http://imgs.sapo.pt/gfx/188887.gifHá cinco anos atrás Kenneth Jönsson veio estabelecer em Portugal a filial directa da Nokia, a Nokia Mobile Phones Portugal, alterando a situação que se mantinha com a representação da Ensitel. Agora está de partida para a Rússia onde vai fazer o mesmo trabalho num mercado com uma dimensão muito maior e grandes desafios.




Em jeito de balanço, numa entrevista ao TeK, Kenneth Jönsson falou sobre os desafios e as peculiaridades do mercado português, assim como da mudança de direcção da empresa em Portugal.



TeK: Inaugurou a presença directa da Nokia em Portugal em 1998, alterando uma situação em que a empresa mantinha um representante, a Ensitel. Qual o balanço que faz destes anos?

Kenneth Jönsson: É interessante verificar que estatisticamente muitas vezes a presença de uma empresa através de um representante local pode ser financeiramente mais compensador do que uma filial directa. As empresas locais conseguem de facto fazer o mesmo trabalho por menos dinheiro porque têm ligações locais, conhecem os hábitos e os procedimentos.

Porém, na altura os nossos clientes, especialmente a Vodafone, estavam a exigir a presença directa da Nokia no mercado e o impacto da abertura da filial foi muito forte. Do lado dos clientes portugueses, operadores e distribuidores sentimos uma grande aceitação e mesmo a Ensitel ficou até um pouco aliviada porque o trabalho que era exigido pelo mercado português era muito grande.

Durante estes cinco anos tivemos que enfrentar muitos desafios, nomeadamente na forma como as comunicações móveis evoluíram e um dos problemas que ultrapassamos foi no serviço de pós venda, que causou algumas dificuldades há três anos atrás. Nesta área posso agora dizer que evoluímos bastante e que estamos com óptimos resultados, embora naturalmente possamos fazer melhor.

TeK: Agora vai estabelecer a filial da Nokia na Rússia, um mercado de enorme dimensão e potencial, enquanto em Portugal a direcção vai ser assumida por Alessandro Mondini Branzi. Quais as alterações que esta mudança poderá trazer para o mercado português?
K.J:
Na Nokia mantemos uma série de procedimentos e formas de trabalhar de acordo com as regiões geográficas onde estamos presentes. Existem normas estabelecidas para as Américas, Europa e África e para a região de Ásia-Pacifico, o que quer dizer que muitos dos procedimentos se vão manter apesar da mudança de direcção, já que seguimos as normas de qualidade ISO 9000. Por isso uma só pessoa não pode alterar a forma como a Nokia trabalha em cada país. É claro que como seres humanos existem maneiras diferentes de abordar as questões e acho que a nova direcção pode trazer algumas alterações, que eu espero sejam positivas.

TeK: Quais a principais mudanças que prevê para os próximos anos?
K.J:
Acho que estão a mudar muitas coisas no mercado de comunicações móveis em todo o mundo. Os fabricantes de telemóveis precisam de assumir outro papel no desenvolvimento do mercado e acho que de facto os próximos anos serão de grandes desafios. Até há pouco tempo, porque eu acho que esta mudança já começou, o mercado era muito regulado. Os reguladores atribuíam as licenças e estabeleciam as especificações técnicas e por isso os operadores e os fabricantes tinham de seguir uma série de normas.

Mas tudo isto está a mudar porque actualmente trabalhamos sobre standards abertos. Actualmente o desenvolvimento dos equipamentos está a assumir um outro papel, ditando algumas das funcionalidades e serviços que vão estar disponíveis nos próximos tempos.

Desta forma o nosso papel em Portugal também está a mudar e temos que nos focar em trabalhar mais de perto com os operadores e pensar em conjunto sobre as tecnologias que devemos usar, qual a melhor forma de as desenvolver. Esta área não é muito comum para nós, é um papel que não estávamos habituados a assumir.
Acredito que o diálogo entre os operadores e os fabricantes tem de ser aprofundado. Temos de começar a falar mais sobre a tecnologia e a forma de estabelecer ligações com os serviços porque há muitas ideias novas, como a necessidade de integrar nas comunicações móveis os desenvolvimentos em redes Wi-Fi e a forma como podemos conjugar os telemóveis com estas redes, por exemplo. E este tipo de discussão tem de fazer-se muito mais cedo do que era habitual entre os fabricantes e os operadores.

