O que pensam os europeus sobre o uso da tecnologia na melhoria do corpo humano, o chamado “human body augmentation”? A Kaspersky considera esta uma área importante, com questões médicas e éticas a considerar, mas também de segurança e realizou um estudo a nível europeu para compreender a aceitação das pessoas perante esta tecnologia. A sua conclusão foi divisiva, com quase metade (46,5%) dos europeus que acreditam que as pessoas devem ser livres de melhorar o corpo, caso decidam, revelou a Kaspersky durante o seu evento digital Next.

Nos resultados saltam à vista Portugal e Espanha, como aqueles que mais aceitam as modificações biónicas no corpo, no conjunto de sete países onde foi realizado o estudo, com 6.500 entrevistados. Ainda no que diz respeito a estatísticas, 49% dos inqueridos estão “otimistas” e “excitados” com o que o futuro reserva à sociedade que inclua tanto pessoas melhoradas, como sem modificações. 50% dos homens estão mais otimistas, enquanto que as mulheres são mais reservadas, mas ainda assim 40% igualmente excitadas com esta possibilidade.

Por outro lado, 12% dos europeus que participaram no estudo sente que as pessoas que forem melhoradas terão uma vantagem injusta no trabalho. Já 39% dos inqueridos estão preocupados que a tecnologia Human Augmentation pode levar a uma futura sociedade desigual ou conflituosa.

Nas questões amorosas, 45% dos europeus manifestam não ter qualquer problema em namorar com uma pessoa melhorada, com 59% dos homens a salientar que não só namorariam, como já tiveram parceiras com próteses biónicas. No caso das mulheres, o número desce ligeiramente para 55% na mesma questão. Os portugueses são os que mais mostraram abertura para o namoro, registando 65%, acima da média das respostas que foi de 51%. Portugal registou mesmo a maior taxa de aceitação da tecnologia de todos os países do estudo, com 56%, numa média de 46%.

Portugal continuou a liderar as respostas afirmativas em outras questões, como o suporte a um familiar que decidisse modificar o corpo. Os portugueses destacam-se com 46% de respostas afirmativas, para uma média de 29,5%, ou seja, apenas 3 em cada 10 europeus.

A nível geral, as próteses biónicas para os braços e pernas são aquelas que mais aceitação oferecem, no que diz respeito ao cônjuge, com 39 e 38% das respostas. Os chips nos dedos ou um olho biónico seguem-se, com 29 e 27%. Já a utilização de um exosqueleto (18%) e implantes cerebrais (18%) são as menos aceitáveis da lista.

O tema incluiu um debate com diferentes utilizadores de próteses biónicas, incluindo Tilly Lockey, uma modelo que as utiliza em ambas as mãos depois de um acidente. Um dos participantes refere que uma pessoa desabilidade, com o uso de próteses biónicas, deixou de gerar pena nas outras pessoas, dando lugar à curiosidade e interesse em conhecer a tecnologia e a adaptação dessas pessoas. Ainda sobre a eventual descriminação, sente-se uma maior abertura para as próteses, e que muito mudou na última década. Os videojogos (como Cyberpunk 2077 e Deus Ex que abordam o tema), os filmes e séries de ficção científica têm ajudado à compreensão do tema. Destacam mesmo as várias possibilidades positivas, muitas vezes fora do que se pode esperar, como por exemplo de um músico com uma mão biónica que consegue ligar um cabo a um sistema de som e controlar as músicas com o “pensamento”.

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A aceitação sobre modificações feitas no seu parceiro.

Questionados sobre o biohacking, considerando que na Suécia está bastante ativo, é referido que tem sido discutido este tema na sociedade, mas isso está a acontecer porque a sociedade sueca está cada vez mais ligada à tecnologia. Discutiu-se ainda a forma como as pessoas interagem, no ato de cumprimentar, no simples "passo-bem". A modelo refere mesmo que as suas mãos faziam-na mais confiante, com o sentimento de ser mais poderosa, porque se tivesse que se defender, podia "esmurrar", sem sentir nada nas mãos. "Não quer dizer que alguma vez tenha feito, porque não", salienta. Um dos convidados do painel, modificado por opção, salienta que existe muito mais abertura na aceitação da sua decisão.

Sendo a área de segurança da Kaspersky, é mencionado o potencial de ter problemas quando há uma dependência de conetividade nos chips e implantes biónicos para estes trabalharem. Um dos presentes no painel, que utiliza a mão ligada a uma app de smartphone, considera a possibilidade de um hacker aceder ao seu próprio corpo através da internet. Todos parecem aceitar o perigo disso acontecer, e que as preocupações de segurança são bastante elevadas. No caso da modelo com as próteses, como tem um chip na cabeça pode ter problemas, mas consegue retirar as mãos rapidamente caso seja necessário. Considera, no entanto, manter-se sempre atenta ao assunto. Em outro exemplo, falou-se no caso de um utilizador que tinha um mecanismo de injeção de insulina conectado, e caso este fosse vítima de hacking, poderia ser administrada uma dose letal à distância.

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A Kaspersky salienta que o perigo não se trata apenas nas questões da segurança, mas igualmente na privacidade, destacando que os utilizadores devem ser cautelosos com o uso da tecnologia. Um dos testemunhos refere mesmo que a segurança é uma preocupação que chega apenas em terceiro lugar na maioria dos utilizadores, depois do divertimento e utilidade que a tecnologia lhes oferece. A empresa já trabalha sobre o tópico da segurança há algum tempo, e diz que a questão deve ser enraizada na tecnologia, e não algo que seja adicionada num segundo nível.

Sobre as questões éticas, é referido que pessoas que têm acidentes e perdem membros, e resolvem fazer próteses, a sociedade aceita bem, mas o contrário para quando essa modificação é feita de forma consciente por aqueles que apenas desejam melhorar o corpo. "Como se pode aceitar cortar um braço perfeitamente funcional, para introduzir outro apenas com o objetivo de o melhorar?" Estas são questões negativas, dando-se por exemplo a injustiça na prática de um desporto. Este assunto já tinha sido abordado há alguns anos pelo Monsenhor Tomasz Trafny, o conselheiro tecnológico do Papa, que o SAPO TEK teve oportunidade de entrevistar na sua visita a Portugal.

E quais são os custos de manutenção e acessibilidade aos implantes biónicos? Para já é referido que existe um desfasamento entre ricos e pobres, e apenas quem tem dinheiro pode aceder e manter este tipo de tecnologia. E que não existem muitos apoios para quem realmente necessita de um membro biónico. Por outro lado, é referido que qualquer tecnologia que seja uma novidade é sempre cara, tal como os smartphones, quando surgiram, eram acessíveis apenas para alguns. "Na Idade Média um livro era muito caro, era uma prenda para os reis", salienta-se. Espera-se, no entanto, que a tecnologia biónica chegue ao público geral nas próximas décadas.

Mas por fim, a pergunta que perdura: "estaremos a criar superhumanos com toda a tecnologia biónica"? Os convidados não consideram que seja o caso, mas colocam a questão de aumentar aquilo que consideramos "normal". Ou seja, num futuro hipotético, em que todas as pessoas melhorem a visão com olhos biónicos, ao ponto de "receber como prenda um destes olhos", aquilo que consideramos como normal agora, nesse futuro será melhorado, e por isso, nessa perspetiva, sim, estamos a criar os tais "superhumanos", mesmo que não seja aquilo que vemos nos filmes de ficção científica, para já...

Nota de redação: Artigo atualizado com mais informação. Última atualização: 15h30.

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