O responsável da associação dedicada à inovação admitiu na conversa que o desempenho português em matéria de inovação, quase sempre caracterizado por baixos níveis de eficiência e produtividade são a principal frente de combate da COTEC.



Também explicou a ligação da COTEC às congéneres europeias e como vê o novo programa quadro europeu de investigação e desenvolvimento, que ao longo dos próximos anos direcionará os fundos europeus dedicados à I&D.



Daniel Bessa resumiu ainda aquelas que, na sua perspetiva, são medidas essenciais para promover a inovação no tecido empresarial português e antecipou linhas de ação da associação para os próximos anos.



A COTEC foi fundada em outubro de 2003.

[caption]Daniel Bessa[/caption]

TeK: Nestes dez anos de COTEC e tendo em conta as muitas áreas nas quais a associação se tem envolvido, quais têm sido os maiores desafios para a associação?
Daniel Bessa:
Portugal apresenta, em matéria de inovação, um desempenho que se caracteriza, quase sempre, por baixos níveis de produtividade e de eficiência. É o caso do Innovation Union Scoreboard, editado sob a égide da Comissão Europeia, em que um resultado global "no meio da tabela" (somos considerados "um inovador moderado") é conseguido à custa de desempenhos mais favoráveis em matérias como condições e recursos que dedicamos à inovação, do que nos resultados económicos que conseguimos retirar do nosso esforço de inovação (exportações de produtos de alta e média tecnologia ou de serviços intensivos em conhecimento; empregos criados nesses sectores de actividade; remuneração desses empregos, etc.). Estes baixos níveis de eficiência e de produtividade do sistema no seu conjunto refletem-se em muito do que a COTEC faz, constituindo a nossa principal preocupação, e a nossa principal "frente de combate", por exemplo, no COHiTEC, um programa de fomento da aplicação comercial das tecnologias desenvolvidas nas nossas Universidades, procurando criar empresas high-tech e high-growth para explorar comercialmente essas tecnologias.
Ao fim de dez anos, de muitas centenas de investigadores envolvidos no programa e de mais de uma centena de tecnologias avaliadas, temos, em resultado deste processo, três empresas já em fase de produção e comercialização dos seus produtos, a que acrescem quatro empresas já numa segunda ronda de financiamento (depois de provas de conceito bem sucedidas) e duas empresas já constituídas, mas ainda em fase de prova de conceito. Temos de concordar que não é muito. Alguns, menos bem-intencionados, já quiseram ver nisto o resultado de um mau trabalho efetuado pela COTEC; enganam-se, pois o problema decorre do sistema no seu conjunto, afetando negativamente tanto o desempenho da COTEC (no seu propósito de criar empresas high-tech e high-growth) como o desempenho de todos os restantes operadores do sistema (por exemplo, dos business angels, em geral).



TeK: A ligação a outras COTEC a nível internacional foi desde o início apresentada como uma prioridade da associação. Tem sido importante no percurso desta primeira década? Em que áreas se materializa de forma mais relevante essa colaboração?
Daniel Bessa:
A COTEC Portugal foi a terceira a surgir, em 2003, seguindo a iniciativa pioneira da COTEC Espanha, cerca de dez anos antes, entretanto "copiada" pela COTEC Itália. A forma principal de cooperação consiste na realização de um Encontro anual, sempre com a presença dos Chefes de Estado dos três países, em que se tem procurado sensibilizar as classes empresariais de Espanha, Itália e Portugal para temas novos no âmbito da política europeia de inovação, e incentivando as empresas dos três países a não desperdiçarem as oportunidades de financiamento que surgem nesse contexto. Este trabalho tem sido feito em regime de grande proximidade com a Comissão Europeia, nomeadamente com as Direções-Gerais que se ocupam dos temas da Investigação e da Empresa. Estamos a tentar que ganhe maior "tração", através de um maior envolvimento dos poderes executivos (leia-se Governos) dos três países.



TeK: A Europa vai ter um novo programa de apoio à I&D que introduz alterações face ao anterior programa quadro. Como vê este novo instrumento de financiamento, no que se refere às áreas prioritárias e à forma como chegará ao terreno? Há quem diga que deveriam existir mais mudanças e novos mecanismos para criar garantias de que o investimento realizado contribuirá de facto para servir os interesses estratégicos da Europa. Concorda?
Daniel Bessa:
A questão não reside tanto na adequação do Programa Quadro de I&D aos "interesses estratégicos da Europa" (o que quer que isto queira dizer) mas em eventuais faltas de sintonia entre estes "interesses estratégicos da Europa" e os interesses estratégicos de cada um dos seus vinte e sete Estados-Membros. Este tema é particularmente importante para um país como Portugal, com uma economia relativamente pouco sofisticada, onde predominam setores de atividade, e empresas, muito afastadas dos grandes temas da "agenda estratégica" da União no seu conjunto. Devo realçar, em qualquer caso, o esforço que tem sido feito, a nível da UE, para aumentar a participação de pequenas e médias empresas no Programa Quadro, assegurando-lhes, inclusive, quotas mínimas de financiamento. Devo realçar, também, o estímulo que o mesmo representa para um "upgrade" das agendas e das práticas de investigação e desenvolvimento de muitas empresas portuguesas, sobretudo PME, e para a sua aproximação aos grandes centros de I&D europeus, com consequentes ganhos de experiência e de aprendizagem. E também é verdade que uma melhor adequação às necessidades concretas da economia portuguesa, e das empresas portuguesas, pode ser conseguida pela política interna, seja da financiada por fundos nacionais seja da financiada por fundos europeus (Quadros Comunitários de Apoio a Portugal). Penso, aliás, que haveria toda a vantagem em definir a política interna de investigação e desenvolvimento em termos complementares aos da política europeia, focando-a em áreas de que temos necessidade e que a política europeia cobre menos bem, e preparando as empresas e os institutos de I&D portugueses para acederem, com maior sucesso, aos concursos europeus.



