Um White Paper publicado em 2025 pela Cegoc mostra que as organizações estão a colocar a IA e dados no topo das competências a desenvolver pelos colaboradores, numa altura em que a adoção da tecnologia está a acelerar nas empresas, mesmo que ainda parcialmente e a ritmos diferentes. E que estratégias estão a adotar para o desenvolvimento das competências?
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Em entrevista ao TEK Notícias, Joana Teixeira, revela que existe uma evolução e uma abordagem mais estruturada. “O nosso White Paper revela um paradoxo fascinante: enquanto 90% das organizações ainda adotam uma postura cautelosa de wait and see, observamos uma evolução significativa na maturidade das empresas face à IA”, afirma a head of digital learning da Cegoc. “a transição está em curso, embora a ritmos distintos”.
Pata Joana Teixeira, a evolução está a ser feita “da experimentação individualizada para uma abordagem mais estruturada, baseada no desenvolvimento de competências”.
As “academias internas de IA” estão a proliferar, o que reflete uma mudança de paradigma, da IA como ferramenta isolada para a IA como cultura organizacional integrada afirma.
O documento desenvolvido pela empresa apresenta recomendações para uma abordagem baseada em competências nas organizações, com três ângulos complementares: desenvolvimento de competências cognitivas, como o pensamento crítico e gestão de preconceitos; o reforço das competências socioemocionais, que diferencia os humanos da IA; e a promoção de uma “mentalidade de crescimento”, que permite que todos aprendam e transformem o conhecimento em ação.
O investimento em formação de IA está a “crescer significativamente” e 58% das empresas dão prioridade ao desenvolvimento de competências. “Este não é um investimento unidimensional; as organizações estão a criar um ecossistema de competências que abrange o técnico, o cognitivo e o socioemocional”, afirma Joana Teixeira.
Entre os aspectos relevantes destacados estão o prompt engineering, que emerge como uma nova linguagem corporativa, enquanto a ética e a governança de IA se tornam pilares fundamentais. “As “academias internas de IA” não são apenas centros de formação, são incubadoras de inovação. E as empresas já perceberam que o futuro pertence àquelas que conseguem equilibrar a expertise técnica com a sabedoria humana”, justifica.
IA como parceira estratégica e a necessidade de aplicar uma abordagem equilibrada
Considerando o crescimento dos projetos de IA nas empresas, há que ter em conta que a adoção da Inteligência Artificial “exige uma abordagem equilibrada entre inovação e ética”. A transparência é um imperativo, sendo que cada decisão tomada por sistemas de IA deve ser compreensível e auditável, e a privacidade e segurança dos dados são também fundamentais, para a conformidade regulatória e a confiança.
“É crucial estabelecer uma governança de IA robusta, com um comité de ética multidisciplinar. Esta abordagem não evita apenas riscos, trata-se de criar uma cultura onde a inovação tecnológica e a responsabilidade ética coexistem e se reforçam mutuamente”, acrescenta a head of digital learning da Cegoc.
Nas áreas de Recursos Humanos a Inteligência Artificial está a ser usada na otimização de processos e a medição de impactos com precisão. “No recrutamento, algoritmos agilizam a seleção de candidatos, reduzindo tempo e vieses. Na formação, a IA personaliza percursos de aprendizagem, alinhando-os com objetivos organizacionais”, reconhece Joana Teixeira.
Uma medição mais precisa e em tempo real do impacto das iniciativas, com análises de mood que avaliam o engagement dos colaboradores, juntam-se a métricas avançadas que demonstram o ROI de programas de formação, políticas de retenção e outras estratégias.
Esta abordagem data-driven transforma os RH, possibilitando decisões mais informadas e estratégicas em todas as áreas, desde o recrutamento até ao desenvolvimento de talentos.
Em geral, Joana Teixeira diz que a IA é uma “revolução silenciosa está a redefinir o que é possível em termos de eficiência e criatividade”. “Nas “profissões em ascensão”, que representam 22,5% do nosso mercado de trabalho, vemos a IA como uma parceira estratégica, não apenas para automatizar tarefas, mas com o intuito de potencial a criatividade humana. É como ter um assistente superinteligente que, não só executa, mas também inspira”, sublinha.
Para a head of digital learning da Cegoc, “o fascinante é que a IA está a democratizar a inovação”. Desde as startups às grandes empresas, todos têm acesso a ferramentas que antes eram inimagináveis, mas o sucesso não está na tecnologia em si, mas na visão estratégica para implementá-la. “As empresas que entendem isso estão a criar o futuro, hoje”, sublinha.
Visão e liderança para transformar as organizações
Entre os exemplos de casos onde a IA está a “fazer mexer o ponteiro”, Joana Teixeira aponta a Worten e o Carrefour. “Na Worten, um agente de IA já realizou 131 mil interações, resolvendo metade dos pedidos sem intervenção humana. No Carrefour, sistemas preditivos analisam desde históricos até previsões meteorológicas, reduzindo drasticamente ruturas de stock”, explica.
O fascinante é observar como a IA está a criar uma linguagem corporativa, onde dados e criatividade finalmente conversam na mesma frequência, o que gera valor em cada interação.
Ainda assim, reconhece que a “assimetria tecnológica” é uma realidade. “Temos organizações onde equipas de marketing e TI operam com ferramentas avançadas de IA enquanto áreas, como recursos humanos, logística e operações, continuam ancoradas em processos analógicos”.
Joana Teixeira admite que o fosso não é apenas tecnológico, mas cultural. “As empresas visionárias compreenderam que a democratização da IA não é opcional, é estratégica. Estão a criar “academias internas de IA” e programas de mentoria cruzada entre departamentos. Pelo que a chave está em transformar a IA, de privilégio departamental para uma linguagem comum organizacional”, avisa.
Mas desenvolver uma cultura de IA exige um equilíbrio delicado entre ambição e responsabilidade. Para além da formação contínua e transversal na organização, complementada por uma infraestrutura tecnológica robusta, “o alicerce fundamental é uma liderança que não apenas advoga, mas personifica a transformação digital”, define Joana Teixeira.
E quais são os principais riscos? A especialista diz que não é a resistência à mudança, mas sim a adoção sem propósito. “É o caso daquelas organizações que implementam IA como fim, não como meio, as quais caem na armadilha do “solucionismo” tecnológico”, defende, acrescentando que “o verdadeiro desafio é humanizar a IA, transformando-a numa aliada do potencial humano, não numa substituta”.
Um dos projetos que a Cegoc desenvolveu nesta área foi a implementação de um ecossistema de aprendizagem potenciado por IA numa empresa líder no seu setor. “Criámos uma experiência formativa hiperpersonalizada que se adapta em tempo real ao progresso de cada colaborador, combinando conteúdos dinâmicos com coaching virtual”.
Joana Teixeira afirma que os resultados superaram todas as expectativas, com uma redução de 40% no tempo de formação e aumento de 35% na retenção de conhecimento. Mas mais importante foi o que aponta como “uma transformação cultural profunda”.
A IA deixou de ser percecionada como ameaça para se tornar numa aliada estratégica no desenvolvimento de talento