TeK: Os próximos anos serão de grande desafio para o mercado português. Existe alguma indefinição sobre quando vão ser iniciados os serviços UMTS, se o mercado vai suportar ou não tês operadoras móveis. Qual é a sua visão da evolução em Portugal?

K.J: Sei que há muita gente que pensa que o UMTS não vai ser lançado ainda neste ano em Portugal, mas eu acredito que é obrigatório que isso aconteça. Operadores como a Vodafone e a TMN têm uma maior necessidade de competir no mercado e ainda de alargar a capacidade das suas redes. A infra-estrutura de redes não está ainda esgotada mas está a aproximar-se de um limite com o crescente número de utilizadores - e, neste ano, estimamos vender ainda 3 milhões de equipamentos.

Ora isto quer dizer que a capacidade das redes de GSM está a aproximar-se da saturação. Existe uma limitação técnica e, mesmo que os operadores queiram continuar a investir nas redes de GSM, isso não é suficiente para resolver esta questão, a não ser que consigam obter mais frequências do junto da autoridade reguladora.

TeK: Actualmente os operadores enfrentam também o desafio de tentarem aumentar a receita média por utilizador (ARPU), numa altura em que o mercado está a aproximar-se do ponto de saturação em termos de utilizadores e não pode continuar a crescer como até agora. Acha que os novos serviços baseados em tecnologia GPRS, ditos de terceira geração, podem ajudar a melhorar as receitas dos operadores?

K.J. Acho que vamos ter de encontrar uma forma de o fazer. Neste momento estamos a tentar perceber o comportamento dos consumidores portugueses em relação à adesão aos novos serviços. Um dos problemas que temos está relacionado com o facto de ainda não termos uma visão clara sobre a forma como os clientes em Portugal são afectados pelos novos serviços porque, ao contrário da maior parte dos mercados europeus, o mercado português é dominado por produtos pré-pagos, o que exige uma diferente abordagem ao mercado.

Precisamos de perceber se o cliente está disposto a pagar mais para ter um determinado serviço quando o seu orçamento mensal está limitado a 30 euros, por exemplo e essa é uma das grandes questões. O que vemos actualmente é que nos mercados onde os clientes mantêm serviços pós-pagos estão a aumentar os gastos em serviços móveis, mas não temos uma análise estatística sobre o que está a acontecer no mercado dos pré-pagos.

TeK: O último ano não mostrou um crescimento das receitas por utilizador…
K.J.:
Exactamente. Mas temos de perceber também que no ano passado não havia praticamente serviços disponíveis, eram ainda muito poucos.

Mas nós acreditamos que as pessoas estão dispostas a pagar mais por serviços personalizados e achamos que a chave do sucesso está aqui. Se um cliente encontrar num serviço algo que é mesmo importante para si como pessoa estará disposto a pagar mais para o ter, mas não está disposto a pagar por algo que não lhe interessa. Se gosto de futebol posso pagar para ver os golos, ou se gosto de cinema quero ver uma preview de 60 segundos…

Mas para além de saber se as pessoas estão dispostas a pagar, é também preciso perceber quanto estão dispostas a pagar. Até porque as margens a obter destas receitas são pequenas porque o mercado dos serviços exige uma divisão de receitas entre o operador, os fornecedores de conteúdos e os gestores dos direitos de autor.

TeK: Porém tem vindo a referir quem em Portugal os clientes estão dispostos a pagar mais para terem telemóveis com mais funcionalidades, sendo esta uma característica distintiva de outros mercados europeus. Pelo que percebi, em Portugal a Nokia vende mais telemóveis de topo de gama do que de gama baixa.

K.J.: É verdade e essa é uma questão interessante que também me leva a acreditar que as pessoas estão preparadas para pagar mais pelos serviços. Porque é que comprariam um telemóvel mais caro e com mais funcionalidades se não querem usar os serviços? A verdade é que quando compramos coisas, normalmente equipamentos mais técnicos, existe a tendência de procurar os que têm mais funcionalidades. A verdade é que acredito que as pessoas de facto querem usar os serviços e não compram esses telemóveis só por causa do status.

Fátima Caçador

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