A BQ é uma empresa curiosa. Tem sido um exemplo de sucesso pois em poucos anos afirmou-se como uma marca global de smartphones, a partir de Espanha. A tecnológica conseguiu conquistar os utilizadores sobretudo através da criação de dispositivos com uma boa relação qualidade-preço. Em mercados onde os consumidores não têm orçamentos abundantes, como Portugal, é uma opção sempre bem-vinda.

Mas a estratégia da empresa vai um pouco mais além. A BQ também tem sido especialista em jogadas de marketing. Lembra-se do primeiro Ubuntu Phone do mundo? Foi bom para promover a marca, já que o dispositivo era pouco convincente.

E o Aquaris A4.5 também foi usado como mais uma ‘granada’ de marketing. Por ter sido responsável por trazer a iniciativa Android One para a Europa Ocidental, conseguiu ser manchete em dezenas de publicações especializadas um pouco por todo o mundo. Mais uma vez a máquina do marketing funcionou, mas o smartphone em si deixa um pouco a desejar.

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Esperar pelo que nunca veio

Já tinha defendido no primeiro contacto com o smartphone que o Aquaris A4.5 parecia não respeitar bem a ideia que a Google tinha para o Android One - ainda que o lançamento do dispositivo tenha recebido a benção da gigante norte-americana. Só havia uma maneira de a BQ provar que eu estava enganado e isso tinha de ser feito através da atualização para o Android Marshmallow.

Durante um mês após o lançamento do Android 6.0 esperei pela chegada da atualização. Não veio. E isso não é positivo pois quem compra um smartphone associado a este programa vai claramente à procura de ser dos primeiros a receber atualizações.

A BQ não tem toda a culpa nisto já que é a própria Google quem trata dos updates no caso do programa Android One. Mas é a BQ quem dá o nome ao dispositivo e todas as pressões que possam ser feitas pelos utilizadores no sentido de receber a atualização serão direcionadas para a empresa espanhola.

Mas a questão da atualização não é assim tão simples. Considero que para um Android One não receber a atualização durante o primeiro mês é algo negativo. Mas sabendo que há smartphones muito mais caros que vão demorar o mesmo ou até mais a migrarem para o Android 6.0, então o caso do Aquaris A4.5 quase que pode ser desculpado.

Talvez no fundo tudo se resuma a uma questão: quem pagou 179,90 euros pelo Aquaris A4.5 quer justificações ou quer resultados? Quer uma promessa por cumprir ou quer uma promessa cumprida? Como consumidor escolheria sempre a segunda resposta às questões.

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De origem o smartphone vem com o Android 5.1.1 ‘Lollipop’ quase imaculado: apenas três aplicações próprias da BQ, sendo que a restante experiência é Android puro. Algo que nos dias que correm é um ponto positivo para alguns utilizadores.

Mas como o preço que se paga por um equipamento não garante só um sistema operativo, falo agora também na questão do hardware para no final voltar a colocar na balança todos os prós e contras do Aquaris A4.5.

Smartphone simples para utilizações simples

Nem todos precisam de um smartphone ultra-potente. Nem todos sentem a necessidade de ter um topo de gama. E o BQ Aquaris A4.5 é para muitas destas pessoas.

As chamadas ‘ações básicas’ de um smartphone, como navegar na Internet, aceder às redes sociais, usar algumas aplicações de conteúdos como o Spotify ou jogar algumas das novidades mais recentes no campo dos videjogos como o Skiing são feitas sem problemas.

O smartphone garante um desempenho seguro durante a utilização no quotidiano, mas não consegue esconder as dificuldades para lidar com algumas tarefas. Isso torna-se claro, por exemplo, quando tentar usar a opção multitarefa do Android ou quando tenta carregar um jogo mais complexo como o Real Racing.

O processador de quatro núcleos com apenas 1Ghz de velocidade de relógio e a memória RAM de 1GB dão para o básico, mas mostram-se limitados quando as ambições são maiores.

Carregar algumas páginas Web mais complexas também pode demorar mais um pouco, mas no geral e no ponto de vista do desempenho o Aquaris A4.5 vai cumprindo.

A experiência com o smartphone sai melhorada graças ao ecrã. Gosto dos painéis que a BQ escolhe para os seus smartphones dentro do nível de preço que define para os equipamentos, ou seja, nunca compromete nesta área. E isso é um ponto positivo.

As cores são bastante vivas e mesmo não assegurando uma resolução HD, todos os conteúdos são reproduzidos com um bom nível de detalhe. Depois há a considerar um factor: o tamanho de 4,5 polegadas do ecrã. Numa era de smartphones gigantes, o tamanho mais pequeno pode ser visto como uma mais valia para alguns consumidores - tudo dependerá dos seus objetivos para o dispositivo.

Olhando depois para o campo da fotografia há melhorias nos sensores da BQ. Em cenários com boa iluminação, o Aquaris A4.5 consegue captar boas imagens, especialmente quando o utilizador tenta destacar um elemento dentro da composição.

