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A saída de Tim Cook e o verdadeiro teste que espera John Ternus

Francisco Jerónimo analisa a mudança de liderança da Apple, depois de quinze anos de Tim Cook, num momento em que o iPhone começa a perder fôlego e a verdadeira batalha – a da inteligência artificial – ainda está por ganhar.

Francisco Jerónimo, VP for Data and Analytics na IDC EMEA

Por Francisco Jerónimo (*)

A saída de Tim Cook da liderança da Apple, ao fim de quinze anos, marca o fim de um dos mandatos mais bem‑sucedidos da história da tecnologia. Quando Cook assumiu o lugar de Steve Jobs, em 2011, a Apple valia cerca de 350 mil milhões de dólares. Sai agora de uma empresa avaliada em quatro mil milhões. A dimensão desta criação de valor, sustentada ao longo de uma década e meia, atravessando vários ciclos tecnológicos, choques económicos e uma pandemia global, é simplesmente extraordinária. Cook merece o crédito por ter transformado a Apple numa das empresas mais lucrativas do mundo.

A nomeação de John Ternus como novo CEO, anunciada em Abril e com efeitos a 1 de Setembro, sinaliza uma escolha deliberada: a Apple privilegia a continuidade e a execução em detrimento de uma mudança radical. Ternus passou praticamente toda a carreira dentro da empresa, a trabalhar nos produtos que definem a sua identidade, do iPhone ao iPad, passando pelo Mac e, mais recentemente, pela transição para os chipsets próprios. Poucas pessoas, dentro ou fora da empresa, conhecem tão bem a arquitectura dos produtos da Apple, como Ternus.

No curto e médio prazo, o negócio está em boas mãos. A base instalada da Apple é enorme, a fidelidade ao ecossistema mantém‑se elevada e o que se perspetiva para o iPhone, o Mac e outros produtos dá a Ternus uma estabilidade de negócio invejável a qualquer novo CEO de uma empresa de tecnologia. O ciclo de actualização do iPhone, embora mais maduro, não colapsou. Segundo dados da IDC, a Apple continua a deter uma posição dominante no segmento de alta gama do mercado mundial de smartphones, e dificilmente isso mudará no imediato.

A pergunta principal é, no entanto, outra: o que espera à empresa nos próximos anos? E, mais concretamente, como é que a Apple vai conseguir focar-se nos novos motores de crescimento quando a força do iPhone começar a atenuar-se?

Há quase duas décadas que o iPhone é a principal fonte de crescimento da Apple. O produto continua a ser o maior contribuinte para a receita e a âncora de todo o ecossistema. Mas o ciclo de substituição alonga‑se, a saturação no segmento de alta gama é real e a próxima grande vaga da tecnologia de consumo já não passa pelo telemóvel, mas sim pela inteligência artificial. É aqui que a pressão estratégica sobre Ternus se vai acentuar.

A próxima década da Apple será definida menos pela perfeição do hardware, algo que Ternus claramente domina, e mais pela capacidade da empresa em construir uma plataforma de IA forte e uma estratégia de ecossistema sólida, antes que os concorrentes consolidem as suas posições.

Ternus tem a credibilidade técnica para perceber o que é preciso fazer. A questão é se terá a coragem de tomar o tipo de decisões ousadas, e por vezes incómodas, que uma plataforma de IA exige. Fazer hardware excelente é um problema bem definido. Construir uma plataforma de IA que os developers e empresas adoptem é um desafio de natureza completamente diferente.

John Ternus é, sem dúvida, a pessoa certa para suceder a Tim Cook. A verdadeira questão é se essa escolha se traduzirá na determinação que a era da IA exigirá.

A transição de Cook para Ternus é, talvez, a mudança de liderança mais impactante a que o sector da electrónica de consumo assistiu nos últimos anos. Cook deixa uma empresa em excelente saúde financeira, com uma base de clientes leal e uma cultura de engenharia sem concorrência. O que a Apple precisa agora de Ternus não é apenas execução técnica, mas convicção estratégica em termos de IA. Os produtos vão estar bem entregues, mas será a plataforma de IA e o futuro da empresa assentes nela que irá definir o seu legado.

(*) Vice President EMEA, Devices (Data & Analytics)

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