Quase um ano depois do lançamento do Copilot e da apresentação em Portugal dos primeiros casos com IA generativa, já se sente o impacto no mercado. “Falo com muitos stakeholders e efectivamente não é só uma questão de hype, há interesse concreto da academia, das startups, das grandes empresas, que já estão a fazer coisas, do sector público que normalmente ia atrás e agora está à frente”, explica Manuel Dias em entrevista ao SAPO TEK.

Logo nos primeiros meses foi identificada uma dinâmica ligada à Inteligência Artificial, e em especial à Inteligência Artificial Generativa, que colocava Portugal na linha da frente, uma posição que o diretor de tecnologia da Microsoft Portugal diz que se mantém. “Este é o ano da consolidação da IA Generativa, com projetos mais complexos, aplicações inteligentes e optimização de processos de negócio. Portugal continua a ser líder nesta área”, afirma, sublinhando que 2023 foi o ano da experimentação, com projetos onde se provou o valor e o potencial.

Entre os casos de sucesso já apresentados estão o caso do Guia Prático da Justiça, o bot do ePortugal sobre Chave Móvel Digital, que é pioneiro na utilização de um avatar, mais recentemente o bot dos CTT, a utilização da Talkdesk nos Call Centers.

Manuel Dias afirma que a tendência é para que Portugal se continue a posicionar de forma clara nesta área, e que os números do DESI, na dimensão de Inteligência Artificial, já colocam o país na segunda posição entre os estados membros da União Europeia.

“Portugal continua a ser líder nesta área. Marcou pontos no início de 2023 com projetos inovadores […] os outros países estão a convergir, e vemos muitos exemplos lá fora, mas nós também temos muitos novos projetos, alguns dos quais não podemos revelar”.

Para além de chatbots com recurso a IA generativa há desenvolvimento de aplicações inteligentes e mais complexas, optimização de processos de negócios e a criação de copilotos para tarefas específicas dentro das organizações.

A aplicação da IA, e em especial da IA generativa, faz-se a vários níveis, mas há algumas áreas onde está a avançar de forma mais rápida, explica o responsável pela área de tecnologia da Microsoft Portugal, que tem sido um dos mais relevantes promotores da disseminação de informação sobre IA em Portugal. “Todas as grandes empresas estão a desenvolver projetos de IA, em especial em sectores como a energia, telcos e banca”.

Seis empresas portuguesas começaram a usar o M365 Copilot no Early Access Program e como o anúncio do alargamento do programa a empresas de todas as dimensões Manuel Dias acredita que a utilização vai aumentar, também com o Copilot Pro. Ainda hoje a Agência para a Modernização Administrativa (AMA) comunicou que está a adotar o novo Copilot para Microsoft 365 nas ferramentas disponibilizadas aos colaboradores, tornando-se uma das primeiras entidades da Administração Pública a incorporar esta tecnologia avançada nas suas práticas de trabalho.

A Educação é também uma das áreas em transformação e há muitas iniciativas a decorrer, com formação aprofundada em Inteligência Artificial em várias universidades, e também no INA com foco na Administração Pública. A primeira edição da formação em Inteligência Artificial para a Administração Pública contou com 40 formandos e 27 organismos públicos, num consórcio com seis universidades. 

Superpoderes ou reforço de competências?

A Microsoft é patrocinadora do Building the Future, a conferência que ainda este mês vai ter como tema central a Inteligência Artificial e tem como mote “Superpowers: The Digital Human (R)evolution”. Manuel Dias admite que a IA pode não trazer superpoderes mas traz certamente poderes reforçados na produtividade e na criatividade. “Se puder ter estes dois superpoderes, e algo da tecnologia que ajude a ir mais além nestas capacidades, isso pode ser muito relevante para a sociedade e para nós como seres humanos”.

O ser humano continua a estar no centro, mas a componente digital é importante. “Temos de explorar em vários fatores, como profissionais e cidadãos, e também é relevante desenvolver o pilar das organizações inteligentes, e como podem tirar partido da tecnologia, em particular da IA generativa”, explica.

“Há uma transformação organizacional nas empresas, como é que vão transformar. Não é só tornarem-se mais inteligentes mas há um tema cultural”, afirma, dizendo que são questões que vão estar em discussão no evento, não só numa perspectiva tecnológica mas também transformacional, de potencial, impacto, risco e benefício e oportunidades.

Em relação ao impacto que pode ter na sociedade, e nas nossas vidas, Manuel Dias avisa que há muitas mudanças que têm de ser pensadas, desde as crianças que estão ligadas nas redes sociais, até na forma como podemos aplicar a IA na educação, revendo metodologias de ensino, e como vamos olhar para a sociedade enquanto co-relação entre as pessoas.

