http://imgs.sapo.pt/gfx/91550.gif A estratégia definida para a promoção do comércio electrónico em Portugal e que será liderada pela Comissão Especializada Business to Consumer, criada na passada semana pela Associação de Comércio Electrónico em Portugal, foi tema de uma entrevista a Alexandre Nilo Fonseca. Este responsável pela nova Comissão explicou os vários passos a dar "pequenos mas firmes" na direcção de uma maior confiança do cibernauta português.




Para além de reforçar as ideias anteriormente divulgadas na conferência de apresentação da Comissão onde sublinhou a necessidade de empresas concorrenciais trabalharem em conjunto, Alexandre Nilo Fonseca, afirma aqui que o número de empresas na área do comércio eletrónico vai certamente crescer, mas que vamos continuar a assistir ao encerramento de alguns projectos existentes.



TeK: Na sua qualidade de Presidente da Comissão Especializada Business to Consumer quais considera serem as principais razões para uma tão fraca adesão ao shopping online em Portugal?

Alexandre Nilo Fonseca:
Segundo o mais recente estudo da Unicre/Vector 21 sobre "Os portugueses e as compras na Internet", dos actuais utilizadores de Internet cerca de 14,7 por cento dizem fazer compras na Internet. Em 1999, este valor situava-se nos 10 por cento e perspectiva-se que em 2002 este possa crescer para 30 por cento. Ou seja, há aqui um claro indicador de crescimento sustentado. Mais importante ainda é o facto de que mais de 90% dos actuais compradores afirmar que pretende continuar a comprar online.

O que significa que quem compra está satisfeito e pretende continuar a fazê-lo. Outro aspecto muito importante, e que é um sinal claro do sucesso das lojas online portuguesas, é o facto de que pela primeira vez, a percentagem de compras efectuadas em Portugal, ultrapassa as realizadas em lojas estrangeiras, e que aumentou significativamente o número de compradores que afirma comprar tudo em lojas portuguesas. Estes são claramente indicadores muito positivos em relação ao comércio online português.

No entanto, ainda há muito para fazer e como prova disso somente 22 por cento dos actuais não-compradores manifestam interesse em vir a comprar online nos próximos 12 meses, e isso sim constitui um problema. Quando questionado, o consumidor tende a reduzir esta questão à percepção de insegurança que tem sido criada acerca das compras online. Creio que, na realidade, o principal factor inibidor é a falta de confiança do consumidor em todo o processo de compra online em geral.

A comissão é composta por várias empresas – Grupo CGD, Grupo BES, Clix, Continente Online, Exit, GiganetStore, GlobalShop, SIC Online, IOL, Pingo Doce, Sapo, Shopping Direct, TV Cabo Interactiva, Vizzavi e Unicre – a maior parte delas concorrentes entre si e que num saudável espírito de coopetição (cooperação + competição) entenderam que juntas poderiam fazer mais pelo mercado online do que individualmente.

O segundo passo será mais estruturante e pretende ajudar a construir a relação de confiança que o consumidor precisa, e que passa pela criação, durante o primeiro trimestre de 2002, de um programa de boas práticas para o comércio electrónico português, e que visa transmitir aos consumidores que primeiro é seguro fazer compras através da Internet, ou em plataformas de tcommece e mcommerce, segundo que é dedicado especial cuidado às condições de venda, de segurança e de privacidade e, terceiro que os associados estão comprometidos com as regras que vierem a ser definidas. Esperamos que para além das empresas que temos hoje associadas, venhamos a ter muitas mais e que possamos todos juntos contribuir para o desenvolvimento do comércio online em Portugal.



TeK: Considera o número e a oferta das lojas virtuais portuguesas suficiente?

ANF:
Este mercado ainda é muito jovem. Estou convencido que ainda iremos assistir ao nascimento de muitas novas empresas com excelentes projectos, pois ainda há muito por fazer. A tecnologia vai continuar a evoluir, permitindo uma inovação constante, conduzindo ao aparecimento de novos produtos, novos serviços, novos conceitos e novos modelos de negócio. Mas, não nos enganemos: simultaneamente vamos continuar a assistir ao encerramento de projectos existentes.



TeK: Acha que as empresas portuguesas têm infraestruturas físicas e digitais para dinamizar, efectivamente, o comércio electrónico nacional, e ir de encontro às expectativas criadas?

ANF:
Os números parecem querer apontar nesse sentido. Quando mais de 60 por cento das compras online já são realizadas em lojas portuguesas e quando 43 por cento dos compradores diz que compra, exclusivamente, em lojas portuguesas (eram somente 17 por cento em 1999) é um sintoma de que a oferta electrónica portuguesa está a saber conquistar o mercado nacional. No entanto, é preciso ter em consideração que este mercado ainda não está massificado e só nessa altura é que as infraestruturas físicas e digitais serão, verdadeiramente, testadas.



TeK: Durante o seu discurso na conferência de apresentação da Comissão à qual preside, realizada no dia 20 de Novembro, referiu que a TV interactiva e os telemóveis 3G, para além da Internet, serão excelentes meios de promoção do shopping online e que novas empresas irão surgir. Não teme que o aparecimento de muitas empresas, algumas das quais sem a qualidade de serviços exigida, venha a prejudicar a imagem que estão a tentar criar do comércio eletrónico?

ANF:
O que é importante é que todas as empresas que estão a actuar neste mercado – sejam os lojista, os fornecedores de conteúdos, ou os fornecedores de soluções – entendam que têm que pensar que num futuro a breve prazo vão ter que chegar ao consumidor através de vários front-ends altamente diferenciados sejam estes o computador, a televisão, o telemóvel ou até através de outros tipos de dispositivos (electrodomésticos e electrónicos), mas que é imperativo que os back-offices que alimentarem todos estes sistemas deverão ser os mesmos, ou pelo menos estarem totalmente integrados.

Somente as empresas que entenderem isto é que terão uma verdadeira vantagem competitiva, e poderão no futuro construir um sistema eficaz de gestão de relacionamento com o cliente, que permita analisar e antecipar as necessidades do cliente. É portanto extremamente importante que em todo o espectro desta cadeia de valor venham a surgir empresas especializadas nas várias áreas de actuação.



TeK: Acha que o comércio electrónico poderá conviver com a sua forma tradicional, ou esta será ultrapassada?

ANF:
Acredito que quem ditará os destinos destes canais será o consumidor. Hoje observamos que o consumidor é cada vez mais exigente e quer ter ao seu dispor o maior número possível de canais de escolha e de acesso aos produtos e serviços que pretende. Em muitos casos, o consumidor irá preferir as empresas que lhe proporcionem o maior número de pontos de contacto possíveis, seja através do comércio tradicional seja através do comércio electrónico. No entanto, é natural que determinado tipo de negócios continuem a ser feitos, primordialmente, através do comércio tradicional, assim como haverá serviços que só poderão ser prestados através de canais online. Daí que estou convicto que os dois canais vão conviver de uma forma complementar.



Natércia Pereira da Silva

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