Luis Murguia, vice-presidente da área de PMEs da SAP EMEA (Europa, Médio Oriente e África) falou com o TeK. Na conversa, o gestor explicou a estratégia da SAP para os próximos anos e assumiu a importância para a empresa de um novo modelo de negócios, suportado na entrega de serviços.



A SAP realizou na semana passada o seu maior evento anual de parceiros, o SAPphire, que decorreu em duas localizações, Frankfurt e Orlando, respectivamente na Alemanha e nos Estados Unidos.



A visão que a empresa partilhou com parceiros e a estratégia por trás dos produtos lançados foi também tema da entrevista, bem como a compra em marcha da Sybase e a importância da operação para a estratégia da empresa




TeK: A SAP anunciou recentemente a compra da Sybase por 4,6 mil milhões de euros. O representa este investimento na estratégia da empresa?

Luis Murguia:
Para compreender o negócio é importante entender a divisão que a SAP está a fazer em termos da estratégia de produtos e soluções para os nossos clientes. Historicamente fomos muito fortes nas instalações, o que em inglês designamos por On Premise. Hoje juntamos dois novos pilares ao negócio. Um deles é o On Demand. Significa que o cliente hoje pode, não só instalar os sistemas na sua empresa, mas também optar por ter esses sistemas residentes na SAP ou nos seus parceiros e ter acesso e pagar por mês e não pela compra inicial. O terceiro pilar designamos por On Device. Para a explicar posso dizer-lhe que está a acontecer uma revolução no mundo. Hoje, por cada computador comercializado são vendidos 5 telefones celulares. Isto significa que a plataforma digital da humanidade é o telefone celular. Não é mais o desktop ou outro dispositivo.
O nosso iPhone, iPod, Blackberry ou iPad tem também um conjunto de outras aplicações, como acontece com a Wii, PlayStation ou a própria televisão e todas são plataformas, nas quais o ser humano começa a interagir com o mundo digital. Esta banalização do uso de plataformas digitais, em grande medida móveis, tornou muito importante para a SAP a capacidade de dar acesso às suas aplicações em todos os aparelhos nos quais o consumidor, neste caso empresarial, possa estar.



TeK: E surge nesse contexto a compra da Sybase?

Luis Murguia:
A Sybase é hoje líder em plataformas de mobilidade. Faz a gestão de 1,2 mil milhões de mensagens SMS no mundo. Tem uma plataforma de mobilidade que permite a extensão das soluções SAP rapidamente a qualquer aparelho móvel. O factor mobilidade, que vai habilitar a execução da estratégia da SAP ao nível do On Device é uma das grandes razões. Mas há um segundo aspecto também muito importante. Uma das consequências da crise de 2008/2009 é que o CEO tem hoje uma pressão muito grande ao nível dos custos para fazer com que o custo das TI na percentagem das despesas totais se reduza fortemente. Como podemos nós ajudar nisso?
Sabemos que hoje todo o banco de dados de uma grande empresa pode ser instalado dentro da memória física do servidor, o que representa uma mudança enorme e mostra que, também na área do software de gestão, os discos estão em extinção e ganham terreno as soluções que permitem multiplicar em muito a capacidade de memória disponível. A Sybase tem este tipo de tecnologia (designada frequentemente por in-memory database) e com ela permite-nos oferecer tecnologia que ajude as empresas a diminuir os investimentos nesta área.



TeK: A SAP já tinha, antes de anunciar a intenção de compra, uma parceria com a Sybase. Que resultados deu esse acordo?

Luis Murguia:
Fazendo uma analogia com as relações humanos, namorávamos e agora casámos. Já tínhamos algumas coisas em conjunto, mas agora o compromisso é sério e permanente e a tecnologia Sybase vai ser parte do sistema de gestão. Tudo o que seja mobilidade e in-memory vai ser aportado à tecnologia SAP.

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TeK: No SAPphire a empresa teve oportunidade de apresentar várias novidades na área da virtualização e do cloud computing, como o lançamento de uma nova versão da suite CRM num modelo de Software as a Service e algumas parcerias para a área de bases de dados. Pode explicar-nos um pouco a vossa visão e estratégia nesta área e a forma como levam ao terreno o pilar estratégico que designam por On Demand?

Luis Murguia:
O On Demand, como referia é precisamente um dos três pilares da nossa estratégia de produto. On Demand, Software as a Service, Cloud Computing, não interessa a designação. É um tsunami que se está a formar. Ainda não atingiu a costa e levará cerca de cinco anos para o fazer, mas já está a transformar a forma como fazemos negócio. A nível mundial estamos a adaptar-nos a essa mudança com a solução Business by Design que é uma solução ERP completa, algo que ainda ninguém tem porque criar esse tipo solução on demand, de forma escalável em volume tem desafios muito complexos. Temos trabalhado para lhes dar resposta e já estamos em condições de disponibilizar a nossa proposta de volume em França, Alemanha e Inglaterra. No próximo ano estendemos a disponibilização do Business by Design ao resto da Europa.



TeK: E em Portugal o que estão já a fazer?

Luis Murguia:
Em Portugal fizemos um acordo com a Portugal Telecom que nos faz o hosting (alojamento) da solução On Demand que estamos a oferecer a empresas médias já hoje, o Business All in One. A solução é gerida na infra-estrutura Portugal Telecom e o cliente não tem de comprar o software. Só fazer o pagamento mensal.



