Vamos exigir uma atitude diferente?


Reflexão sobre o que impede o desenvolvimento e a inovação em Portugal

Por João Paulo Carvalho (*)

[caption]Nome da imagem[/caption] Uma das principais ameaças que perseguem a sociedade portuguesa é a ausência de um modelo de decisão coerente, é a ausência de alinhamento dos decisores com os objectivos estratégicos que se estabeleceram para o país.

Reconhecendo que a chave para o progresso assenta no conhecimento e na inovação, o Governo fez, em 2005, uma aposta fundamental no Plano Tecnológico: qualificar os portugueses para a sociedade do conhecimento, dar um novo impulso à inovação e, desta forma, vencer o atraso científico e tecnológico em Portugal.

Este projecto teve o apoio da presidência da república, da comunicação social, das escolas, da sociedade civil. Na opinião pública, as empresas inovadoras passaram a ser vistas de uma forma elogiosa. Portugal apareceu motivado para apoiar o empreendorismo, a inovação, a competência. Apesar de todas as dificuldades, passámos a partilhar um objectivo comum.

Na Quidgest, estamos também comprometidos com esta estratégia. Neste sentido, colocamos no terreno soluções inovadoras que contribuem para acelerar o processo de mudança do padrão de especialização da economia portuguesa.

E estamos particularmente atentos a situações que impedem o país de concretizar esta visão.

No passado mês de Fevereiro, a Administração dos Portos do Douro e de Leixões (APDL) abriu um concurso público publicado no Diário da República n.º 13, II Série, de 20/01/2009, com o objectivo de seleccionar uma empresa que implementasse o novo sistema de Enterprise Resource Planning (ERP) e de Informação de Gestão da APDL.

O que merece a nossa atenção é que, no artigo 1.º do Programa do Concurso, é definido que o âmbito deste concurso está limitado a duas empresas: "A solução a apresentar deverá ser suportada pela solução ERP/DW da SAP ou da Microsoft." E este, como foi confirmado pelo júri da APDL, constitui um factor de exclusão na escolha da empresa que irá desenvolver o sistema lançado a concurso.

Isto significa que um concurso público, em Portugal, exclui administrativamente todas as soluções ERP/DW portuguesas que a ele poderiam concorrer. É óbvio que situações como esta constituem um claro desvio aos objectivos estratégicos propostos para o país.

Por isso, é urgente repensar os moldes em que são feitos os concursos públicos nacionais. Como é que soluções como as da Quidgest (e de outras empresas nacionais), que até já conseguiram garantir uma enorme lista de referências, podem ser assim excluídas?

O nosso pedido é inimaginável em qualquer outro país desenvolvido: que, pelo menos, seja permitido o acesso das empresas portuguesas aos concursos públicos nacionais. Não podemos continuar a esperar que as nossas empresas inovem, se impedimos que a nossa inovação chegue aos concursos públicos do nosso próprio país.

Se continuamos a criar situações de entrave à inovação, nunca iremos superar a dependência do financiamento estrangeiro, nunca poderemos verdadeiramente concretizar os objectivos inicialmente propostos pelo plano tecnológico e, em última instância, nunca iremos tornar Portugal numa economia competitiva.

Só no ano passado, Portugal teve 17,6 mil milhões de euros de défice adicional, um valor que representa cerca de 10,6% da riqueza total gerada na economia. Mas este gravíssimo contexto parece ser insuficiente para alguns decisores, que continuam a decidir liminarmente que as soluções portuguesas não estão à altura dos seus concorrentes externos, mesmo quando se recusam a vê-las.

Com a crise, todos os países fazem tudo o que podem para proteger o emprego e o tecido económico. Em Espanha, apoiam-se as empresas que investem e criam empregos em Espanha. Em França apoiam-se as empresas que investem e criam empregos em França. Em Portugal perseguem-se as empresas que investem, que inovam e que criam empregos em Portugal, apenas por serem portuguesas.

Vamos exigir uma atitude diferente aos nossos decisores?

(*) Senior Partner da Quidgest

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