividade, que seriam imprevisíveis há poucos anos atrás.

A nível dos visualizadores, não pode deixar de ser referido o lançamento de óculos para RV a custos surpreendentemente baixos e tirando partido dos smartphones e das suas apps e panóplia de sensores, de que o Google Cardboard é o exemplo mais conhecido. “Essa revolução permite levar a RV a um número absolutamente extraordinário de utilizadores e tem potenciado o desenvolvimento de novas apps para RV”.

Por tudo isto o responsável do Institute for Systems and Robotics do IST acha que é possível já ter hoje uma experiência de realidade virtual com uma qualidade “muito interessante, recorrendo a visualizadores muito económicos e a um smartphone”. Para José Santos-Victor este fator permitirá, “sem dúvida”, uma explosão de novos conteúdos e desenvolvimentos nesta área, bem como o surgimento de novas killing applications e players industriais.

Mais do que um jogo

Sempre que tocamos no assunto, surge-nos naturalmente a imagem da experiência de jogo, mas a Realidade Virtual vai muito além dessa aplicação, podendo beneficiar diferentes cenários.

“Penso que vivemos um tempo interessantíssimo em que não existem certezas sobre as novas tendências e aplicações em VR, dos novos modelos de negócio e dos novos players industriais, para além dos suspeitos habituais”, nota José Santos Victor. “Com grande probabilidade, assistiremos a contribuições muito importantes de novos autores ou pequenas empresas”.

Do ponto de vista de aplicabilidade, o professor do IST considera que iremos continuar à procura de modelos de negócio que assegurem sustentabilidade económica ao sector, e antecipa para a RV no entertainment/jogos, educação e turismo digital “desenvolvimentos importantes”.

“Há muito que os jogos são uma indústria milionária, associada à computação e à visualização gráfica e deverão continuar a crescer e a proporcionar experiências com um sentido de imersão e realismo crescentes”.

A educação é, na opinião do professor do IST, uma área onde se pode perspetivar um enorme desenvolvimento, desde os níveis mais básicos até aos níveis mais avançados. “Uma experiência RV em áreas como história, geografia ou ciência teriam uma capacidade de motivar a ajudar a captar conceitos aos jovens estudantes, de forma bem mais marcante do que as tecnologias atuais”, considera.

O mesmo podia acontecer, num nível mais avançado, na navegação dentro de modelos do corpo humano, do cérebro, de uma central de energia ou de um sistema complexo, para ajudar na formação de quadros ou na melhoria de conhecimentos dos profissionais destes setores.

Ao nível de turismo também se prevê um impacto assinalável, pela possibilidade de disponibilizar experiências RV de conteúdos atuais, passados ou futuros. “Imagine-se um tour virtual na Lisboa quinhentista ou na Lisboa atual ou futura!”, sugere José Santos-Victor.

“Se ligarmos a disponibilização massiva destes conteúdos à vulgarização e redução dos custos dos viewers e ao recurso aos smartphones, o ano de 2016 promete vir a dar-nos muitas experiências inspiradoras”.

 

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#tendências2016: Os dados não vão parar de crescer. E podem ser usados contra si ou a seu favor
Quantas fotografias já colocou em serviços cloud ou partilhou nas redes sociais? E onde estão guardados os seus dados pessoais? Cada vez geramos mais informação e as organizações querem tirar partido do conhecimento que isso traz para gerar melhor serviço. Mas o Big Brother pode estar à espreita.

Todos os dias mais de 1,1 mil milhões de pessoas acedem ao Facebook, onde carregam mais de 300 milhões de fotos por dia e fazem mais de 290 mil atualizações de estado por minuto. No YouTube são vistos mais de 6 mil milhões de horas de vídeos todos os meses e mais de 300 horas de imagens são carregadas por minuto na plataforma. Estes são só alguns números dos muitos dados que são gerados diariamente por uma sociedade cada vez mais digital, onde os analistas concordam que terá sido criada mais informação nos últimos dois anos do que em toda a história da humanidade. E o ritmo está a intensificar-se.

Até final deste ano o tráfico Internet (IP) deverá ultrapassar 1 zettabyte, segundo números partilhados pela Cisco, e a IDC admite que até 2020 o volume do universo digital se aproxime dos 44 zetabyttes, uma previsão que já tem alguns anos e que pode muito bem estar desatualizada.

A este enorme volume de informação convencionou-se chamar Big Data, e o tema tem dominado a atenção das empresas de tecnologia, preocupadas em oferecer às empresas e organizações as melhores ferramentas para gerirem estes dados e transformá-los em negócio e conhecimento, ao mesmo tempo que os utilizadores e as autoridades se preocupam em impor limites à má utilização dessa informação. Ou melhor dizendo, em evitar o cenário antecipado pelo romance Big Brother de George Orwell, onde todos os movimentos dos cidadãos eram observados e escrutinados.

