É tão certo como estar a ler este artigo: todos os anos, mesmo que as empresas não o declarem, Apple e Samsung concorrem pelo lugar cimeiro das vendas de smartphones. Este ano não foi excepção, mas contrariamente ao que tem vindo a ser costume, insurgiram-se vários elementos estranhos à corrida.

Lá ao longe, na China, Oppo, Huawei, Xiaomi e Vivo galoparam nas quotas de mercado e foram, ao longo do ano, açambarcando fatias cada vez maiores no segmento dos equipamentos móveis. Em julho, naquele país, que interessa muito para as contas por ter mais de mil milhões de habitantes, a tecnológica de Cupertino já só era a quinta maior marca no sector dos smartphones, um dado que dava sequência ao anúncio feito pela empresa no mês anterior: as receitas estavam a cair pela primeira vez em 15 anos.

Para a Samsung, as coisas também não correram bem. Aliás, muito pelo contrário. Embora os problemas não se tenham feito sentir ao nível da sua linha mais popular, o Note 7 foi protagonizando desastre atrás de desastre, chegando mesmo ao ponto de obrigar a fabricante a cancelar a sua produção.

Por isto, pelo Note 7 e pela quebra da Apple, a luta e os desastres das fabricantes móveis não poderiam ter outro destino se não a lista dos destaques tecnológicos do ano para o TeK (#omelhorde2016).

Mas vamos por partes.

iPhone 7, iPhone 7 Plus e a primeira quebra dos últimos 15 anos

A lógica da renovação anual mantém-se e a Apple não fugiu à tradição. A 7 de setembro, num evento que decorreu na cidade californiana de São Francisco, Tim Cook subiu a palco para apresentar o smartphone mais esperado do ano.

Da cartola saíram dois equipamentos: um iPhone 7 e um iPhone 7 Plus.

As atenções fixaram-se no segundo, graças à câmara dupla que a marca integrou no equipamento, mas ambas as versões trouxeram várias novidades. Umas melhores que outras, no entanto.

Do leque de novas características e funcionalidades, o público foi peremptório em escolher entre as "boas" e as "más". De um lado, a resistência à água e à poeira, do outro a supressão da entrada para auriculares. De um lado, as melhorias feitas às câmaras, do outro, o novo home button.

As críticas não foram consensuais, mas, se tivessem de ser sintetizadas, poderiam ser resumidas à seguinte frase: "continua a ser um dos melhores smartphones do mercado, mas não inova relativamente ao antecessor".

O descontentamento que se ia sentido, ainda que amenizado e de forma esporádica, traduziu-se em números quando os telefones chegaram às prateleiras. De acordo com a GfK, o número de iPhone 7 e 7 Plus vendidos entre 16 e 18 de setembro, representou apenas três quartos das vendas dos iPhone 6S e 6S Plus, dando seguimento a um ano em que a gigante tecnológica se apresentou "em baixo de forma".

Em Janeiro, as perspetivas da empresa já se alinhavam com uma possível quebra. Logo entre janeiro e março, a empresa registou 46,9 mil milhões de dólares em receitas face aos 51,5 mil milhões registados em período homólogo baixando, consequentemente, os lucros de 11,1 para 9 mil milhões de dólares.

Mais adiante, as coisas também não melhoraram e as quebras generalizaram-se. No terceiro trimestre do ano, as vendas do iPhone registavam quebras de 5,2% relativamente ao mesmo período de 2015, as do iPad registaram quebras de 6% e as do Mac registaram quebras na ordem dos 14%.

Não será correto dizer que a empresa sai de 2016 derrotada e importa sublinhar que não se registaram perdas, mas sim quebras nos lucros que continuaram a acontecer. Em Cupertino, ao contrário de outros pontos do globo, nada explodiu, mas o abrandamento claro na inovação está a repercutir-se nas finanças da Apple.

Samsung e um desastre chamado Note 7

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"É oficial: a Samsung pôs finalmente um fim à vida do Note 7. Num comunicado oficial emitido esta terça-feira, a tecnológica anunciou que o smartphone não ia continuar a ser produzido e apelou a todos os parceiros que parassem de vender o telefone".

