Comeu um hambúrguer com batatas fritas e quer saber a quantidade de calorias que ingeriu. Em pleno século XXI essa missão não parece ser, à partida, difícil, bastando ter um smartphone e instalar uma determinada aplicação. No entanto, a verdade é que existem várias questões que podem colocar em causa a fiabilidade destas apps e que não beneficiam quem as instala.

MyFitnessPal, FatSecret e Macros são algumas das apps disponíveis na Google Play Store e na App Store que querem ajudar aqueles que, por alguma razão, querem perder peso e pretendem monitorizar e registar aquilo que comem. Vamos verificar as principais características destas aplicações, todos elas gratuitas.

MyFitnessPal

  • Base de dados de mais de seis milhões de alimentos
  • Criação de programa de dieta e exercício para o utilizador
  • Resumo nutricional diário, com todos os principais nutrientes
  • Conta com mais de 50.000.000 instalações

A app está disponível para iOS e Android.

FatSecret

  • Informação nutricional e calórica dos seus alimentos marcas e restaurantes favoritos
  • Diário alimentar para planear e acompanhar o que é ingerido
  • Registo de alimentos e refeições através de imagens
  • Conta com mais de 10.000.000 instalações

A app está disponível para iOS e Android.

Macros

  • Cálculo das necessidades energéticas e nutricionais do utilizador
  • Cálculo de macronutrientes
  • Conta com mais de 1.000.000 de instalações

A app está disponível para iOS e Android.

Veja na fotogaleria as aplicações.

Aplicações de contagem de calorias não substituem consultas de nutrição

Mas serão apps deste género de confiança? Para analisar esta questão, o SAPO TeK conversou com João Vasques, investigador do Laboratório de Nutrição (LN) da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL), que levanta várias questões. Em entrevista, também Duarte Sequeira, chief operating officer (COO) da startup portuguesa UpHill, e David Honório, head of engineering, deram a sua perspectiva, desta vez sobre a sua própria experiência de aprovação da app da empresa de saúde por parte da Google e da Apple.

João Vasques torna bastante clara a sua opinião quanto a estas apps. “Só vejo vantagens quando essas aplicações são utilizadas de uma forma integrada na personalização de uma intervenção nutricional”, afirma o investigador do LN da FMUL, organismo que desenvolve a sua atividade em três eixos prioritários: ensino, investigação e apoio à comunidade no domínio das ciências da nutrição. Neste contexto, João Vasques considera que a utilização destas apps só se justifica caso tenha sido um profissional de saúde a recomendá-la.

"Caso não tenha sido recomendada por um profissional de saúde, acho que não existe de facto motivos para a utilização destas aplicações", afirma João Vasques

E por que razão pensa o investigador desta forma? "Não nos interessa saber o que comemos se não conseguimos interpretar essa informação", explica, esclarecendo que "se não soubermos quais a nossas necessidades energéticas e nutricionais não conseguimos interpretar os resultados obtidos desse registo".

Realçando que este tipo de aplicações não substitui uma consulta de nutrição, João Vasques considera que o “controlo permanente das refeições e do peso não tem qualquer fundamento caso o utilizador da aplicação tenha insuficiente literacia nutricional ou algum profissional de saúde que o acompanhe e auxilie na interpretação daquilo que está a registar”. E, garantindo que não querer causar alarme, refere que este tipo de comportamentos pode associar-se a doenças do comportamento alimentar. Uma delas é a ortorexia, caraterizada por uma obsessão pela alimentação saudável.

Por isso, o investigador reforça a ideia da importância de um nutricionista a acompanhar este processo. “Este registo alimentar e do peso poderá ser benéfico quando articulado com o nutricionista que o acompanha”.