E o “grande irmão” pode ser o Governo, a sua seguradora, as finanças ou o vizinho do lado.

A gestão do Big Data é uma das grandes tendências das TI para 2016 e por isso, no âmbito do trabalho de avaliação dos temas que vão marcar o ano falámos com Rui Gaspar, Diretor de Base de Dados, Tecnologia e Analytics da SAP Portugal, que tem uma visão positiva sobre a forma como a gestão de dados vai ter impacto na vida das pessoas e das empresas.

“De forma crescente, vamos exigir que os dados que disponibilizamos sirvam para sermos melhor servidos”, explica ao Tek, adiantando que “Estamos num ponto em que os computadores já não servem somente de suporte ao funcionamento dos mais diversos processos; eles fazem parte da operativa desses processos e estes não podem existir sem eles. Neste contexto, cada vez mais, todos esperamos que aquilo que uma empresa, organização ou estado sabe sobre nós, seja utilizado nas interações que têm connosco, não só para facilitar o acesso, como também para personalizar o que nos é oferecido ou solicitado”. Por isso as organizações que incorporam o digital no seu funcionamento têm a vantagem de conseguirem exceder as nossas expetativas e tornarem-se, assim, nas nossas favoritas, seja dum posto de vista económico, seja social. 

Mesmo assim, Rui Gaspar não afasta a ideia de que a informação também pode ser usada com más intenções, no tal conceito Orwelliano do Big Brother. Mas garante que não é um problema novo, trazido pelo digital. “Na realidade, esta questão é a evolução natural da regulação que se coloca há muito tempo para a segurança física e, posteriormente, para a segurança nas comunicações”, lembra. Com proteção adicional, já que “enquanto o software incorpora características que garantem a segurança do seu funcionamento e oferecem possibilidades de segurança dos dados, a utilização devida também depende, em primeira instância, da auto regulação e, depois, do cumprimento de normas de ética e legais. “

A tendência aponta para que os próprios utilizadores sejam cada vez mais exigentes, controlando a utilização dos dados e validando se são bem utilizados. “À medida que a utilização de dados e tecnologia é incorporada no funcionamento do mundo social, o sentido de responsabilidade tem tendência a crescer e os vários tipos de utilizadores partilharão informação na medida em que obtenham dela benefícios, numa relação vantajosa para ambas as partes”, admite Rui Gaspar.

A recolha de dados massivos, padronizados e não personalizados, tem também um lado positivo e muitas descobertas médicas e científicas já utilizaram esta informação para descobrir formas de combater doenças, ou simplificar o acesso às cidades, por exemplo, com base em padrões de deslocação. “O Big Data é verdadeiramente útil quando entrega informação, ações e atividades, que oferecem a cada pessoa ou organização o conhecimento da atividade de grandes grupos. Por exemplo, não é só a questão de monitorizar os dados biométricos de uma pessoa continuamente, mas cruzá-los com o histórico de pessoas com semelhantes condições de idade, bem-estar, etc., com a localização e o tempo que faz no momento e, ainda, com eventuais situações de saúde que se verifiquem”, defende o executivo da SAP Portugal.

O “interruptor” pode estar na mão de cada um de nós, validando a quem fornecemos os dados, e que informação queremos partilhar, mas também das autoridades que têm de estabelecer medidas de controlo e validar a sua aplicação.

Mesmo assim será difícil que alguma coisa escape do controle mais rigoroso. Nem que sejam as câmaras de videovigilância com imagens privadas partilhadas publicamente. E não parece haver volta a dar: nada vai impedir que mais e mais informação pessoal se dissemine todos os dias. Quer queira quer não queira, porque viver fora desta rede é realmente muito difícil.

Fátima Caçador

 

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#tendências2016: Portugal pode afirmar-se como uma referência na área da mobilidade
Eis ‘a revolução silenciosa’. A inovação no segmento dos transportes - pessoais ou públicos - está a acontecer a grande ritmo, mas só daqui a alguns anos é que seremos capazes de sentir o verdadeiro impacto. Este será um ano de desafios, mas no qual Portugal pode aproveitar grandes oportunidades.

‘São 8 horas da manhã e está na hora de ir para o trabalho. O assistente pessoal do smartphone envia uma notificação a dizer que há vias congestionadas. Qual o melhor caminho a seguir? Será que ainda há estacionamento disponível? Se também tivesse tempo para terminar o relatório… Talvez chamar um táxi ou um Uber seja o mais indicado. Aproveito o tempo da viagem para acabar o documento e quem sabe se sobra tempo para aquela chamada que está há dias para ser feita’

Esta é uma situação que para muitos portugueses já é uma realidade. As grandes cidades como Lisboa e Porto têm disponíveis serviços em aplicações móveis que permitem chamar um carro com motorista, bastando dizer onde está e para onde quer ir. O caso da Uber é o mais conhecido pois é a empresa que está a romper, à escala global, com os dogmas da mobilidade.

