A Fundação Linux está a assinalar este ano o vigésimo aniversário do Linux. Em 20 anos as conquistas do sistema operativo open source são muitas e estendem-se a mais áreas do que a maioria das pessoas pensa.
O TeK desafiou alguns dos intervenientes da comunidade Linux em Portugal a escreverem artigos de opinião sobre os principais marcos do sistema operativo e o seu futuro. Depois de ontem termos publicado o artigo de Gustavo Homem é hoje a vez de Paulo Laureano, Director Técnico da MR.net.

Linux - Duas décadas de evolução e oportunidades
Por Paulo Laureano (*)

O Linux está em todo o lado: computadores pessoais, servidores, telemóveis, routers, impressoras e até consolas de jogos. Não foi sempre assim. Quando o conheci no distante ano 1996, era um sistema operativo apenas vocacionado para utilizar em servidores, substituindo com sucesso uma série de sistemas operativos Unix comerciais por uma fracção do preço.

O conceito de um sistema operativo ser de utilização livre e distribuído com o "código fonte" era para mim tremendamente sedutora. Horas de passatempos e puzzles por resolver. Implementações completas dos mais diversos protocolos de comunicações e serviços, distribuídas em formato que eu podia estudar e alterar... era tudo o que eu podia precisar para criar serviços na Internet. E assim aconteceu. Ano e meio depois do meu primeiro contacto com o Linux estava a criar a minha empresa de serviços na Internet, onde desenvolvo a minha actividade profissional até aos dias de hoje.

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Milhares de programadores independentes fizeram o mesmo, adaptando o Linux a diferentes contextos de utilização, com diferentes graus de sucesso. Como se de um organismo vivo se tratasse, o Linux evoluiu e diversificou-se de forma quase "darwiniana", e há centenas de diferentes "mutações" (distribuições) disponíveis na Internet. É um milagre improvável de cooperação entre seres humanos na criação de um sistema operativo livre e funcional, disponível a todos os que o queiram utilizar. É equivalente, e em muitos aspectos melhor, que os sistemas comerciais que serviram de base à criação de algumas das maiores empresas do planeta (Microsoft e Apple).

O Linux representa uma oportunidade económica não só para indivíduos, mas também para países. A partir de qualquer canto do mundo podem ser criadas aplicações informáticas alternativas, que substituem milhares de euros em licenças gastos anualmente com os seus equivalentes comerciais e proprietários, vendidos por empresas americanas como a Microsoft. O estado português gasta milhões de euros anualmente em licenças de software. Se Portugal seguir os exemplos do Brasil e Rússia, que adoptaram o Linux como base para desenvolver as suas próprias soluções tecnológicas, a industria de software nacional pode ganhar uma importância (e peso no PIB nacional) radicalmente diferente em poucos anos.

O maior recurso natural que temos em Portugal são os nossos cérebros, a nossa capacidade de dar a volta aos problemas, de os transformar em oportunidades. Na realidade não precisamos que o estado sirva de exemplo. Qualquer indivíduo pode explorar o Linux e criar novas soluções para problemas existentes. Nem sequer precisam de ser programadores ou técnicos; fazem falta no nosso mercado manuais e documentação escrita na perspectiva de utilizadores.

Existe uma excelente distribuição nacional de Linux chamada "Caixa mágica". Qualquer indivíduo ou entidade pode aceder a ela gratuitamente. Qualquer programador a pode utilizar como base para desenvolver o seu trabalho. Qualquer empresa a pode usar para criar todos os serviços de base necessários ao funcionamento de uma rede (desde firewalls a sistemas de partilha de ficheiros, e-mail, calendários, etc).

Noto com o tristeza que a maioria dos programas e estabelecimentos de ensino insistem em leccionar recorrendo a tecnologias proprietárias, ferramentas e sistemas operativos comerciais. Lamento que o façam. A alternativa é recorrerem a tecnologia livre e aplicações/distribuições nacionais. Estão a transportar para o mercado de trabalho pessoas literalmente "formatadas" para o consumo e importação endémica de soluções tecnológicas. É uma notável falta de sentido estratégico, exemplarmente bem aproveitada, apoiada e incentivada, pelas multinacionais norte americanas com programas de licenciamento "especial" para o ensino. Espero que entre professores, responsáveis dos ministérios da educação e economia, um dia percebam o disparate que é não aproveitar devidamente esta oportunidade chamada Linux.

(*) Director técnico da Mr.net

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