O "lado negro" das apps de contagens de calorias

Quanto a desvantagens deste tipo de apps, João Vasques faz, nomeadamente, referência à "falsa sensação de segurança que uma aplicação onde registamos o que consumimos nos pode fornecer". De acordo com o especialista, algumas dessas aplicações fornecem informação relativa às calorias ingeridas, sem o utilizador conhecer muitas vezes a metodologia utilizada nesse cálculo. Quando questionado sobre os pontos fracos destas apps, João Vasques dá um exemplo concreto de uma falha nestas aplicações.

Um bom exemplo de um erro na criação deste tipo de aplicação é permitir que sejam os próprios utilizadores a classificar as refeições de outros utilizadores como sendo saudáveis ou não.

O investigador destaca, ainda, a importância da participação dos nutricionistas no desenvolvimento destas apps e o impacto negativo que surge quando isso não acontece. "A ausência de nutricionistas na elaboração de aplicações na área da nutrição acaba por ser uma grande desvantagem por não existir um profissional com know-how para assegurar a melhor metodologia a utilizar no serviço que a aplicação pretende prestar", explica.

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João Vasques realça, ainda assim, que as vantagens ou desvantagens variam de acordo com o utilizador da aplicação, cada um com objetivos e características diferentes a ter em consideração numa intervenção nutricional. "No caso das aplicações de registo do consumo alimentar e do peso corporal, essas vantagens na maioria dos casos só se substanciarão com acompanhamento profissional", frisa.

Apesar de a MyFitnessPal, por exemplo, contar com mais de 50.000.000 utilizações, João Vasques acredita que muitos utilizadores desinstalam este género de apps “devido ao registo diário exaustivo ser fatigante e não propriamente prazeroso”. “É possível que muitos desinstalem estas aplicações também por estas não corresponderem ao esperado ou não responderem aos objetivos que os utilizadores definiram para si”, acrescenta, pondo a possibilidade de os utilizadores ficarem obcecados com aquilo que comem como uma razão secundária que as pode levar a desinstalar as apps.

UpHill: Quais os processos de verificação da aplicação da startup na Google Play Store e App Store?

É certo que antes de estarem disponíveis na Google Play Store e na App Store, as aplicações passam por um processo de verificação, com as guidelines da Google e da Apple a estarem disponíveis online. Ao SAPO TEK, o COO da UpHill, Duarte Sequeira, explica parte do processo pelo qual a startup que pretende melhorar a qualidade dos cuidados de saúde dos hospitais e outras instituições de saúde que a utilizam teve de passar, nomeadamente com uma nova atualização validada recentemente, em junho, relativa a recursos sobre a COVID-19.

As diferenças entre os processos da Google e da Apple são notórias, logo na sua duração, com a aprovação da Apple a ser mais demorada. Enquanto a Google demorou dois dias para aprovar a última atualização da UpHill, disponível para Android e iOS, a empresa da maçã levou uma semana para o concretizar. No final de julho ambas as empresas verificaram positivamente o update.

"Sobre o processo, habitualmente a Apple comunica mais connosco durante esta etapa de verificação, procurando garantir o rigor científico, validar o tipo de informação que é recolhida do utilizador e confirmar o propósito da aplicação", explica Duarte Sequeira relativamente à app lançada no final de 2019 e que tem sofrido alterações, que têm de ser aprovadas pelas duas gigantes tecnológicas.

Já David Honório, head of engineering da UpHill, garante que "ambas as stores têm processos automáticos e semi-automáticos para verificação das aplicações, que são aplicados no momento do primeiro lançamento e das atualizações subsequentes". Abrangendo diferentes vertentes, a proteção dos dados e as questões legais, nomeadamente das políticas de privacidade e de termos de utilização claros, é uma das destacadas por David Honório. Por outro lado, existem requisitos a nível de segurança, conteúdo disponibilizado, performance e usabilidade, explica ainda.

A aplicação da startup permite aos utilizadores estarem a par da evidência científica mais recente e colocarem-na em prática, através de algoritmos de atuação, artigos científicos escolhidos e sumarizados e casos clínicos para simulação virtual. A app disponibiliza ainda um conjunto de conteúdos gratuitos diretamente a todos os profissionais de saúde.

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