Por Rami Riashy (*)

A nova série Dia Zero da Netflix apresenta um cenário inquietante: um ciberataque capaz de paralisar infraestruturas nacionais e que força um ex-presidente dos EUA a liderar a resposta enquanto os sistemas estão inoperacionais e as tensões atingem níveis críticos. Embora dramatizada para televisão, a ameaça representada não está muito distante da realidade. Que lições podemos retirar?

O ataque retratado apresenta um cenário avançado de Ameaça Persistente Avançada (APT), direcionado a infraestruturas nacionais. Um ataque em larga escala como este envolveria provavelmente uma campanha coordenada em várias fases, utilizando técnicas sofisticadas que já foram observadas em incidentes reais.

Ataques à cadeia de fornecimento: A infiltração silenciosa

Em vez de atacar diretamente agências governamentais, os grupos patrocinados por Estados visam muitas vezes os fornecedores de software, inserindo backdoors em produtos amplamente utilizados. Exemplo real: O ataque SolarWinds (2020), onde hackers ligados à Rússia comprometeram uma atualização de software e obtiveram acesso a redes governamentais dos EUA.

Exploração de zero-day: Atacar sem aviso prévio

O próprio título da série sugere a utilização de vulnerabilidades zero-day - falhas desconhecidas no software exploradas antes que uma correção seja disponibilizada. Exemplo real: A vulnerabilidade Log4j (2021), que expos sistemas em todo o mundo a ataques de execução remota de código.

Malware wiper: Destruição total da infraestrutura digital

Para provocar o caos, os atacantes podem utilizar malware wiper, concebido para apagar dados e tornar os sistemas inutilizáveis. Exemplo real: O malware NotPetya (2017), inicialmente disfarçado como ransomware, causou prejuízos de milhares de milhões de dólares.

Ataques a infraestruturas críticas: Ameaça cibernética-física

Se a série retratar ataques a redes elétricas, sistemas de abastecimento de água ou transportes, alinha-se com ameaças reais contra Sistemas de Controlo Industrial (ICS) e redes SCADA. Exemplo real: O ataque Industroyer (2016), que desativou partes da rede elétrica da Ucrânia e demonstrou como o malware pode perturbar serviços essenciais.

Desinformação e deepfakes baseados em IA: A guerra psicológica

Os ataques cibernéticos não afetam apenas os sistemas, mas também a perceção pública. Exemplo real: O uso crescente de deepfakes em campanhas de desinformação, dificultando a distinção entre realidade e ficção.

Se um evento como o Dia Zero ocorresse verdadeiramente, seria essencial uma defesa proativa a todos os níveis - governamental, empresarial e individual.

Resiliência cibernética nacional: Reforçar a defesa a grande escala

  • Modelo de segurança zero-trust: Garante que cada pedido de acesso seja verificado, reduzindo o risco de movimentação lateral por atacantes.
  • Partilha de inteligência de ameaças: Cooperação entre empresas de cibersegurança, governos e líderes da indústria (CISA, MITRE ATT&CK, NCC Group).
  • Defesa ativa e tecnologia de engano: Uso de honeypots e deteção de intrusões para identificar ameaças antes que se agravem.

Proteção empresarial: Segurança para infraestruturas críticas

  • Segmentação de Redes e Redundância: Separação de redes IT e OT para impedir a propagação de malware.
  • Resposta a incidentes e planeamento de resiliência: Testes de intrusão regulares e simulações de ataques para garantir prontidão.
  • Segurança da cadeia de fornecimento e conformidade SBOM: Exigir que os fornecedores adotem políticas rigorosas de segurança.

Higiene cibernética dos consumidores: Defesa contra engenharia social

  • Autenticação multi-fator (MFA) e chaves de segurança: Reduz drasticamente o risco de roubo de credenciais.
  • Consciência sobre phishing e resiliência à desinformação: Verificar fontes de informação para evitar ataques baseados em IA.
  • Backups regulares e encriptação: Garante que os dados pessoais críticos permanecem protegidos mesmo em caso de ataque ransomware.

Embora a série Dia Zero seja ficção, as ameaças que representa são bem reais. Os ciberataques estão a crescer em escala e sofisticação, exigindo que as empresas, os governos e os cidadãos atuem agora para fortalecer a sua resiliência cibernética.

A série serve como um lembrete oportuno de que a cibersegurança já não é apenas uma preocupação de IT, é uma questão crítica de segurança nacional e segurança pública.

O futuro da cibersegurança não se trata apenas de defesa, mas de estar sempre um passo à frente das ameaças.

(*) Transport Assurance Cybersecurity Principal na NCC Group