Ao longo dos próximos dias o TeK publica um conjunto de artigos de opinião sobre o processo de análise da proposta de norma para os documentos estruturados que a Microsoft está a submeter ao organismo internacional de normalização (ISO).

Estes artigos antecedem a votação portuguesa que decorre na próxima segunda-feira, 16 de Julho e que definirá o sentido de voto português sobre a matéria. O voto de Portugal será analisado pela ISO juntamente com o de outros 103 países.

Num artigo que publicámos também esta semana pode perceber a polémica que tem envolvido o processo e os argumentos da Microsoft, que também foi convidada a participar neste espaço de opinião apesar de ter recusado, e da comunidade open source, que se opõe firmemente à normalização do standard.

Coube a Gustavo Homem, director técnico da Angulo Sólido, inaugurar ontem este espaço de opinião, que hoje prossegue com Rui Seabra, vice-presidente da Ansol.

Opinião: Porque me oponho ao OOXML?

Rui Seabra, vice-presidente da Ansol (*)

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Sendo um forte apoiante do Software Livre e dos standards abertos, opor-me
ao Office OpenXML aparenta representar uma contradição: "Mas o OOXML é aberto e baseado em XML", diz o incauto, "porque é que te opões a isso? Só porque é da Microsoft?"



Ao recorrer dos termos "Open" e "XML", a Microsoft tenta convencer que o seu
formato proprietário é um standard aberto. Reinventar os termos para resultar noutros significados ilusórios foi formalizado na obra "1984", de George Orwell, como newspeak, onde termos e registos históricos eram continuamente modificados para criar o poder de consolidar dois pensamentos contraditórios, e aceitar ambos como verdadeiros. Pense em "Office OpenXML". É standard aberto ou formato proprietário? A resposta intuitiva é "sim", mas é a resposta errada. Tal como num dos slogans d'O Partido de "1984", Ignorância é Força.



1. O OOXML depende do Windows e outras tecnologias da Microsoft para ser
correctamente interpretado. Há dúvidas? Basta olhar para a especificação, na
página 1332: "autoSpaceLikeWord95 (Emulate Word 95 Full-Width Character
Spacing)" E como é que se define isto? Na especificação não está.



2. O OOXML não distingue correctamente alguns anos bissextos, resultando em
falhas graves no cálculo de datas gregorianas (o nosso calendário actual).
Resulta em aberrações como declarar que o dia 1 de Janeiro de 1900 é um
Domingo quando deveria ser segunda-feira. Não acredite em mim, abra o Excel
e escreva a seguinte fórmula: =WEEKDAY("1/1/1900"). É simplesmente absurdo standardizar um erro. Termina aqui o problema? Não. Não especificam se usam radianos ou graus nos ângulos das funções trigonométricas e alguns erros atrozes em funções estatísticas nem leva em conta os dias de trabalho em culturas diferentes, que não são necessariamente Sábado e Domingo.



3. Uma fortíssima recomendação das definições de standards é a reutilização de standards existentes. Por exemplo, existindo um standard compreensivo para fórmulas matemáticas, o MathML, é negligente definir um novo conjunto de regras. O que faz o OOXML? Define um novo conjunto de regras acrescentando centenas de páginas à especificação, duplicando ainda mais os esforços de implementação. Não é o único exemplo. Mas já basta.



4. O OOXML vem duplicar os esforços de standardização de um formato de
documentos. Esta duplicação é negativa porque funciona dentro do mesmo âmbito mas apenas uma empresa a pode implementar. Não é o mesmo que existir HTML, ODF e PDF. São formatos orientados a mídias diferentes. Se o HTML e o PDF não fossem standards, não seriam tão difundidos como o são hoje em dia. Se existissem standards implementáveis apenas pela empresa com monopólio do mercado de desktops, então os restantes fornecedores ver-se-iam obrigados a depender da Microsoft.



5. A Microsoft alega que o OOXML é um formato retro-compatível, mas as
dependências nos seus produtos anteriores, referidas no ponto 1, impedem outros fornecedores de implementar o formato sem recorrer a mais informação
restrita, ou depender de acordos legais ou pagar indemnizações.



6. A Micrososft tem um historial enorme de criar extensões proprietárias a
standards por forma a provocar um efeito de dependência dessas extensões.



De facto, a implementação do OOXML da Microsoft contém extensões proprietárias ao próprio OOXML, ou seja, não existe uma única implementação fiel do OOXML. Nem na Microsoft.



7. O OOXML é abrangido por patentes de software não identificadas da
Microsoft, que não as liberta de uma forma royalty-free, factor indispensável
para um standard. A Comissão Técnica portuguesa não fez nenhum estudo legal que garanta que um fornecedor não vai estar sujeito a sofrer litigação da parte da Microsoft, tornando o risco demasiado elevado para valer a pena. É mais fácil aceitá-lo em duas horas definindo o consenso nacional a favor do
Microsoft OOXML.



Assim, convictamente, oponho-me ao OOXML porque não passa da definição de um formato proprietário em busca de uma benção da ISO/IEC. Apelo para que assine a petição contra o OOXML: http://www.petitiononline.com/OOXMLPT/petition.html



(*)
A Ansol é a Associação Portuguesa para o Software Livre


Veja também:


Opinião: Microsoft 1 - Interesse Nacional 0, por Gustavo Homem, director técnico da Angulo Sólido

Artigo do TeK sobre o tema:
2007-07-11 - Portugal vota segunda-feira norma proposta pela Microsoft para documentos Office

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