Foi com este parágrafo que o TeK abriu a notícia onde dava conta do fim da produção do phablet da tecnológica. Publicada no passado dia 11 de outubro, a peça concluia assim uma série de outros artigos que davam conta dos episódios menos felizes que o Note 7 ia protagonizando e que acabaram por fazer dos seus defeitos o fenómeno tecnológico mais popular de 2016.

Antes dos primeiros incidentes, o sucesso parecia iminente. As primeiras análises eram consensualmente positivas e os lotes de equipamentos disponibilizados em pré-venda acabaram por esgotar um pouco em todo o mundo. No entanto, como todos sabemos, os defeitos de fabrico do smartphone não deixaram que as expectativas se concretizassem.

A 2 de setembro, depois de receber queixas relativas a 35 incidentes relacionados com "baterias explosivas"a Samsung interrompeu a venda e o fornecimento do Note 7. 10 dias depois, as primeiras estimativas anunciavam as primeiras quebras em bolsa onde o valor das ações da empresa chegou a cair 7,6%.

Conscientes do perigo que representavam para os utilizadores, a Samsung suplicou que os clientes entregassem os equipamentos e várias transportadoras aéreas proíbiram a presença destes telefones a bordo dos seus aviões.

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A tecnológica sul-coreana ainda anunciou o regresso dos equipamentos ao mercado, e eles chegaram efetivamente a ser recolocados nas prateleiras com a garantia de que eram finalmente seguros, mas depois dos primeiros problemas registados com esta leva de aparelhos, a Samsung deitou a toalha ao chão e suspendeu a produção do modelo dois dias antes de a cessar por completo.

Com o desastre presente, a Samsung previu perdas superiores a 2 mil milhões de dólares para o quarto trimestre do ano, mas as mais recentes análises estimam que a empresa consiga os lucros mais altos dos últimos três anos.

O cenário pessimista, aparentemente invertido para o oposto, não deixa de ser negro. E a tecnológica tem agora uma prova de fogo com o lançamento dos seus próximos equipamentos.

A ascensão das fabricantes chinesas

Enquanto uma se debatia com questões criativas e a outra com questões técnicas, as marcas chinesas foram seguindo, despreocupadas, por entre a vista dos consumidores.

Em maio passado, o TeK dava conta de um fenómeno que acabaria por consagrar-se como uma das tendências do ano: as marcas chinesas, menos conhecidas no ocidente, estavam a ganhar terreno às gigantes tecnológicas.

Na altura, tal como agora, falar de marcas emergentes era falar de empresas chinesas e se, nos primeiros três meses de 2015 existiam duas fabricantes no top 5 da Gartner, com 11% do mercado, em maio, já havia três, com uma quota de 17%. A nível mundial, Huawei, Oppo e Xiaomi eram, por esta ordem, as fabricantes que se destacavam logo atrás de Samsung e Apple.

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Mas enquanto a quota do mercado internacional ainda se distanciava consideravelmente das duas gigantes (a Huawei tinha 8,3% no primeiro trimestre de 2016 enquanto a Apple, no segundo lugar, tinha 14,8), na China, as quatro maiores quotas pertenciam, por alturas de agosto, a quatro fabricantes locais (que reuniam 53% do mercado): Huawei, Vivo, Oppo e Xiaomi. Só em quinto lugar surgia a Apple naquele que é o segundo maior mercado de smartphones a nível mundial com menos 1,2% de quota do que em maio de 2015.

Vale a pena sublinhar, no entanto, que apesar do crescente sucesso das fabricantes chinesas, as batalhas legais que a empresa tem travado nos últimos meses também ajudam a explicar os números. Entre regulamentos mais apertados para a versão chinesa da App Store, à retirada de produtos do mercado (iTunes Movies e iBooks), a Apple chegou, inclusivamente, a perder uma "guerra de patentes" contra uma pequena empresa chinesa que pretendia vender artigos de pele com nome "IPHONE" gravado.

Com a missão de inverter a situação em que mergulhou em 2016, a Apple pode, em 2017, reconquistar a sua posição num mercado onde a Samsung nem se torna preponderante. O seu maior trunfo poderá ser o equipamento de celebração do 10º aniversário do iPhone, mas atenção, porque para bater o que tem sido feito na China, terá de ser muito, mas muito especial.

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