A Amazon está a desenvolver um novo smartphone com inteligência artificial no centro da experiência, numa tentativa de regressar a um mercado onde falhou há mais de uma década.
O projeto, conhecido internamente como “Transformer”, está a ser desenvolvido na divisão de dispositivos e serviços da empresa, com o objetivo de criar um aparelho de personalização móvel que sincronize com a assistente de voz Alexa e sirva de ponto de contacto permanente com os serviços Amazon.
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A iniciativa recupera uma visão antiga de Jeff Bezos, antigo CEO e fundador da empresa, que pretendia criar um assistente de computação ubíquo e controlado por voz, inspirado no computador de bordo da série de ficção científica Star Trek.
Ao contrário do Fire Phone de 2014, que apostou tudo numa interface 3D que não convenceu o mercado, daí ter vendido menos de 140 mil unidades, o novo dispositivo centra-se na integração com o ecossistema Amazon para ter sucesso.
Este deverá ter integração completa com a loja de compras Amazon.com, os vídeos em Prime Video, as músicas do Prime Music e os seus serviços de entrega, usando sempre a Alexa como motor principal da plataforma.
O regresso ao mercado dos smartphones acontece sob a liderança de Panos Panay, antigo responsável de hardware da Microsoft, que chegou à Amazon com o mandato de criar produtos verdadeiramente inovadores. A aposta na Alexa+ como assistente de IA avançada é vista como o principal argumento diferenciador face ao iPhone, à família Galaxy da Samsung e aos restantes fabricantes chineses.
Ainda assim, a receção da indústria está longe de ser entusiasmante. Numa nota enviada ao TEK Notícias, Francisco Jerónimo, vice-presidente para a Europa na IDC, reconhece que existe uma janela de oportunidade num mundo centrado em IA, mas avisa que o risco de execução é extremamente elevado.
Na sua análise, a Amazon tem ativos relevantes, como um ecossistema poderoso que combina comércio, conteúdo, cloud e dados de clientes, e a própria Alexa já oferece uma base de IA já estabelecida.
Num mundo onde os smartphones se tornam dispositivos “AI-first”, com agentes que atuam em nome dos utilizadores e interfaces cada vez mais conversacionais, esse posicionamento pode fazer sentido. Mas Francisco Jerónimo é direto quanto às fragilidades da ideia, uma vez que competir em hardware ou em experiência de utilização tradicional é um jogo perdido desde o início.
A isto junta-se a atual situação do mercado de smartphones, que deverá ainda contrair 13% em 2026 devido à crise de escassez de chips de memória, tornando este um dos piores momentos para lançar um novo dispositivo. A ideia de posicionar o aparelho como um telefone secundário ou de nicho também não convence os especialistas, já que os volumes para este tipo de dispositivos são negligenciáveis para uma empresa da dimensão da Amazon.
O analista da IDC conclui que, sem uma proposta de valor clara e diferenciada, o dispositivo corre o risco de chegar morto à chegada. Existe também a situação dos atuais líderes de mercado, que já têm as suas plataformas de IA aplicadas, ou prestes a serem melhoradas, como é o caso da Apple, que celebrou acordo com a Google para usar os serviços Gemini na nova Siri. Até a própria OpenAI, detentora do ChatGPT, está a desenvolver dispositivos potenciados por IA que deverão substituir o smartphone como dispositivo primário na vida das pessoas.