O testemunho é dado na primeira pessoa pelo diretor-geral da Uber Portugal, Rui Bento. “Pela receção muito positiva e crescente procura dos nossos utilizadores, sentimos que temos vindo a contribuir para proporcionar uma mobilidade mais simples, segura e conveniente nestas cidades”.

A Uber é no entanto apenas uma peça deste grande dominó que é o segmento dos transportes, ainda que já esteja a mudar as regras do jogo por completo. O diretor executivo da startup Veniam, João Barros, explica.

“A concorrência fará com que os táxis melhorem os seus serviços. Haverá uma grande pressão dos utentes para que os transportes públicos acompanhem essa revolução tecnológica, que consiste em grande medida em dar informação em tempo real a todos os que interagem com os serviços de transporte. No ramo da distribuição e da entrega de bens e mercadorias, assistiremos a fenómenos muito parecidos, em que as frotas e os dados são partilhados por várias entidades de forma a reduzir custos e a oferecer melhores serviços”.

Haver uma oferta integrada entre mobilidade privada e pública será também um dos grandes desafios a ser ultrapassado, pois isso ajudará a tornar uma cidade verdadeiramente inteligente.

“As grandes cidades debatem-se com o desafio de proporcionar uma mobilidade conveniente a números crescentes de pessoas, enquanto procuram reduzir os congestionamentos de tráfego nas estradas. Uma cidade inteligente deve combinar diferentes tipos de modos de transporte numa cadeia fluída e integrada. Isto envolve as infraestruturas de transporte existentes, como o comboio ou o autocarro, aliadas a novos conceitos de mobilidade como aplicações de ride-hailing, carsharing ou bikesharing”. Esta é a visão da Uber.


Como resultado de tudo isto o CEiiA, centro de engenharia e inovação na área da mobilidade, acredita que em breve existirão as ‘redes sociais de mobilidade’, plataformas que integram “utilizadores, serviços, infraestrutura, dispositivos e todo o tipo de sensores de forma dinâmica – cada um de nós é uma sonda de informação e serviços”.

“A mobilidade será cada vez mais encarada como um serviço, ou seja, as pessoas querem apenas ir de um ponto para outro, e não se preocupam tanto com a posse de um veículo mas apenas com a possibilidade de se deslocar, o que obrigará a desenvolver novos serviços mas, acima de tudo, a integrar de forma inteligente as várias ofertas já existentes”, salienta o responsável pela divisão de sistemas inteligentes da entidade, Luís Reis.

O Porto já é um bom exemplo deste cenário conectado. Graças ao esforço conjunto de várias entidades, a cidade nortenha é neste momento um exemplo a ser seguido por outras cidades - não só portuguesas como de todo o mundo.

“O Porto é hoje considerado a nível mundial como um caso de estudo no impacto que os veículos em rede podem ter não apenas como meio de transporte, mas como elementos ativos de uma plataforma do tipo smart city. Para além de permitirem aos clientes e operadores de transportes saberem sempre onde e em que estado estão os muitos veículos em movimento, este tipo de plataformas utilizam os veículos como sensores para recolherem grandes quantidades de dados urbanos e melhorar a qualidade de vida, desde o controlo de tráfego, à monitorização ambiental e à recolha inteligente de lixos, entre muitas outras aplicações”, detalha João Barros, da Veniam.

Melhores transportes, melhores cidades. Pode então o desenvolvimento da mobilidade fazer-nos mais felizes?

“Por exemplo, com o aumento dos transportes partilhados são necessários menos veículos e menos locais de estacionamento, libertando espaço para mais espaços verdes e permitindo a criação de vias dedicadas para bicicletas e pequenos veículos elétricos parecidos com skates. Ao constatarem que podem caminhar e circular mais à vontade nestes novos espaços, os cidadãos muito provavelmente terão uma tendência ainda menor a utilizar o automóvel próprio, que fica mais caro, não contribui para a saúde e é muito mais poluente”, defende o CEO da startup.

Ser verde vai estar na moda

‘Não dá para entender. O barril do petróleo está cada vez mais barato e não há maneira do preço da gasolina baixar em correspondência. Se isto continua assim qualquer dia estou só a trabalhar para o carro. E como se não bastasse, o meu ‘bolinhas’ já não tem idade para andar em determinadas zonas da baixa lisboeta por causa dos níveis de poluição. Se ao menos fosse tão fácil ter um carro como é ter um aspirador ou um smartphone…’


Se ainda não é, vai andar muito perto disso. O CEiiA considera que uma parte deste ‘plano mestre’ da mobilidade passará obrigatoriamente pelos veículos movidos a energia elétrica. Atualmente o cenário ainda não é animador - os últimos dados oficiais são de dezembro de 2015 e apontavam para a existência de apenas 1.180 carros elétricos nas estradas portuguesas.

