Muitos analistas já apostavam que este seria o desfecho mais provável para a parceria que as tecnológicas firmaram em fevereiro de 2011 e outros questionaram inclusive porque é que a Microsoft não avançou logo para a compra da divisão de dispositivos da Nokia.

Ainda falta a aprovação dos acionistas da tecnológica finlandesa e das entidades reguladoras da concorrência, mas já pode ser considerado um dos negócios do ano. Mas será esta uma aquisição desvalorizada?

Existem dois factos que ajudam a alimentar esta dúvida relativamente aos 5,44 mil milhões de euros pagos pela Microsoft pela divisão de Dispositivos e Serviços da gigante nórdica.

Facto 1: A Nokia é uma máquina de fazer dinheiro.. e de gastar também

Nos resultados do último trimestre fiscal, que compreende os meses de abril, maio e junho, a Nokia como empresa gerou receitas de 5,69 mil milhões de euros. Deste valor, 2,72 mil milhões tiveram origem na divisão de Dispositivos e Serviços.

No primeiro trimestre do ano a mesma divisão foi capaz de gerar cerca de 2,8 mil milhões em receitas. Quer isto dizer que em meio ano a parte da Nokia que a Microsoft comprou gerou mais receitas que o valor que foi pago na totalidade do negócio.

Os 5,44 mil milhões que vão ser pagos pela Microsoft dividem-se em 3,79 mil milhões de euros pela divisão de Dispositivos e Serviços, mais 1,65 mil milhões pelo licenciamento de todas as patentes da Nokia durante dez anos, com opção de extensão perpétua. O valor do negócio não parece estar ajustado à realidade das empresas.

Os vários milhares de milhões de euros que a divisão de Dispositivos e Serviços da Nokia gera todos os trimestres, têm diminuído de ano para ano e não geram lucro. No último trimestre até apresentou um prejuízo de 33 milhões de euros. Ou seja, a Microsoft vai ter muitos anos pela frente - ou vai ter que operar uma reviravolta na estratégia da divisão - que façam "pagar" a compra o mais rápido possível.

No comunicado onde se confirma o negócio, a Microsoft diz inclusive que as fábricas e cerca de 32 mil trabalhadores que vai absorver, como parte da aquisição, foram responsáveis por receitas de 14,9 mil milhões de euros durante todo o ano de 2012.

Na bolsa de valores a Nokia tem um valor de capitalização avaliado em 14,61 mil milhões de euros. Mais uma vez o valor desembolsado pela Microsoft de Steve Ballmer parece curto.

[caption]Nokia Microsoft[/caption]

Facto 2: Ou os rivais esbanjam dinheiro ou a Microsoft é forreta

Outro factor que aponta para a ideia de desvalorização deste negócio é o comparativo Google-Motorola. A gigante dos motores de busca pagou 12,5 mil milhões de dólares, cerca de 9,49 mil milhões de euros, pela fabricante de telemóveis norte-americana.

A Nokia tem a vantagem de ter sido durante largos anos a maior fabricante e vendedora de telemóveis em todo o mundo, posição que a Motorola nunca ocupou na última década.

Olhando para o número de patentes, a Google comprou em definitivo cerca de 17 mil patentes da Motorola, enquanto a Nokia está a licenciar mais do dobro, cerca de 30 mil já registadas.

Outros negócios realizados por tecnológicas também desvalorizam a compra da Microsoft à Nokia. Olhando outra vez para a Google, a empresa de Mountain View pagou perto de mil milhões de dólares pela Waze - uma empresa cujo valor não se questiona, mas que não terá certamente a influência e o peso do nome da fabricante finlandesa de telemóveis. O Facebook investou o mesmo valor no Instagram por exemplo.

A própria Microsoft pagou 8,5 mil milhões de dólares, perto de 6,45 mil milhões de euros, pelo Skype. O Skype é dos serviços de VOiP, videochamadas e de mensagens mais usado em todo o mundo, mas valerá mais que a segunda maior fabricante e vendedora de telemóveis?

[caption]Nokia Microsoft[/caption]

Facto extra: Os números não são cegos

Apesar dos argumentos apresentados e dos valores expostos, existem outras ideias que devem ser retidas.

Existem previsões de que os custos de integração entre as duas empresas podem resultar numa fatura de despesas de 600 milhões - o que não sendo um valor que entra na carteira da Nokia, sai da carteira da Microsoft. E um negócio faz-se tendo em conta quem recebe e quem paga.

Por outro lado, um documento da Microsoft citado pelo Cnet revela que até agora a tecnológica lucrava menos de dez dólares por cada Windows Phone vendido, valor que pode aumentar para 40 dólares caso o negócio se concretize.

Olhar para as compras dos outros também tem os seus "quês" já que o poder de compra das empresas diverge entre si. E o valor do Skype pode de facto ser maior do que o da Nokia neste momento. Todo o ecossistema Windows e serviços Microsoft estão a receber integração do serviço de VOiP.

No fim fica a sensação de que realmente a Microsoft fez um bom negócio - comprou um ativo por um preço mais baixo do que realmente pode valer.


Escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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