Nos últimos meses tem sido divulgada a criação de centros de competência em Portugal, como os da Bosch, Google, Amazon ou Mercedes, apontados como um fator de desenvolvimento da economia e criação de know how, mas José Salas Pires, presidente da ANETIE, a associação de empresas do sector TICE, defende que a estratégia adoptada pelo Governo está errada e não traz vantagens competitivas a Portugal.

"Aquilo que se está a fazer hoje, do meu ponto de vista, que é atrair investidores e criar centros de competência em Portugal, está errado, completamente errado. Fazendo um paralelo, é pensar na indústria têxtil e na indústria dos sapatos que vendia horas/homem, a baixo custo, e isso não é uma vantagem competitiva”, explicou em entrevista ao SAPO TEK. Apesar de ter assumido a presidência da ANETIE há apenas três meses, José Salas Pires tem já ideias bem concretas para implementar e uma lógica que passa pela colaboração com outras associações e entidades do sector, e desenvolvimento do capital humano.

Como explicou ao SAPO TEK, o impacto da chamada fuga de cérebros é relevante e não afeta apenas o sector das TICE. “Erradamente o Governo está a atrair esse tipo de investimento, que, de certa forma, é como se fosse um eucalipto – seca tudo à volta. E depois, não só as empresas de tecnologias não têm recursos para elas próprias desenvolverem o capital intelectual, aquilo que é produto. Mas não são só as TIC que estão a ser afetadas, é todo o setor da economia nacional”, sublinha.

Para o presidente da associação, estes centros absorvem o produto do trabalho dos jovens engenheiros e não criam valor. “Podem estar a gerar emprego, vão pagar impostos aqui, mas o que é mais importante, que é o capital intelectual, é dessas empresas, que não são portuguesas”, defende.

O presidente da ANETIE é defensor de uma estratégia de desenvolvimento do sector em Portugal que não passa pela clusterização mas por um novo modelo de negócio das empresas de TICE, numa aliança entre as software houses tradicionais e as startups, e sempre a pensar na internacionalização.

"As empresas precisam de uma transformação geracional. A tecnologia não é o problema"
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“O que a gente quer é que haja mais Talkdesks, mais OutSystems, mais empresas que desenvolvam produtos e serviços em Portugal, que exportam esse produto e esse serviço com parceiros, que até podem ser essas empresas internacionais – que podem funcionar como uma espécie de porta-aviões que levam os nossos aviõezinhos, que são as nossas microempresas”, refere em conversa com o SAPO TEK.

Para isso é necessário que as empresas portuguesas tirem mais partido das parcerias para conseguir projeção internacional, e dá o exemplo da Unbabel que está a internacionalizar o serviço com a Google.

Salas Pires afirma que é possível e desejável este tipo de parcerias, que também pode acontecer com multinacionais de vários sectores, mas avisa que tem de se evitar é que os centros de competências, ou as empresas internacionais que recrutam em Portugal, venham buscar “aquilo que é o nosso bem mais precioso, que são os nossos recursos humanos”. “Não é porque os vendemos 30 ou mais 50% mais caro do que eles hoje recebem [em Portugal] que estamos a criar valor acrescentado”.

José Salas Pires admite que a escassez de recursos humanos é um dos principais entraves ao desenvolvimento do sector das Tecnologias da Informação, Comunicação e Eletrónica e que é necessário requalificar mãos jovens e profissionais de outras áreas, mas também investir no trabalho com as universidades, politécnicos e centros de formação profissional.

Para a ANETIE, Portugal precisa de criar valor acrescentado, desenvolvendo produtos nacionais e globalizando-os, numa lógica de produtização, uma estratégia que quer desenvolver com o novo programa da associação.

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