O panorama tem no entanto tendência a mudar com o avançar dos anos, mas dependerá da resposta que a evolução tecnológica der.

“Para um crescimento continuado dos veículos elétricos, é importante que duas tendências se materializem: por um lado, o desenvolvimento tecnológico deverá continuar a tornar as limitações destes veículos, como a autonomia das baterias e o seu tempo de carregamento, cada vez mais residuais; por outro lado, cada vez mais consumidores deverão perceber que os veículos elétricos de hoje já respondem adequadamente à maioria das necessidades de mobilidade nas cidades”, analisa Rui Bento, da Uber Portugal.

A subsidiária da gigante norte-americana assume mesmo o compromisso de “continuar a abraçar o desafio de estimular a adoção de tecnologias que tornem a mobilidade nas cidades melhor para os utilizadores, mais rentável para os parceiros e mais sustentável para as cidades”.

Apesar de serem vendidos poucos carros elétricos, o nosso país está ‘psicologicamente’ preparado para esta realidade, como explica o CEiiA. “Portugal desenvolveu um conjunto de condições de base interessantes, como um quadro legal, regulamentar e de fiscalidade específico e uma infraestrutura abrangente, interoperável, presente nas principais cidades. No entanto, é importante continuar a trabalhar nas melhores condições para que o país possa tirar partido do crescimento deste mercado. Não tendo uma indústria automóvel ao nível de outros países europeus, desenvolveu um pequeno cluster de mobilidade elétrica com soluções de excelência para o mercado global”.

E os veículos elétricos começam a entusiasmar até nos segmentos de média e alta gama, casos do Tesla Model X ou do BMW i8 Spider. Mas se está interessado em carros ecológicos talvez deva ficar atento ao Chevrolet Bolt. Foi apresentado este mês na maior feira de tecnologia do mundo, a Consumer Electronic Show, e já é visto como o primeiro veículo elétrico verdadeiramente direcionado para as ‘massas’.

Boss up Portugal!

‘Epá, aquilo nos EUA é que é fixe! Eles já têm carros na rua que conduzem sozinhos. Há dias um até foi mandado parar pela polícia por andar devagar, foi mesmo engraçado. E claro, os britânicos que também são espertos já estão a apostar na mesma área. Cá em Portugal é que não há nada disso!’


É um facto que em algumas áreas tecnológicas Portugal está habituado a assistir de fora, limitando-se a esperar pelas novidades e a adaptar-se às exigências das mesmas.

No caso da mobilidade e dos transportes o nosso país pode estar numa posição única: o CEiiA e a Veniam são disso exemplo; enquanto o primeiro está a desenvolver projetos a nível europeu, a segunda está cotada como uma das startups mais promissoras de todo o mundo.

E há mais neste ‘Portugal da mobilidade’. “Sendo Portugal um território de relativamente pequena dimensão, é possível perspetivar o país como um mercado modelo para novas soluções que possam ser testadas e implementadas localmente e exportadas para os mercados globais”, considera Luís Reis, do centro de investigação CEiiA.

Fica um exemplo em concreto: “Uma área em que Portugal se pode destacar é na criação de locais para teste de novos serviços de transporte on-demand com base em veículos autónomos. Começamos a ter indícios muito fortes que esse tipo de serviços e tecnologias irão dominar a mobilidade urbana no futuro. A Europa está muito atrasada em relação aos Estados Unidos e à Asia. Portugal pode fazer a diferença com uma aposta clara nesse sector”, defendo o CEO da Veniam sobre este tema.

E se o segredo é a alma do negócio, os portugueses podem ser os grandes catalisadores desta aposta no país. “Uma característica importante que temos observado nos utilizadores portugueses é a sua abertura para abraçar novas tecnologias - isto reflete-se em taxas de crescimento elevadas de utilizadores ativos, e de número médio de viagens por cada utilizador na plataforma da Uber em Lisboa e no Porto”, exemplifica Rui Bento.

“Dada esta afinidade tecnológica, vemos em Portugal um mercado extremamente interessante para testar e lançar produtos que poderão eventualmente ser exportados para contextos internacionais”.

Mas há ainda trabalho para ser feito. Se no caso dos serviços de transporte como a Uber é necessária legislação que permita enquadrar estes negócios disruptivos, a existência de uma estratégia bem delineada será obrigatório para ter um sector de mobilidade de gabarito.

João Barros detalha bem este ponto específico. “Em primeiro lugar, é preciso definir os modelos de governo e de negócio dos transportes públicos. Estes devem ser estáveis, de forma a que seja possível fazer apostas estratégicas de médio-longo prazo. Em segundo lugar, vale a pena identificar fontes de financiamento alternativas, nomeadamente programas europeus e receitas de publicidade digital e dados, e canalizar estas receitas adicionais para investimentos em novas tecnologias e serviços, nomeadamente de veículos on-demand e partilhados. O governo central fará bem em confiar mais nas autarquias para a gestão da mobilidade urbana de forma integrada, até porque as questões dos transportes afetam diretamente o planeamento e ordenamento do território”.

