Por Filipa Rocha (*)
A imagem sempre funcionou como prova. No entanto, a discussão sobre as imagens de hoje – o que é ou não é real, quem as trabalhou e o porquê de existirem – tornou-se mais aguda do que nunca. A IA retirou-nos duas provas ao mesmo tempo: a garantia de que alguma coisa existe e a de que alguém pensou sobre essa coisa. Em 2026, o “ver para crer” perdeu o sentido e o testemunho deixou de ser mandatório. Ora, quando o trabalho de design é produzir imagens para serem vistas e sistemas para serem usados, o seu valor é imediatamente questionado, sob pouca ou nenhuma reflexão, pela facilidade com que se atingem possíveis soluções. Enquanto designer, esta conclusão parece-me pouco inspiradora e é por isso que tentarei mostrar que “imediatamente” raramente se coaduna com “fazer design”.
A definição habitual de design, por si só, não chega para fazer frente ao que parece ser a grande ameaça ao design com modelos de IA generativa cada vez mais poderosos. “Resolver problemas complexos através do conhecimento profundo sobre um tema e da sua audiência” é algo que a IA promete fazer, independentemente da disciplina. Não obstante, “fazer design” nunca foi apenas executar tarefas, da mesma forma que “ser médico” não é exclusivamente realizar diagnósticos ou “construir casas” não exige apenas saber geometria descritiva. O design trata também de um juízo de adequação ao contexto real, algo que exige habitar o mundo de forma empática e atenta à forma como este evolui. E, se tudo correr bem, participar como voz ativa nessa evolução devido à sua prática per si que implica desenhar símbolos, sistemas e experiências que estabeleçam linguagens universais, orientando e agrupando grupos de indivíduos da forma mais natural possível. Por trás de cada peça visível, seja ela digital, offline ou sistémica, existe um pensamento invisível que se baseou na fricção, no debate e nas iterações decorrentes entre indivíduos.
Exemplo prático da invisibilidade
É recorrente ler briefings com as seguintes linhas orientadoras: “quero ter um website igual à Amazon”, “tem de parecer o Revolut” ou “quero uma espécie de Netflix”, cruzando produtos concretos com ideias abstratas de sucesso. A palete de referências e inspirações gráficas tem vindo a tornar-se muito pouco rica. Hoje, qualquer IA generativa consegue responder a um desses pedidos – ou mesmo a todos ao mesmo tempo – com menos recursos e mais rápido. Além disso, tem a grande vantagem de não questionar e de não carregar a consequência da decisão.
Neste exemplo, a decisão visível do que está a ser pedido é, essencialmente, uma alteração de layout, uma execução rápida, um resultado limpo. A decisão invisível será perceber se copiar o layout de plataformas (re)conhecidas se traduz numa melhor experiência para o utilizador e, por conseguinte, em mais vendas como último reduto.
Ter autoridade para argumentar no sentido da decisão invisível exige noções de psicologia, hierarquia, cor e espaço, tipografia, mercados e, acima de tudo, empatia. Tudo disciplinas sobre as quais o designer deve refletir para que, desta forma, seja defensável uma visão divergente numa sala de stakeholders convencidos do contrário. Mais do que uma execução exímia.
O valor da crítica
Com este exemplo, não quero dizer que tenha a pretensão de entregar melhores resultados sem IA do que com o seu apoio. Pelo contrário, quero também tirar partido desta nova forma de operar por me parecer que deixa as tarefas aborrecidas para “alguém” cujo aborrecimento não parece ser desmotivante e pelas janelas que, até agora, estavam fechadas por limitações de tempo ou conhecimento técnico. A velocidade com que entrega, o custo reduzido e a facilidade de iteração, justificam muitas vezes a utilização de IA nas diferentes fases do processo de design (research, ideation, prototype, test). No entanto, a atitude crítica sobre os resultados tem de estar assente sobre a mesma base sólida que dá forma ao conhecimento técnico cruzado com a interpretação de um contexto subjetivo. Para uma IA, o contexto nunca é subjetivo.
