Na era digital, o conceito do aperfeiçoamento humano ganha uma nova dimensão e à medida que as fronteiras entre Homem e máquina se esbatem, assistimos a uma vasta gama de aplicações destas tecnologias em áreas desde a saúde ao desporto, passando ainda pela educação ou pela indústria.

Recentemente, um estudo da Kaspersky, onde foram inquiridas 14.500 pessoas em 16 países, revelou que há entusiamo generalizado pelas tecnologias de aperfeiçoamento humano e por todo o potencial que podem trazer a nível da melhoria da qualidade de vida. Por exemplo, 75% dos portugueses questionados afirmam que recorreriam à tecnologia para melhorar as suas capacidades físicas e cognitivas.

No entanto, para lá de todas as “portas” que o aperfeiçoamento humano poderá abrir, surgem também múltiplas questões. Além dos riscos associados à segurança e privacidade, como a possibilidade de certas tecnologias serem hackeadas por cibercriminosos, onde se traçam os limites éticos da utilização deste tipo de tecnologias?

Em entrevista ao SAPO TEK, Julian Savalescu, Professor da Universidade de Oxford e Catedrático em Ética Prática no Uehiro Centre for Practical Ethics, explicou que o limite se relaciona com o uso de tecnologias que causem danos diretos a outras pessoas.

As fronteiras entre Homem e máquina estão a esbater-se e há riscos que precisam de ser compreendidos
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Mas nem tudo é assim tão fácil quanto parece, pois, afinal, as pessoas podem causar danos de forma indireta, sendo por exemplo mais egoístas ou menos dispostas a colaborar com outras para o bem de todos.

Para Julian Savalescu, um dos grandes desafios é mesmo “equilibrar interesse próprio e moralidade” e não há uma “receita” simples para resolver este dilema. “Tornar-me mais competitivo pode ser vantajoso para mim, mas pode colocar outras pessoas em desvantagem. Será necessário discutir quanta liberdade é que cada um de nós deve ter e de que forma é que poderemos dar prioridade ao nosso bem-estar em relação aos outros”.

Um cenário ainda longe do ideal

De acordo com o especialista, as forças dos mercados serão um dos grandes impulsionadores do desenvolvimento das tecnologias de aperfeiçoamento humano, mas o cenário não é de todo o ideal.

“O mercado tem apenas um interesse em gerar lucros e, por isso, não está vocacionado propriamente para o bem. Um dos grandes problemas é que existe uma grande disparidade de poder entre as empresas multinacionais e as pessoas”. elucidou o Julian Savalescu.

As organizações são capazes de se aproveitar das fraquezas e vulnerabilidades das pessoas e iludi-las. “O perigo aqui é que as tecnologias desenvolvidas poderão ser usadas, por exemplo, para criar vícios, não trazendo qualquer tipo de valor a quem as usa”.

Segundo Julian Savalescu, num cenário ideal, “o mundo seria capaz de progredir em conjunto”, mas a realidade funciona de forma diferente. “É verdade que devemos trabalhar tendo em vista uma maior coordenação entre nações”, mas “temos de respeitar as fronteiras nacionais e permitir que os países desenvolvam as suas próprias regras” tendo em vista o benefício da sociedade em geral, defendeu o especialista.

Uma das grandes questões levantadas pelo desenvolvimento do aperfeiçoamento humano prende-se com o fosso entre pessoas no acesso à tecnologia. “A desigualdade é uma condição da realidade humana e cabe-nos corrigir essa situação”.

É certo que numa fase inicial, o acesso será limitado, pois não é possível uma distribuição imediata, mas Salavescu acredita que todas as preocupações que existem neste âmbito são um motivo para “encontrar formas de distribuir a tecnologia pelas pessoas que mais necessitam”.

“Acredito que o aperfeiçoamento humano é uma parte fundamental da Humanidade. Precisamos que a ética guie todas as experiências e todo o progresso que fazemos”, sublinha o especialista. “Aqui surgem muitas questões existenciais e temos mesmo que fazer uma escolha, sempre guiados pelo princípio fundamental de que se algo é bom, mais disso será melhor”.

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