Isto acontece também pelo contraste bastante aceitável entre as cores, o que faz com que os diferentes elementos estejam devidamente destacados entre si, o que contribui para uma fotografia definida.

O sistema de focagem da câmara fotográfica também é aceitável e permite que o utilizador consiga controlar melhor a questão dos contrastes, mesmo quando está em modo automático.

Quando as condições de luminosidade pioram, aí notam-se as limitações do sensor de oito megapíxeis. As fotografias ficam afetadas pelo ‘grão’ e perde-se também alguma detalhe, mas ainda assim o comportamento pareceu-me melhor em comparação com outros dispositivos BQ que já me passaram pelas mãos.

Também no campo do hardware e olhando para o design, parece-me que a filosofia do telemóvel de plástico, quadradão, escuro e robusto está mais do que esgotada para a BQ. A barra preta da parte inferior é demasiado notória e não tem função específica associada, já que os botões são virtuais.

A própria tecnológica parece admitir isso com o anúncio do Aquaris X5, por isso deixo este ponto em aberto: há quem continue a gostar, há quem já não goste desta filosofia de design, mas na minha opinião há smartphones mais apelativos no mercado e sem custarem mais - da Samsung e da LG, por exemplo.

Altos e baixos

O Aquaris A4.5 foi o meu smartphone diário durante um mês e há quatro pontos que gostava de destacar.

Por um lado não fiquei muito impressionado com a autonomia do dispositivo. Por mais do que uma vez tive a necessidade de recorrer a um power bank para garantir a energia necessária para as questões de trabalho.

Tirar fotografias ou jogar são ações que por norma ‘levam’ a bateria, mas no caso do Aquaris A4.5 senti mais esse impacto. Numa utilização mais leve o telemóvel aguenta bem um dia longe do carregador, mas não sobrará muito para o dia seguinte. Perceba bem as suas necessidades para um telemóvel e tome a melhor decisão neste sentido.

Depois o som. A BQ diz ter qualidade Dolby, mas a verdade é que é um sistema de som comum - consegue atingir bons níveis de volume, mas faltam graves à reprodução. Ou seja, esta chamada de atenção serve só para passar a ideia de que se pensa que vai comprar um portento na reprodução de som, isso não é verdade.

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Mas gostava também de destacar dois pontos pela positiva: o suporte de redes 4G, que garante boas velocidades de navegação quando estamos longe de uma rede Wi-Fi; e o facto de o telemóvel ter uma câmara frontal de cinco megapíxeis que é boa para quem comunica muito através de serviços de videoconferência ou simplesmente gosta de tirar umas selfies.

Considerações finais

Mesmo sabendo que o Aquaris A4.5 tem bastantes pontos positivos, continuo a defender que o valor de 180 euros pedido pelo telemóvel não é o mais correto. O smartphone cumpre, mas nunca surpreende nem se mostra arrebatadoramente melhor do que a concorrência mais direta. Se a BQ apontasse talvez para os 130/140 euros, aí teria uma opinião diferente pois a relação qualidade-preço já faria mais sentido.

Primeiro por causa da questão do Android One - é um programa de smartphones low cost e 180 euros já o começa a colocar no mercado de média gama. E olhando para o que este mercado apresenta, entre marcas como a Wiko, Motorola, Sony ou Asus, o equipamento da BQ tem muitos concorrentes sérios.

E se é para ficar à espera das atualizações Android como acontece com outras marcas, então também mais vale considerar o que essas outras marcas têm para oferecer. Se a BQ e a Google garantissem a atualização para o Marshmallow e futuras versões do Android num curto espaço de tempo, seria um trunfo esmagador. Mas como há essa promessa e não é cumprida, acaba por ser uma grande falha.

A BQ garante ainda que quem compra este smartphone fica com uma garantia de cinco anos. Isto é positivo pois transmite segurança do ponto de vista da utilização. Mas dadas as especificações modestas que o dispositivo apresenta, tenho as minhas dúvidas que daqui a três ou cinco anos este ainda seja o seu smartphone principal.

Se gosta dos produtos BQ e se está disposto a esperar mais tempo pela atualização para o Android Marshmallow, então deve considerar o Aquaris A4.5 como uma das opções de investimento. Isso garante-lhe um smartphone normal - em desempenho e em tamanho - e que o deixa ter uma boa experiência Android.

A questão que se coloca depois é se com mais algum dinheiro - até aos 200 euros por exemplo - se não será de considerar opções como o Motorola Moto G, Samsung Galaxy Grand, Wiko Pulp Fab ou Zenfone 2 Laser.

Numa altura em que o mercado dos smartphones está cheio de alternativas válidas, a BQ precisa de começar a pensar mais em cativar novamente os utilizadores com propostas de valor e não tanto com equipamentos para jogadas de marketing.

Rui da Rocha Ferreira

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