Tudo a andar sobre rodas

Claro que muitos destes conceitos vão demorar a chegar ao mercado e vão demorar ainda mais a estarem acessíveis à maioria da população. Mas este é claramente um olhar para o futuro, com base em premissas fortes e não em ‘achamentos’.

Talvez o futuro seja isto mesmo: você a preparar o dia de trabalho num carro elétrico de condução autónoma que passa por estradas muito menos apinhadas de veículos, mas com passeios mais cheios de pessoas. E conseguiu este carro apenas recorrendo ao telemóvel, a mesma ‘chave’ de entrada para autocarros, comboios, barcos e quem sabe aviões. A vida nas cidades, sobretudo nas grandes cidades, pode melhorar, mas a questão da mobilidade será importante para todas as localidades, grandes e pequenas.

Em povoações de menor dimensão os transportes públicos talvez serão os maiores motores de mobilidade, comunicando todos entre si para que não tenha de esperar 40 minutos ao frio sem saber se o autocarro ainda vem ou se acabou de passar.

A tecnologia serve para resolver desafios e o da mobilidade é muito interessante. Se forem tomadas as melhores opções, muitas das ‘boas respostas’ podem sair de Portugal para o mundo.

Rui da Rocha Ferreira

 

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#tendências2016: Até a crise dos refugiados vai ter impacto direto no mercado dos drones
Quando falamos em drones possivelmente pensa de imediato num jovem com um comando na mão a pilotar uma aeronave de pequenas dimensões e com quatro rotores. Mas há um lado muito mais sério no desenvolvimento deste mercado. Em qualquer um dos casos, a legislação está à espreita para os dois segmentos.

Drones, drones por todo o lado. Não acredita? Basta olhar para o que aconteceu na Consumer Electronic Show deste ano: as aeronaves não tripuladas foram um dos grandes destaques daquela que é uma das maiores feiras de tecnologia do mundo.

Lá havia propostas para diferentes gostos, mas destacamos aqui duas. A primeira é o Parrot Disco, um drone pensado para a produção multimédia. O destaque deste UAV é o seu formato em asa única e que se assemelha a um avião.

Tem um sistema de descolagem automático que assume automaticamente um voo estabilizado assim que é lançado no ar e pode ser desmontado em peças para ser mais fácil de transportar.


Mas o drone que roubou as atenções na CES foi o Ehang 184, o drone de transporte de um único passageiro. Leu bem - um drone feito a pensar no transporte pessoal.

Toda a ação do drone é automática e controlada a partir de um dispositivo móvel, pode levar uma carga máxima de 100 quilogramas e tem uma autonomia de voo próxima aos 25 minutos. Consegue ainda atingir velocidades máximas de 100 Km/H e voar até uma altitude máxima de 3,5 quilómetros.


Não diriamos que estes dois equipamentos vão marcar o passo para outras empresas de drones, mas mostram certamente aquelas que são duas tendências para os próximos tempos.

Fora deste âmbito mais pessoal do consumidor, os drones também estão a conhecer um grande crescimento no segmento empresarial, isto é, da prestação de serviços.

“O segmento civil comercial está a tornar-se cada vez mais interessante, porém continua muito limitado pela falta de legislação específica. Ainda assim, iremos iniciar projetos de investigação e desenvolvimento com parceiros empresarias, por exemplo no âmbito de fiscalização de obras, mas também no combate a doenças da vinha”, adiantou o diretor executivo da Tekever, Pedro Sinogas.

Os serviços de drones ligados à natureza estendem-se ainda à prevenção de fogos florestais e de espécies protegidas ou até à agricultura de precisão.

O CEO da tecnológica vê no entanto uma outra grande tendência para o ano de 2016: o da vigilância marítima. E por um motivo muito simples - “com a crise dos refugiados e dos imigrantes esta parece-me ser uma questão que continuará crítica”, explicou o executivo.

Se no ano passado a tendência passava pelo uso dos drones para um controlo do fluxo migratório já em terra, em 2016 o objetivo é ter uma atitude muito mais pró-ativa. E a portuguesa Tekever vai ter um papel fundamental nessa atividade, como detalha Pedro Sinogas.

“O nosso equipamento de maior dimensão, o AR5, irá realizar missões de vigilância marítima no Mar do Norte, Mediterrâneo e Oceano Atlântico, ao serviço da EMSA (Agência Europeia de Segurança Marítima) e da ESA (Agência Espacial Europeia), naquele que será o primeiro projeto Europeu de vigilância marítima com recurso a drones”.

Podíamos saber um pouco mais sobre as tendências do mercado dos UAVs para 2016, mas a Autoridade Nacional de Aviação Civil (ANAC) e a empresa Uavision não responderam à solicitação de participação feita pelo Tek para este artigo.