TeK: Olhando mais para a realidade portuguesa… se é verdade que temos hoje mais empresas preparadas para competir num mercado internacional e um número maior e mais exaustivo de ferramentas para promover a inovação, também temos empresas cada vez mais pressionadas para reduzir custos. Sobra capacidade para inovar e "coragem" para apostar em estratégias de médio longo prazo que privilegiem essa prioridade?

Daniel Bessa:
Num "innovation survey" conduzido recentemente pela PricewaterhouseCoopers, a nível mundial, as empresas portuguesas distinguem-se precisamente por um foco exacerbado na problemática dos custos de produção e da redução destes custos, enquanto, a nível mundial, na generalidade dos países, as empresas se encontram predominantemente concentradas na problemática do crescimento, sobretudo através da criação de novos produtos, bens ou serviços. Trata-se de uma realidade a que não vejo como escapar, ditada pelas dificuldades que as empresas portuguesas têm vindo a atravessar, nomeadamente na frente financeira (uma deterioração drástica, e dramática, das condições de financiamento, agravada pelos baixos níveis de capitais próprios da generalidade das empresas portuguesas). Sendo as coisas o que são, não vejo condições para, a curto prazo, alterar significativamente esta "agenda de inovação" das empresas portuguesas - restando esperar que consigam realizá-la com sucesso, antes de, em condições mais favoráveis, poderem focar-se em maior medida no crescimento.



TeK: Aos apoios públicos à inovação disponíveis neste momento - e à forma como são disponibilizados - acrescentaria ou mudava algo que considere absolutamente crítico para dinamizar o tecido empresarial português?
Daniel Bessa:
Considero indispensável a manutenção do SIFIDE, focando-o, se possível, ainda mais no apoio à inovação por parte das PME. Intensificaria os sistemas de incentivo à contratação de mestres e de doutorados por parte das empresas, estimulando a mobilidade de investigadores que hoje se encontram no sistema público de investigação e desenvolvimento, e que este tem crescente dificuldade em manter. Intensificaria o peso da "procura" nos programas de financiamento da I&D, pondo o dinheiro mais do lado das empresas (para contratarem a I&D de que necessitam), e menos do lado dos centros de investigação (para levarem a cabo a I&D que entendem necessária). Mesmo no caso de financiamento direto aos centros de I&D, daria prioridade acrescida a investigação e desenvolvimento feita em regime de consórcio com as empresas potenciais utilizadoras. Promoveria uma atividade de promoção externa dos produtos em que se consubstanciam os resultados da I&D portuguesa, em busca de clientes de referência para esses produtos e de potenciais investidores nas empresas que os detêm. Aguardo com expectativa, em todos estes domínios, os resultados das alterações que poderão vir a ser introduzidas no funcionamento da FCT - Fundação para a Ciência e a Tecnologia e, sobretudo, da AdI - Agência de Inovação.



TeK: As universidades são uma das áreas de "intervenção" da COTEC, que aí tem procurado dinamizar parcerias e destacar boas práticas. É um domínio onde, como tem referido, muito mudou mas muito ainda há para mudar. Alguns investigadores acusam as universidades de impor modelos altamente penalizadores para suportar inventos registados pelos colaboradores, o que funciona como desincentivo. A indústria diz que a colaboração é difícil. É por estas vias que têm de se operar as mudanças que ainda têm de acontecer?

Daniel Bessa: A transferência de conhecimento entre as Universidades e as empresas, a que se atribui cada vez maior importância, tem sido frequentemente descrita como algo que se realiza num "vale da morte" - procurando simbolizar a distância que separa os dois mundos, e os riscos em que se incorre em tal atividade. Nos casos concretos de Portugal, e da COTEC Portugal, que conheço melhor, penso que se pode descrever a evolução dos últimos anos (muitos anos, talvez mais de quarenta), como um conjunto de passos que têm vindo a ser dados para tornar este "vale" mais estreito, e menos arriscado - sendo certo que, de cada vez que damos um passo, e julgamos o problema mais perto de se encontrar resolvido, deparamos com novos fatores de dificuldade (anteriormente obscurecidos por fatores de dificuldade porventura mais óbvios e, por isso, entretanto endereçados). Em matéria de patentes, receio sobretudo a falta de escala, com consequente falta de especialização, do sistema de proteção português no seu conjunto - com consequente risco de patentes menos eficazes. Sou menos sensível aos argumentos que valorizam o custo das patentes e a distribuição destes custos, com eventual penalização dos investigadores - na certeza de que o sistema será sempre caro, e aparentemente injusto, enquanto não produzir os resultados económicos que justifiquem esses custos e os tornem em investimento (como ouvi, um dia, ao engenheiro Belmiro de Azevedo, enquanto não houver cash in, só haverá cash out - e este parecerá sempre excessivo, e injusto). Estamos, agora (nós, na COTEC Portugal), muito empenhados em criar, em torno deste "terceiro pilar" da atividade universitária (tanto das Universidades como dos Institutos Politécnicos), relativo à transferência de tecnologia e à valorização do conhecimento, um sistema de informação que nos permita "saber como estamos" em matéria de custos, de proveitos, de eficiência e de rentabilidade de todo o sistema - sem o que viveremos sempre num mundo "fabuloso", em que não conseguimos identificar nem o problema nem, muito menos, as soluções, num mundo em que toda a gente apresenta muitas "realizações", que ninguém consegue ver.

Escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

Cristina A. Ferreira

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