O coworking é uma das tendências que se vinha afirmando antes da pandemia ter obrigado a fazer pausa nas interações pessoais. O mercado ressentiu-se e este ano, em todo o mundo, só cresceu 2,1% mas as expectativas para os próximos anos são altas, sobretudo tendo em conta a procura crescente de espaços de trabalho flexíveis e até a entrada de novos atores no segmento, como os hotéis. 

O Global Coworking Growth Study estima que em 2024 cinco milhões de pessoas vão já trabalhar em espaços de coworking, num crescimento de 158% face a 2020. A nível global este mercado valia 7,97 mil milhões de dólares em 2020, este ano deverá passar a valer 8,14 mil milhões e em 2025 terá avançado para os 13 mil milhões de dólares.  A região da Ásia-Pacifico lidera em número de espaços, mas a Europa vem logo a seguir com quase 5.900.

A evolução reflete uma procura cada vez mais diversificada destes espaços, que já não são apenas uma resposta às necessidades de startups e freelancers, mas também de empresas.  Em Portugal os números apurados pela  B. Prime mostram que no ano passado existiam 115 espaços de coworking na área da grande Lisboa, onde se inclui Cascais, Setúbal e Sintra e 37 na região do Porto. O pico de crescimento destes espaços aconteceu em 2018.

Jorge Bota, managing partner da consultora imobiliária regista que “depois de um período de muita prudência, derivado da situação pandémica, os espaços de coworking voltaram a tornar-se bastante apelativos, sendo neste momento o segmento mais avançado em termos de recuperação de ocupação”. Uma recuperação que se fez às custas de um esforço de adaptação às atuais circunstâncias e preocupações das pessoas, admite a B. Prime, mas que acabou por ser fácil de concretizar graças ao ADN destes formatos e operadores, “que são naturalmente ágeis e flexíveis”.

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Os dados recolhidos pela B. Prime mostram que a capacidade instalada em Lisboa permite acolher mais de 11 mil trabalhadores. No Porto, um pouco mais de 2200 pessoas, mas é aqui na zona Norte que as previsões de crescimento também são maiores, para os próximos anos. Nas duas regiões do país a consultora imobiliária identifica uma forte procura por parte de empresas que entram em Portugal, ou já cá operam, mas querem expandir as suas áreas de negócios e se deparam com a falta de espaços de escritórios.

O estudo também avaliou preços, para concluir que podem variar entre os 10 e os 750€, consoante o tipo de serviço disponibilizado e a duração temporal, entre a possibilidade de ter uma secretária por uma hora, ou um escritório virtual durante um ano.

Próxima grande tendência: Coworking no interior

“A evolução deste sector, irá passar bastante por uma maior dispersão geográfica, pois a grande maioria dos estudos já realizados, mostram que existe uma atração clara das pessoas que pretendem manter um sistema de teletrabalho, em conjunto com dias em espaços mais formais, mas idealmente mais próximos da sua zona de residência”, destaca Jorge Bota. 

“Estes espaços serão por isso mais presentes em mais geografias, mas também mais espaços de colaboração e de interação de equipas, do que propriamente um posto de trabalho”. Serão procurados sobretudo para reunir equipas, para permitir um trabalho mais produtivo e concentrado e com o menor impacto possível na vida das pessoas. “Também os escritórios tradicionais irão passar por aí. O que o coworking está a fazer é apenas a liderar essa tendência”, acrescenta o mesmo responsável.

Na primeira metade deste ano foram também anunciados espaços de coworking em dezenas de municípios de norte a sul do país. Em junho já existiam acordos assinados para a fixação destes espaços em 88 municípios e um protocolo para permitir que pudessem também ser usados por funcionários públicos em trabalho remoto. 

A iniciativa pretende contribuir para atrair pessoas para o interior do país, ajudar a criar condições para fixar populações em zonas mais desertificadas e promover uma melhor conciliação entre vida pessoal e profissional, assumia o Governo, através dos ministérios da Coesão Territorial e do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social quando lançou o programa. 