Agora que sabemos para onde podem 'voar' os drones, resta resolver um ‘detalhe’: a questão da legislação que pemitirá ao mercado dar finalmente um salto qualitativo.

A legislação sempre a sobrevoar

Desde que ouvimos falar de drones em Portugal que ouvimos imediatamente outra ideia logo a seguir: a falta de legislação. Existe uma regulação própria - como a necessidade de fazer um requerimento à Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD) para operar drones que vão captar imagens -, mas está longe de ser satisfatória.


“A posição mais previsível dos legisladores portugueses será a de aguardar por legislação europeia, porém vemos vantagens numa clarificação célere do enquadramento legal à semelhança do que se passa, por exemplo, no Reino Unido – país onde a Tekever realiza testes. É natural que a legislação deva ser especifica de cada Estado para os drones abaixo dos 150 quilos e que varie de acordo com o tipo de equipamento, missão e operador”, defende Pedro Sinogas.

Não é a primeira vez na história da indústria aeronáutica que a inovação surge primeiro do que a legislação. O mesmo se passa noutros mercados, como é caso da Uber e do modelo disruptivo de transporte pessoal ou da Airbnb e do arrendamento de casas.

Para o responsável da Tekever será inevitável ter um quadro regulatório já este ano. “Porém, é certo, que a ausência de regulamentação do sector, acrescida de algum desconhecimento em torno do vasto catálogo de equipamentos existente no mercado – com maior ou menor complexidade – e das missões a estas associadas, faz com que a indústria dos drones cresça sem segurança e de costas voltadas para as empresas que pretendem criar produtos distintivos e tecnologicamente avançados”.

Formação do operador, salvaguarda da segurança do equipamento e finalidade dos equipamentos são elementos críticos na elaboração de uma legislação completa.

Um país de navegadores e quem sabe dronadores

Portugal já tem, além da Tekever, bons exemplos de empresas e projetos que dão cartas no segmento dos drones. Existe a SkyEye na componente multimédia. Existe a Quarkson na componente de drones-satélites. E existe o projeto do investigador da Universidade de Aveiro, Jan Keiser, que consegue saber se as florestas estão doentes.

Além da questão da não-legislação que parece ser uma pedra no caminho de toda a gente - tanto dos drones de entretenimento como dos que têm fins comerciais -, o que mais pode Portugal fazer para sobressair nesta área tecnológica emergente?

Investir. Tão simples quanto isto. Sem investimento não existe o mesmo grau de retorno do que se fossem investidos vários milhares de euros em investigações e projetos específicos.

“Considero que é necessário uma mudança de mentalidade que veja a aposta em I&D e o financiamento à investigação como parte de uma cadeia de valor para a produtização e, consequentemente, para a internacionalização das empresas”, defende a Tekever.

“O nosso processo de desenvolvimento de produto começa com trabalho em investigação e desenvolvimento de tecnologia base, muito em parceria com universidades e institutos internacionais. Depois, ‘produtizamos’ essa tecnologia e levamo-la para o mercado. E quando se faz isto bem, veem-se os resultados”.

Por isso já sabe: durante este ano ponha os olhos no ar. Será o Super-Homem? Será um cometa? Não, possivelmente pode ser o seu vizinho a brincar com um drone.

Confortável com a ideia?

Rui da Rocha Ferreira

 

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#tendências2016: A competitividade também passa pela indústria de software “made in Portugal”
A internet das coisas (IoT) e a aceleração da mobilidade estão a potenciar o desenvolvimento e adoção de software nas empresas portuguesas. Mas a aposta deve ser sobretudo em sistemas de geração automática de código e em software português, defende João Paulo Carvalho.

Não há dados fiáveis sobre as software houses portuguesas nem sobre o número de recursos humanos que trabalham na “indústria de software”, mas não há dúvida nenhuma de que esta é uma área relevante para o desenvolvimento da economia, e não apenas para prestar serviços de outsourcing, ou para integrar soluções desenvolvidas noutros países, perdendo desta forma parte do valor criado e do capital intelectual.

Os números hoje divulgados pela IDC mostram que 72% das empresas portuguesas vão manter ou aumentar investimento em TI este ano, num crescimento de 2,6% para os 4,1 mil milhões de euros, que se distribuem pelo software, hardware e serviços, mas que se destinam sobretudo ao desenvolvimento de novos produtos.
O desafio é tornar este investimento também um motor para as empresas portuguesas que se dedicam ao desenvolvimento de software, uma indústria que João Paulo Carvalho não duvida que continuará em grande desenvolvimento nos próximos anos.

“A necessidade estimada de programadores a nível internacional é elevadíssima porque as organizações necessitam de cada vez maior eficiência e controle dos seus processos e de uma melhor gestão dos seus dados, que crescem exponencialmente”, explica ao Tek o senior partner da Quidgest, depois de ter sido desafiado a ajudar neste trabalho de antecipação de tendências que o Tek tem publicado nas últimas semanas.