A falta de crítica sobre os resultados pode traduzir-se num caminho ardiloso e com pouco valor, não obstante a rapidez com que entrega. Esta aceleração é verdadeiramente exponencial em dois sentidos: na qualidade do output e na falta dela. Se o input for preguiçoso, o resultado será banal ou até risível, em muitos casos. Mas se o input for estratégico, conceptual e adequado, o resultado será maior do que alguma vez seria humanamente possível no mesmo espaço de tempo e recursos.
O designer na era da IA
É talvez aqui que comece o questionamento sobre onde começa e termina o papel do designer. É também aqui que me distancio do que é visível e executável como exemplo acabado da prática de design, e me aproximo do que é invisível e experiencial.
A prova mais clara disto aparece quando todos têm acesso às mesmas ferramentas. Quando várias equipas com diferentes competências resolvem problemas com IA, o padrão de resultados repete-se, por oposição ao que acontecia antes destas ferramentas serem um recurso válido. Tomemos, por exemplo, o desenho de uma árvore, um sol e uma casa pedido a pessoas diferentes. Se antes, face ao mesmo pedido, encontraríamos soluções inevitavelmente diferentes e ricas pela disparidade da condição humana, pedindo o mesmo à IA generativa é garantido que a solução poderá ser exatamente igual na primeira instância, independentemente do contexto ou audiência. Se dedicarmos alguma atenção a exemplos concretos que nos chegam pelos meios de comunicação que consumimos diariamente como a televisão, a rádio, a publicidade, os filmes, começamos a notar padrões ou ideias que talvez já tenhamos visto em algum lado. E quem ainda não se questionou se é ou não IA aquilo que está a ver? Quem ainda não questionou o valor do que viu dependendo da resposta à primeira pergunta?
Creio que estas perguntas distraem e são, à partida, suficientes para responderem a si próprias: se são a primeira coisa que nos ocorre perguntar, denunciam a fraca qualidade do juízo tomado durante a sua execução. É verdade que os resultados têm sido, na sua grande maioria, uniformes e pouco disruptivos. Por oposição, os casos que se destacam pela positiva, e que, normalmente, colocam as perguntas acima para segundo plano, são impressionantes devido à técnica eximia, conceito inquestionável e impacto comprovado num curto espaço de tempo.
A pergunta que se impõe é, quão diferente é o papel do designer hoje? Qual o seu impacto no sucesso ou fracasso de uma solução?
O futuro
Na sequência de vários exercícios práticos e de observação que tenho feito, o risco confirma-se: as novas ferramentas nivelam. Mas o juízo que direciona a criação de um produto pode traduzir-se em resultados verdadeiramente extraordinários. E é essa ambição que deve ser perseguida, ao invés de uma utilização banal das ferramentas, como aliás, se mantém verdade para qualquer ferramenta que prometa amplificar o exercício da disciplina. Quando se torna óbvio que existe uma expansão do conhecimento e impacto, por que negar à partida algo que nos devolve mais valor?
Ao longo dos últimos anos de experimentação quase diária, estas são as lições que retiro:
- Repetir, iterar e refinar não é um método, é uma mentalidade. A recusa do primeiro resultado é mandatório.
- O verdadeiro valor do design não é a execução, é a tradução do problema para o conceito: a visão.
- O conhecimento mantém-se essencial à priori. Os melhores profissionais serão cada vez melhores.
- A ferramenta per si não importa, se o resultado se traduzir no verdadeiro motor de inspiração: contribuir para um amanhã melhor.
A promessa da GenAI é real e deve ser abraçada com seriedade e ambição. O equívoco tem sido humano quando julgamos o valor de um resultado pela ferramenta que o produziu. Desta forma, creio que o design de um produto ou sistema, está cada vez mais distante da sua execução visível. A minha conclusão é de que, o facto de a imagem estar a perder provas, não define por si só o fim do designer, mas, pelo contrário, liberta-o da tendência para fingir que alguma vez foi só imagem.
