Tecnologia ou Modelo de Negócio?

A mudança de paradigma do Software de Gestão

por Céu Mendonça (*)

Estamos a assistir a mais um momento de mudança no sector do Software de Gestão em Portugal, podendo afirmar que quando determinado mercado atinge um elevado estado de maturidade, o marketing na sua essência funciona em pleno.

O papel de quem compra, assume maior preponderância e acima de tudo há que ir ao encontro das reais necessidades do Cliente, em detrimento de se vender algo que preenche necessidades num estado ainda muito latente. É disso que trata esta mudança. De um lado empresas que já passaram pelos menos por duas fases de mudança do seu sistema de informação de Gestão e por outro construtores e respectivos Parceiros que por vezes teimam em oferecer aquilo que produzem no sentido restrito (tecnologia traduzida em produto).

[caption]Céu Mendonça[/caption]Por isso quando hoje se fala de novos modelos de distribuição de Software de Gestão, nomeadamente o SaaS, o que pretende de verdade? O que é que o Cliente procura exactamente?

Vamos recuar no tempo e fazer um breve resumo da história das fases que marcaram a evolução do software de Gestão para PME's em Portugal.

Na década de 80, nascia a primeira software house portuguesa, que oferecia ao mercado software de gestão para PME's. Tratava-se de um conjunto de aplicações ainda muito básico, mas que significava um grande avanço, já que nada existia. A oferta incidia essencialmente na Contabilidade, Salários e Gestão Comercial. O esforço comercial era praticamente zero, uma vez que a oferta era limitada e os Clientes nada tinham. Nos anos seguintes mais software houses nasceram, umas de âmbito nacional, outras mais regionais que respondiam a necessidades mais específicas de determinados sectores. Na fase de maior boom, também foram muitos os projectos que nasceram com desenvolvimento à medida.

Em 1998 uma nova fase, marcada pela afirmação de soluções em ambiente Windows, que naturalmente foram rapidamente acolhidas, mas que colocaram em risco a continuação de alguns Players. O facto de até então se desenvolver produtos em plataformas completamente parcas em escalabilidade (difíceis de reconverter, algumas eram proprietárias), obrigou a que muitos fornecedores tivessem que reescrever as suas soluções e assim o time to market foi muito difícil de gerir.

O suposto bug do ano 2000 estava próximo e a euforia na procura de soluções foi enorme. Pouco tempo depois, em 2002/2003 a preocupação centrou-se nas soluções que dessem resposta à nova moeda do nosso País, o Euro.

O parque de soluções ficou nesta fase rejuvenescido com "tecnologias standard" (bases de dados abertas e com grande domínio de linguagens de desenvolvimento comuns), o que permitiu que as evoluções seguintes se passassem a processar de uma forma mais natural.

Nos finais de 2003, emergiam, para o mercado das PME's, os grandes Players internacionais. Era tempo de democratizar alguns conceitos (ex: ERP, CRM) até então ligados às grandes organizações junto das empresas de menor dimensão, também já preparadas para esta nova etapa.

Dois anos depois chega a grande novidade, a oferta de soluções verticais, dedicadas à área de core business de cada negócio. Em alguns casos surgiu em modelo de add-on's como uma extensão do ERP, sempre associado ao conceito de solução completa e integrada. Os Clientes já haviam suprido as necessidades mais transversais à organização e querem passar a investir numa gestão mais sofisticada do seu negócio, ao mesmo tempo que convivem com conjunturas económicas menos favoráveis que obrigam a controlar e monitorizar dados de negócio de uma forma mais aprofundada.

E assim chegamos aos nossos dias, com um mercado constituído por Clientes que sabem o que querem, que não se deixam deslumbrar por tecnologias state of the art, mais independentes e que acima de tudo procuraram soluções para os seus problemas. O software assume um papel de plataforma/canal de suporte às soluções (conceito estendido de produto) que responde cabalmente às novas necessidades críticas dos sistemas de informação.

Os Players de software e a respectiva cadeia de valor foram absorvendo as melhores práticas de mercado de cada tipo de negócio e foram incorporando as mesmas, nos produtos/soluções, disponibilizabdo modelos que permitam a conquista e fidelização de Clientes, que não comportem investimentos elevados e concentrados na fase de adopção.

Fruto deste encontro de interesses mais do que uma mudança de paradigma suportada por novas arquitecturas tecnológicas, surge a necessidade de novos modelos de negócio que facilitem a implementação de novas soluções, que gerem valor acrescentado.

Estas mudanças também provocam impactos na cadeia de valor do sector, que acima de tudo terá que se diferenciar pelo know how. A tecnologia, aí, sim substitui um conjunto de papéis até agora essencialmente operacionais/técnicos.

Que tendências se afirmarão, o tempo dirá. Certo é que, com SaaS, Renting, Pay per Use, Fremium, ou outros, a mudança está aí.

(*) Business Unit Manager - SME (Small & Medium Enterprises) da SAGE

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