E quais são os grandes motores da necessidade de novo software? As novas áreas de crescimento, “como a mobilidade, a gestão de dados e a Internet das Coisas estão a criar cenários de mudança radical, dos quais o primeiro já é uma realidade, embora seja expectável que continue a registar uma mudança acelerada, com a crescente utilização de aplicações empresariais em dispositivos móveis”, acrescenta João Paulo Carvalho.

Para que este crescimento antecipado aconteça é preciso porém eliminar barreiras, e as principais centram-se nas convicções existentes. Ou seja, nas crenças. E são várias, como elenca o partner da Quidgest, apontando “a crença de que os processos manuais são mais eficientes do que com software” e a “crença de que a programação manual (outsourcing) é melhor do que com geração automática (SmartSourcing e Genio)”, ou mesmo “ a crença de que produtos internacionais são melhores que os nossos”. Esta última tem vindo a perder gradualmente relevância, à medida e empresas como a WeDo e a Uniplaces, ou mesmo a Talkdesk, assumem sucesso internacional.

Mas há mais barreiras, sobretudo a nível da escassez dos recursos humanos, ou da falta de preparação em áreas críticas, como a dos data scientists. Os números da União Europeia indicam que na Europa vão faltar mais de 900 mil profissionais nas áreas tecnológicas até 2020, a um ritmo de 100 mil por ano.

O que é português é (sobretudo) bom?
João Paulo Carvalho acredita que as empresas portuguesas têm hipótese de combater o domínio das software houses internacional. E assina de cruz sob a ideia de que isso acontece sobretudo nas áreas de software de gestão, e se conseguirmos mudar a perceção da “alegada vantagem” de produtos internacionais.

“O que é que uma software house internacional acrescenta de valor a uma aplicação de contabilidade pública portuguesa? E o que é que outra empresa de software internacional de aplicações open source acrescenta a uma software house portuguesa com programação por modelos, com um software que produz software com geração automática de código?” questiona? Nestas duas situações o partner da Quidgest garante que é “indiscutível que empresas nacionais serão capazes de prestar um melhor serviço às organizações suas clientes”, e como vantagens aponta as novas tendências, a nossa facilidade natural de adaptação cultural e a flexibilidade na resposta aos requisitos dos clientes, que tornam as empresas portuguesas concorrentes efetivos nas várias situações.

Em contraposição com o modelo de integradores de software internacional, João Paulo Carvalho assume que essa estratégia não cria valor sustentável, e que ao licenciar propriedade intelectual alheia criam dependência e obrigação de importação de serviços de países estrangeiros, agravando o défice comercial. “As atividades mais nobres, de conceção, de arquitetura, de engenharia, de design, de otimização da usabilidade não são nacionais. Os integradores são meros serviçais, tanto mais úteis quanto pior pagos e facilmente substituíveis no panorama internacional”, afirma.

“A indústria de software, que defendemos, é o contrário. Potencia o desenvolvimento do país. Garante o reconhecimento internacional. Traz-nos vantagens competitivas sustentáveis na sociedade do conhecimento. Gera empregos bem remunerados. Tem um enorme potencial exportador. Mantém os centros de decisão em Portugal. É verde e não poluente”, defende o senior partner da Quidgest, dando como exemplo a diferença entre conceber uma ceifeira debulhadora ou estabelecer uma linha de montagem de automóveis estrangeiros, sendo que a primeira “gera mil vezes mais valor local”.

Isso não quer dizer que não existam grande players globais na área de software. “Claro que há software de base, tipo sistemas operativos, bases de dados e outros igualmente genéricos em que vão subsistir poucos players. Mas, em todas as áreas do software de gestão, criamos muito mais valor para o nosso país e até para outros países em desenvolvimento, ainda mais se pensarmos no potencial que o software desenvolvido em Portugal pode ter na maior competitividade das empresas nacionais nos setores identificados como prioritários”, refere.

Dinâmica virada para as startups não é suficiente
Na lista de desejos de João Paulo Carvalho para 2016 há várias linhas, todas dedicadas à concretização do potencial de crescimento da economia nacional, ou pelo menos as que partilhou com o Tek.
A dedicação de maior atenção às empresas portuguesas que desenvolvem software por parte das autoridades competentes é uma delas, até porque esta atenção não pode ir toda para as startups “por muito relevante que sejam e por maior que seja o seu ritmo de crescimento”.