TeK: Essa é uma outra vertente da oferta para PMEs?

Luis Murguia:
Sim, Estamos assim a trabalhar nestas duas plataformas. O Business by Design, que é mais uma aposta de longo prazo e o Business All in One, que está disponível já hoje e que é a nossa plataforma de alta personalização. No futuro serão estas as nossas apostas estratégicas para o mercado de pequenas e médias empresas. O Business by Design na gama baixa e na gama alta o Business All-in-One. Esta segunda oferta já está disponível em Portugal a outra chegará daqui a algum tempo.



TeK: Na oferta de serviços On Demand a lógica vai manter-se a actual, de parceiros que fazem o alojamento das aplicações, mesmo com o Business by Design?

Luis Murguia:
O Business by Design será alojado pela SAP, já que é um produto com menor número de configurações. Na solução de gama alta preferimos que o suporte seja feito por parceiros locais. Desta forma também temos ganhos de escala que nos permitem manter uma oferta competitiva, que custa hoje 135 euros/mês por utilizador. É uma ordem de preço que só conseguimos fazer porque ligamos todos os clientes num mesmo centro de processamento de dados.



TeK: Uma das fatias do mercado mais atingidas pela crise serão também, na sua perspectiva, as PMEs as que mais têm a ganhar com a oferta de serviços na nuvem/on demand, pelo menos no curto prazo?

Luis Murguia:
Acredito que o tsunami quando atingir a praia atingirá todos. Mas de forma diferente. Nas PMEs vai atingir todas a infra-estrutura, desde o email até sistemas mais complexos. Vamos ter empresas com zero de TI internamente. Nas grandes empresas o ERP já existe, em alguns casos há muitos anos e por isso a mudança não se fará tanto por aí. O que vai acontecer é que as organizações vão começar a adoptar as novas soluções on demand nas interacções com o ERP. Os principais bancos de dados vão manter-se na empresa, mas tudo o que é departamental irá migrar para a nuvem.



TeK: A integração das ferramentas da Business Objects, comprada pela SAP há alguns anos atrás, tem vindo a ser feita. Quais as novidades mais recentes nesse processo?

Luis Murguia:
Temos vindo a enriquecer as nossas soluções com as ferramentas que herdámos da Business Objects de facto e esse é um trabalho que já está feito em várias áreas. No Business All-in-One várias mudanças já são visíveis, como a mudança da interface gráfica, que hoje é algo de muito semelhante ao Facebook. Integração do email, calendário, notícias de mercado, lista de clientes, tudo integrado. Também já concluímos o processo de integração na solução de dashboards, para que todos os gestores já tenham pré-configurados nos seus sistemas os principais gráficos com indicadores de gestão. Isto foi lançado no último SAPphire. Aí também anunciámos alterações que resultam da integração das ferramentas da Business Objects na oferta vocacionada para as pequenas em presas, o Business One (para empresas com menos de 100 funcionários). A versão 8.8 do produto integra uma nova funcionalidade designada Crystal Report que oferece a quem compra a solução todo o sistema de reporting da Business Objects de entrada de gama.



TeK: O esforço de convergência das diversas soluções vai continuar a ser feito?

Luis Murguia:
Essa é a tendência. Cada vez menos irá ver-se em separado o business intelligence e o ERP, ou outras ferramentas. Há um caminho de total convergência que se está a fazer. O sistema de gestão é sobre o passado. O business intelligence é sobre o futuro. Cada vez menos os gestores precisam de saber quanto tenho em stock e cada vez precisam de saber quanto vou precisar de ter em stock. Esta convergência representa isso mesmo. Um sair do passado para passar ao futuro, combinando a eficiência operacional que assegura o software de gestão, com a visão de negócio que assegura uma ferramenta de BI. Muito do que mostrámos em Frankfurt passa precisamente pelo nosso roadmap relativamente à forma como pretendemos explorar esta convergência, tirando partido das tecnologias in-memory.



TeK: Como vê Portugal no contexto da EMEA, nestes tempos de crise?

Luis Murguia:
No primeiro trimestre do ano o melhor desempenho que tivemos nas pequenas e médias empresas aconteceu nos países pequenos, onde se incluem Portugal, Espanha, Itália, Grécia e os países nórdicos. Nestes tivemos um crescimento acima dos 20 por cento. E é interessante que o maior crescimento aconteceu na angariação de novos clientes. A explicação que encontro para esta tendência verificada no mercado português e outros é que o pequeno empresário foi o primeiro a apertar o cinto, no ano passado quando surgiram sinais de crise. Agora é também o primeiro a reagir a alguns sinais positivos e a voltar a investir. O crescimento das PMEs foi 1,5 vezes maior que o crescimento do resto do negócio SAP. Acredito que muito devido ao facto do empresário da PME pensar global e conseguir ver para além da situação do seu próprio mercado, algo que acontece sobretudo nos países mais pequenos onde as empresas são mais dependentes dos mercados externos. O perfil do cliente SAP nas pequenas e médias empresas é precisamente um cliente em crescimento e que tem normalmente operações locais, por exemplo em Portugal, e noutro país.

Cristina A. Ferreira

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