“Os espaços de cowork são uma boa ferramenta, mas não devem ser o projeto em si. O dinheiro alocado para estes projetos devia ser também direcionado à criação de pequenas comunidades, porque o importante não é só atrair pessoas, mas arranjar formas de as fazer ficar lá”, Gonçalo Hall, consultor

No terreno vai caber às autarquias gerirem estes espaços, equipados com computadores, impressoras e acesso à Internet, pensados para combinar áreas com diferentes tipologias, entre zonas de trabalho em espaço partilhado e zonas mais reservadas para reuniões, videochamadas ou formação. Às câmaras cabe também a responsabilidade de divulgar estes espaços, que representam um investimento de 20 milhões de euros e que em muitos casos ainda não está completamente operacional. É o que acontece em Miranda do Corvo, onde se aguarda pelo mobiliário e equipamentos para abrir portas. O município vê nesta oportunidade mais um elemento na estratégia da autarquia que tem desenhado vários incentivos para manter “os nossos munícipes mas também para atrair mais residentes, mais investidores, mais turistas”, como explica a vice-presidente Ana Gouveia.

Melgaço tem-se posicionado para atrair trabalhadores remotos e há novos investimentos em vista

“O teletrabalho e o coworking assumem particular importância para os territórios do interior na redução da assimetria geográfica de ofertas profissionais, democratizando as oportunidades entre as regiões de elevada densidade populacional e as de menor densidade”, referia o comunicado divulgado à data de lançamento da iniciativa. Falta saber que medidas complementares estão previstas para dinamizar os ecossistemas que se quer fazer vingar à volta dos espaços de coworking. O ministério de Ana Mendes Godinho não teve disponibilidade para responder a questões sobre este tema.

Gonçalo Hall, consultor na área do trabalho remoto e nomadismo digital, vê com bons olhos a proliferação de espaços de coworking pelo país, mas teme que o sucesso possa ser limitado, se em torno disso nada mais for feito. 

“Os espaços de cowork são uma boa ferramenta, mas não devem ser o projeto em si. O dinheiro alocado para estes projetos devia ser também direcionado à criação de pequenas comunidades, porque o importante não é só atrair pessoas, mas arranjar formas de as fazer ficar lá”, defende o também fundador da Remote Portugal e Remote Europe, que já ajudou a lançar várias comunidades de nómadas digitais, incluindo a da Madeira.

Melgaço já tem um espaço de coworking e prepara-se para inaugurar o segundo. Foi também uma das primeiras localidades portuguesas a receberem o selo Remote Work Ready Town

“O erro do Governo [nesta área] é querer fazer todo o trabalho sozinho e as experiências a nível mundial mostram que essa não é a fórmula de sucesso”. As parcerias com privados têm-se revelado indispensáveis para criar ofertas que combinam diferentes componentes e que devem também ter a preocupação de promover a ligação às comunidades locais, defende. 

É o que pode acontecer em breve em Melgaço, que no último ano conseguiu atrair de volta ao concelho antigos moradores agora em teletrabalho e tem registado uma procura crescente no seu espaço de coworking, como revela o presidente Manoel Batista, que espera ter novidades em breve nesta área, mas ainda não quer antecipar muito. O autarca para já só revela que há neste momento empreendedores interessados em investir no concelho e dinamizar ofertas nas áreas do cowork e coliving. Um interesse que o presidente da câmara associa à estratégia da autarquia para atrair novas pessoas para o concelho, onde já existe um espaço de coworking a funcionar e em breve haverá mais um, também integrado na rede nacional recém-lançada. 

Há cerca de seis meses Melgaço também recebeu o selo Remote Work Ready Town da Rural Move, que o autarca admite ser uma ajuda para colocar a região no mapa dos nómadas digitais e uma forma de atestar o trabalho que tem vindo a ser feito em áreas como as infraestruturas - num concelho onde a fibra chega hoje a 75% da população e deve chegar a 100%, num prazo máximo de dois anos - os serviços, o desporto e outras, exemplifica.

Este artigo integra o Especial O futuro do trabalho já chegou e tem várias formas.

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