Embora as taxas de abstenção não parem de aumentar - com um recorde de 53,3 por cento nas últimas presidenciais - os portugueses parecem estar a ganhar vontade de participar na democracia que nos governa.



Os movimentos cívicos estão a emergir, o diálogo em fóruns ou até nas redes sociais sobe o tom e o descontentamento tem saído às ruas. Seja pela mão de uma dita geração à rasca ou de outras gerações, também descontentes com o estado das coisas.



E a Internet? A Internet ajuda. Muitas vezes, aliás, a Internet (e outras tecnologias, como o telemóvel) mais do que ajudar permite, assumindo-se como o veículo preferencial para levar uma mensagem que se quer de divulgação rápida e barata.



Os principais actores da cena política acompanham a tendência e a pouco e pouco multiplicam as formas de tirar partido dela e chamar a si quem está disposto a ter uma palavra (mais) a dizer.



As formas de o fazer são várias. Já o resultado pretendido é quase sempre o mesmo: marcar uma posição e trabalhar uma imagem, enquanto se aproveita para saber o que pensa quem está do outro lado da ligação Web.



Ainda esta semana surgiu mais um exemplo protagonizado pelo Bloco de Esquerda, que acaba de lançar uma plataforma onde cada cidadão pode testar a eficácia de várias propostas eleitorais para atingir os objectivos do défice, baixar o desemprego ou influenciar o PIB.



Nas propostas à disposição de quem quer vestir a pele de ministro das finanças estão ideias apresentadas por vários partidos, embora a maioria seja bloquista. O utilizador até pode escolher se quer "trabalhar" com medidas propostas pela esquerda ou defendidas pela Troika. Os resultados são visíveis em tempo real.

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Do outro lado da luta, o PSD também tem potenciado a comunicação digital com cuidado. Para além de - como a generalidade dos outros partidos - assegurar uma presença no Facebook, no Twitter e nos outros serviços sociais que já não dispensa qualquer político ou partido de máquina bem montada, tem trabalhado o site oficial.



O espaço para a interacção com cidadãos tem crescido e ganho novas vertentes. Quem passa pela página oficial do maior partido da oposição cruza-se agora com destacado apelo laranja: envolva-se.



Quem aceita o desafio pode fazê-lo de várias formas. Enviando uma foto, um vídeo, uma mensagem, uma notícia ou sabendo como pode levar o apoio para o terreno, para o Facebook ou para o blog. Escusado será dizer que por aqui já cheira a campanha eleitoral, para as legislativas que no próximo mês de Junho voltam a levar os portugueses às urnas.

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A divisão jovem do partido tem igualmente a correr uma iniciativa, que não sendo interactiva, pode também apontar-se como um bom exemplo da utilização das TIC e do seu largo alcance para divulgar uma ideia, uma situação, um facto. Neste caso divulgam-se nomeações políticas da responsabilidade do Governo, desde que entrou em gestão. Não é nova a ideia de usar a Internet para promover transparência, mas cai sempre bem. Neste caso o site chama-se O Povo é que Paga.

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Na concorrência partidária o apelo à interactividade está mais calmo, mas a aposta nos meios online é hoje tendência generalizada, mesmo para os partidos com menos recursos para a rentabilizar, como o Partido Trabalhista Português, que representa José Manuel Coelho. O PTP não gostou de se ver fora da agenda dos debates televisivos que vão preceder as legislativas e criou uma petição online para manifestar desagrado. A quem concorda que há uma ditadura nos debates televisivos restritos aos partidos com assento na Assembleia da República pede-se apoio.



Fora da esfera dos partidos a participação dos cidadãos é igualmente cada vez mais explorada, aproveitando a vontade de comentar ou partilhar que faz o sucesso de muitos serviços online.



Cavaco Silva levou para a Presidência da República uma nova dinâmica de utilização dos meios digitais. É uma estratégia que passa pelo site, mas também pelas redes sociais e outras plataformas externas, revelando um plano bem trabalhado para esta área, onde até cabem anúncios e comentários exclusivos para uma ou outra plataforma digital.



Na campanha eleitoral que precedeu a sua reeleição, o ex-Primeiro Ministro eliminou aliás quaisquer dúvidas que pudessem existir. Deixou claro que a lição relativa à importância dos meios digitais, na comunicação com uma geração que não os dispensa, está na ponta da língua. Foi de longe o candidato que mais "se desdobrou" pelos serviços do momento.

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A própria Assembleia da República tem caminhado no sentido de modernizar os pontos de contacto com um cidadão que está atento e desperto para os canais online. As melhorias no site oficial vão-se vendo (aqui e ali) e o espaço cidadão é hoje um ponto de encontro de links, contactos e informação sobre direitos. Entre eles acesso à lista de iniciativas em apreciação pública, direitos do cidadão à iniciativa legislativa, à criação de petições ou os contactos dos grupos parlamentares.

No poder local, os exemplos de apelo a uma maior participação democrática também se multiplicam. Os orçamentos participativos que várias autarquias espalhadas pelo país têm promovido mostram-no.



Na capital terminou com o mês de Abril a possibilidade da população sugerir medidas para aplicar ao orçamento municipal de 2012. Foram recebidos 808 contributos. Foi a quarta vez que a Câmara de Lisboa deu poder de decisão aos cidadãos e reservou 5 milhões de euros para concretizar as medidas propostas. Em Setembro serão conhecidas as medidas seleccionadas, que voltarão ao cidadão para uma decisão final por votação pública.



Fora dos grandes centros o modelo repete-se, como acontece em Odemira onde as propostas para alocar verbas municipais pode chegar online, ainda até Junho.

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Cristina A. Ferreira

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