O tempo parece que não passa por algumas estrelas que têm desafiado a lógica do envelhecimento cósmico. Observadas no interior de enxames estelares muito antigos, brilham mais intensamente e apresentam um a cor mais azul do que as suas vizinhas, parecendo muito mais jovens do que a idade real do sistema onde nasceram. São conhecidas como blue stragglers - estrelas retardatárias azuis - e continuam a intrigar os astrónomos desde a sua descoberta, há mais de 70 anos.

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Em teoria, as estrelas de um mesmo enxame globular formam-se praticamente ao mesmo tempo, há milhares de milhões de anos. À medida que envelhecem, tornam-se mais frias e avermelhadas. As blue stragglers quebram esta regra: são mais quentes, mais massivas e mais brilhantes, como se tivessem “rejuvenescido”. A grande questão sempre foi perceber como isso acontece e o Hubble veio dar uma ajuda.

Um grupo de investigadores recorreu a observações do telescópio espacial para analisar dados no ultravioleta de 48 enxames globulares da Via Láctea, reunindo o maior catálogo alguma vez feito destas estrelas, com mais de 3.000 blue stragglers. Os enxames estudados cobrem todo o espectro de ambientes possíveis, desde sistemas muito densos a outros bastante dispersos.

Contrariando expectativas antigas, os cientistas descobriram que as blue stragglers não são mais frequentes nos enxames mais densos, onde as colisões entre estrelas seriam mais prováveis. Pelo contrário, surgem em maior número nos enxames de baixa densidade, onde as estrelas estão mais afastadas umas das outras. Este padrão revelou-se consistente em toda a amostra analisada, indicam no estudo publicado na Nature Communications.

A explicação parece estar nas estrelas binárias, sistemas em que duas estrelas orbitam mutuamente. Nestes pares próximos, uma estrela pode transferir matéria para a outra ou fundir-se com ela. Esse processo fornece novo combustível nuclear, fazendo com que a estrela resultante brilhe mais intensamente e adquira um aspeto mais jovem, “reiniciando” parcialmente o seu relógio estelar.

Sistema binário observado pelo Hubble
Sistema binário observado pelo Hubble This image features R Aquarii, a symbiotic binary star that lies only roughly 1,000 light-years from Earth in the constellation Aquarius. This is a type of binary star system consisting of a white dwarf and a red giant that is surrounded by a large, dynamic nebula. [Image description: A bright binary star surrounded by a nebula. The star, in the centre, is a large white spot surrounded by a circular glow. It has a large, X-shaped set of diffraction spikes around it. The nebula extends far above, below, left and right of the star in long, arcing shapes made of thin, multicoloured filaments — mostly red and greenish colours, but lit in a bright cyan near the star where its light illuminates the gas.] créditos: NASA

Nos enxames muito densos, as interações frequentes entre estrelas tendem a destabilizar e destruir estes sistemas binários antes que possam dar origem a blue stragglers. Já em ambientes mais calmos, as binárias sobrevivem durante mais tempo, permitindo que estes processos de transferência de massa ocorram. Assim, a abundância de blue stragglers acaba por ser maior onde as condições são mais favoráveis à estabilidade das parcerias estelares.

Esta é a primeira vez que se observa de forma tão clara uma relação inversa entre a densidade do enxame e o número de blue stragglers, salienta a ESA. O resultado reforça a ideia de que estas estrelas são, sobretudo, um produto da evolução de sistemas binários e demonstra que o ambiente onde uma estrela vive pode influenciar profundamente o seu percurso ao longo de milhares de milhões de anos.

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