A isenção está também na lista, mas não em relação aos impostos. “Seria fundamental que o Estado desse uma indicação clara no sentido de uma maior isenção na seleção das soluções tecnológicas adquiridas, preferindo até nacional em igualdade de circunstâncias. Seria igualmente fundamental que validasse de forma efetiva a aplicação destas soluções, a relação custo/benefício e a eficácia dos resultados obtidos”, alerta, defendendo que o Estado deveria tomar a iniciativa de processar os decisores que, ilegalmente, impedem o acesso das empresas nacionais produtoras de software aos seus concursos, promovendo também “inspeções cuidadas a todas as situações semelhantes ocorridas nos últimos 10 anos, as quais têm grande responsabilidade na crise económica e nas ineficiências do Estado”.

Alguns destes alertas têm feito parte da agenda de João Paulo Carvalho, e da Quidgest, nos últimos anos, mas não há indicações claras de que não se irão estender além de 2016.

Fátima Caçador


 

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#tendências2016: Reserve uns minutos (muitos) para jogar. E para compras in-app

Se olharmos rapidamente para os pitch de jovens empreendedores,  parece que todos querem desenvolver apps. E os jogos têm um peso importante. Mas será esta uma aposta ganha em 2016?

Sérgio Varanda acredita que sim. “Penso que em 2016 [o mercado de produção de jogos] continuará a aumentar, com mais pequenos estúdios a aparecer em Portugal”, defende. E o Sérgio sabe bem do que fala.

Depois de um percurso que passou pelo Skype, Sérgio Varanda “reside” há alguns anos na Miniclip e criou em Portugal uma sucursal da empresa de videojogos dedicada ao desenvolvimento de jogos para telemóveis que já é a área mais bem sucedida da empresa e que emprega já 90 pessoas, o que a torna o maior estúdio dedicado a esta área em Portugal. E este ano quer contratar mais 50 colaboradores.

“Ainda há uma grande oportunidade de crescimento deste mercado em Portugal, um país como a Finlândia com menos habitantes em Portugal tem mais de 1000 empresas de videojogos registadas”, afirma o empreendedor. E a Finlândia é um excelente exemplo por ser a “casa” da Rovio dos Angry Games e da Supercell do Clash of Clans, e onde os últimos números indicam que são gerados mais de 2 mil milhões de dólares por ano.

Em Portugal não há muitos números. No ano passado a consultora Statista estimava que o mercado de jogos para telemóveis devia valer 24,6 milhões de euros em 2015 e que chegaria aos 35,3 milhões de euros em 2017. Mas o dinheiro não seria todo distribuído pelos estúdios portuguese.

Em 2014 o Tek fez um trabalho alargado sobre quem dá cartas no mercado de videojogos em Portugal, analisando cada um dos principais estúdios e falando com os principais protagonistas da criatividade que suportava os projetos. Desde ai vários fecharam, outros abriram, mas o potencial continua cá, na criatividade e na qualidade de desenvolvimento, mesmo que falte depois (quase) tudo o resto: capacidade de investimento e de internacionalização dos produtos.

“Tornou-se cada vez mais complicado criar jogos que consigam vingar no Top Grossing da Apple e da Google. As grandes empresas continuam a apostar em muita publicidade para manter os seus jogos no Top. Diz-se que a King e a Machine Zone gastaram mais de 200 milhões de dólares só em publicidade televisiva em 2015. Isto não significa que alguns pequenos estúdios não tenham conseguido vingar no mercado numa escala mais pequena, mas continuam a ser uma minoria”, explica Sérgio Varanda.

Há também outras barreiras a um maior crescimento em Portugal e o executivo da Miniclip aponta a falta de conhecimento nas áreas de Game Design e Game Production. "Precisamos de mais alguns sucessos nacionais para começar a haver investimento nesta área", alerta. 

A aposta deve passar pela formação de mais jovens, sendo para isso necessário aumentar o número de formadores com conhecimento real do mercado global de videojogos. “Vários dos nossos colaboradores já estão também a dar formação em várias universidades e escolas, o que está a ajudar o mercado a crescer”.

Onde se jogam as tendências que vão dominar 2016?

Depois de em 2015 ter aparecido no top dos jogos grátis uma nova categoria, a “Super Casual” com poucas compras in app e quase sempre subsidiada por publicidade, liderada pela empresa Ketchapp com dezenas de jogos simples mas altamente viciantes, Sérgio Varanda acredita que as compras dentro das aplicações vai manter-se como tendência.

“O modelo fremium, de disponibilização gratuita dos jogos para vender produtos adicionais in-app, está para ficar”. São elas que dominam as receitas e “é cada vez mais difícil de rentabilizar um jogo pago do que um jogo grátis com IAPs”, afirma.

A Miniclip quer continuar na senda do sucesso que já provou com o 8 Ball Pool e o Agar.io e lançar outro jogo com a mesma trajetória na conquista dos tops, embora admita que vai ser difícil, até porque Agar.io foi a terceira palavra mais procurada em 2015 no Google.

Vingar no mercado asiático está também nos planos da empresa, mas até agora tem sido difícil. Quem sabe 2016 não trará boas notícias também nesta área?

Fátima Caçador