A FCCN tem feito um trabalho importante na sensibilização das empresas portuguesas para a adopção do IPv6 e ontem realizou mais um seminário em Lisboa, a que se seguirá um outro no Porto, a realizar na próxima semana, dia 26 de Maio.

Em entrevista ao TeK João Nuno Ferreira, Director Técnico da Fundação para a Computação Científica Nacional, faz o ponto de situação da adopção do IPv6 em Portugal e explica os custos que as empresas terão com a implementação do novo protocolo.

TeK: Qual a situação actual de implementação do IPv6 em Portugal?
João Nuno Ferreira:
Há várias respostas a esta pergunta, sendo preciso juntá-las para se ficar com imagem mais precisa da realidade. Ao nível dos pedidos de blocos de endereços IPv6 por parte dos ISP que operam no nosso país, há até uma situação de liderança. Mas esses endereços não correspondem a uma utilização efectiva e menos ainda a serviços para os utilizadores finais. Ou seja, os ISP com serviços empresariais IPv6 são ainda uma escassa minoria, mas já existem. E o facto de existirem é extremamente importante. Nos serviços domiciliários, ainda não há ofertas comerciais conhecidas. Mas há planos de implementação em curso que deverão naturalmente dar os seus frutos. Em resumo, há IPv6 em Portugal, ainda em pequena escala, mas com claros indicadores no sentido do seu crescimento.

[caption]João Nuno Ferreira[/caption]

TeK: Como se compara com outros países do mundo e especialmente da Europa?
J.N.F. :
Portugal compara bem com a Europa, estando até à frente em alguns parâmetros tal com já referido, das atribuições de blocos de endereços IPv6.


TeK: Qual é a principal barreira à implementação rápida do IPv6 em Portugal?

J.N.F.:
A principal barreira é o custo que ainda existe na compatibilização das redes dos ISP, que são hoje bastante complexas, baseando-se em dezenas de tecnologias e equipamentos diferentes. Esta compatibilização obriga a um esforço de planeamento e teste bastante cuidado.

TeK: As aplicações e os sistemas operativos mais utilizados já estão preparados para a nova realidade do IPv6?
J.N.F. :
Sim. A Microsoft já suporta IPv6 desde o Windows XP, passando pelo Vista e agora no 7. Nos sistemas Linux o suporte é ainda mais antigo. Nas aplicações de redes, tal como o email, Web, DNS, etc o suporte já existe, sobretudo nas de Open Source.

TeK: Quais as mudanças que as empresas têm de fazer nas infra-estruturas de rede para implementar o IPv6?
J.N.F.:
A resposta a esta pergunta tem muitas páginas! Mas podemos tentar resumir dizendo que, as empresas devem considerar dois tipos de alteração nas suas infra-estruturas de rede para implementar o IPv6:
1: Compatibilização das comunicações com o exterior da empresa (site Web, envio e recepção de email, serviços on-line, etc)
2: Compatibilização das comunicações internas (back-office, mailbox, servidores de ficheiros, etc.)

TeK: Numa PME quanto pode custar essa mudança?

J.N.F:
Se for uma PME em que as comunicações não sejam o seu negócio e que use a Internet para se dar a conhecer ao mundo e para trocar emails e ficheiros, o custo poderá ser muito baixo. Geralmente estas empresas compram estes serviços a empresas especializadas e bastará contratarem a empresas que tenham já esses serviços compatibilizados com IPv6. Creio que neste caso os custos adicionais deverão ser muito baixos ou mesmo nulos. Nos casos em que o negócio é suportado na Internet, vai depender de cada caso, pois cada aplicação pode impor requisitos específicos.

TeK: As empresas devem estar preocupadas com a necessidade de mudarem para o IPv6 e pressionarem os seus fornecedores de serviços nesse sentido?
J.N.F.:
Não devemos falar em “mudar para IPv6” mas antes “compatibilizar com IPv6”, porque o IPv4 ainda irá ser usado por vários anos. Creio que as empresas não devem estar preocupadas, mas antes bem conscientes da necessidade de analisar em que medida as suas actividades poderão ser afectadas por não estarem compatibilizadas. Nas empresas de comunicações, de software e de hardware, essa necessidade é mais relevante.

TeK: A quem podem recorrer as empresas para solicitar ajuda para implementar o iPv6? Devem ser os ISPs a fazer esse apoio?
J.N.F:
Podem recorrer ao ISP, a consultoras, mas também aos recursos que já estão disponibilizados na Internet e sobretudo dos apoios que projectos como o 6DEPLOY podem facultar.

TeK: Alguns especialistas deixaram no ar a possibilidade de surgirem novas questões de segurança relacionadas com o IPv6. Há mais riscos com o novo protocolo ou simplesmente novos riscos que ainda não estão previstos?

J.N.F.:
Sendo um protocolo com menos conhecimento acumulado, é expectável que surjam situações imprevistas. Mas nada indica que o IPv6 seja mais vulnerável do que qualquer outro protocolo. Pelo contrário, a tecnologia IPSec, que garante uma maior segurança das comunicações, foi desenvolvida para o IPv6. O seu rápido sucesso levou a que fosse migrada retroactivamente para IPv4, sendo hoje usada mundialmente.

TeK : Acredita que em termos de preparação técnica/formação, as empresas e as Universidades estão já a dar atenção ao IPv6, formando técnicos que estão preparados para a nova realidade?
J.N.F.:
Em relação às universidades, creio que temos uma situação globalmente boa. O maior contacto com o open source garante o acesso a soluções de IPv6 para praticamente todas as aplicações universais. Nas empresas de comunicações, existe um bom nível de consciencialização sobre a relevância do IPv6, embora depois os graus de implementação variem muito. Nas empresas que não são de comunicação há um maior atraso, mas também há excepções a esta regra.

Fátima Caçador

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