Na perspetiva económica, o gestor aponta números que considera muito interessantes, como o estudo da Accenture onde se estima que até 2035 a tecnologia de IA pode duplicar as taxas anuais de crescimento económico, ou o da PWC onde se revela que o PIB anual pode aumentar até 14% até 2030. “São números animadores quando olhamos para o impacto da tecnologia”, sublinha, juntando ainda o estudo do impacto da Microsoft no ecossistema português, que representava 2,4% do PIB.

Confrontado com as questões relacionadas com a possibilidade do aumento de desemprego, fruto da evolução da tecnologia. Manuel Dias mostra-se optimista e afirma que vamos todos ser obrigados a fazer a evolução. “Normalmente costumo dizer que não vamos ser substituídos por IA mas por pessoas que sabem tirar partido da IA e deste tipo de tecnologia”, afirma.

Admite porém que vamos ter faixas da população que são muito mais autossuficientes e didatas nestas soluções, sobretudo os mais jovens, enquanto outros terão mais dificuldades.

Acho que isso passa por Portugal apostar numa cultura de competências e perceber que isso é um fator chave de competitividade a curto, a médio e a longo prazo”, defende. E isso é para todas as camadas de população, não apenas dos jovens ou da população ativa. Um exemplo é o da população mais idosa que pode passar a tirar mais partido dos benefícios do digital porque o interface de comunicação é mais natural.

Nas empresas o caminho parece mais fácil, mas também com necessidade de formação. “Vai ser uma evolução natural, mas mais do que uma evolução vai ser um requisito. Quem trabalha nas empresas vai ter de saber usar a linguagem natural, que vai ser a forma standard de interagir com estas ferramentas, e saber fazer uma prompt, fazer uma pergunta, dar contexto, vai ser muito relevante, com pensamento crítico e analítico que são muito importantes”.

Lembra que se pensarmos nas grandes revoluções da história, e até na capacidade de adaptação durante a pandemia da COVID-19, os humanos foram sempre capazes de se adaptar de forma rápida, capacitando as pessoas para o trabalho remoto e para tirarem partido das ferramentas que já tínhamos à disposição.

Acho que vai ser o mesmo, a principal razão é que os benefícios esperados ao nível da produtividade vão ser muito importantes e vão convencer todos a tirar partido destas tecnologias. Eventualmente uns tirarão mais, outros levarão mais tempo, mas compete a todos nós, e às empresas, a responsabilidade de assumir o compromisso e colocar o tema nos programas de formação, de reskilling, na academia, para que todos possam adquirir essas competências.

Estratégias de mudança nas empresas

A adaptação a uma nova forma de trabalhar é um elemento relevante para que a Inteligência Artificial possa realmente ter efeitos na produtividade e no dia a dia, e apesar das ferramentas estarem disponíveis, e integradas nas aplicações que são utilizadas, Manuel Dias diz que é preciso desenvolver estratégias de adoção.

“Não é simplesmente porque tenho o copilot no Excel, no Word ou no PowerBI que as pessoas vão passar a usar de um dia para o outro, é preciso mostrar-lhes, preparar planos de adoção e de change management”, explica.

“Os decisores nas organizações podem perceber que vamos ter benefícios enormes na utilização da tecnologia mas é preciso também incentivar as pessoas e mostrar o que é possível fazer, que casos de uso, porque é que estou a escrever um email do zero quando o Copilot sabe exatamente como escrevo, com muitas ou poucas palavras.  É preciso fazer esse trabalho de capacitação das empresas”

Manuel Dias faz a comparação com os programas de formação em Excel que foram desenvolvidos há alguns anos e que foram necessários para mostrar o real valor da aplicação.

O desafio principal pode estar nas pequenas e médias empresas, onde a capacidade de adoção de tecnologia é normalmente mais reduzida. Mas também aqui  desmistifica o problema. “Há alguns anos olhávamos para a área de cibersegurança e de cloud e dos desafios de trazer para as PME. E se calhar estamos a falar das empresas mais familiares, com 20 ou 30 anos e não as startups, que estão muito à frente”.

A capacitações é novamente uma palavra chave. “O Governo tem feito algumas ações na área da formação, com vouchers, acho que é preciso continuar a olhar para isto porque o tecido empresarial tem muitas PME. Enquanto país temos um trabalho a fazer”.

Mais uma vez com uma visão positiva, Manuel Dias recorda que enquanto os CRMs e websites chegaram às PME com ofertas de serviços cloud, que facilitaram o acesso, a IA generativa vai um passo à frente. “Pode tornar as empresas mais competitivas, mais produtivas, mais criativas […] o impacto pode ser maior ainda e é preciso sensibilizá-las para isso”, defende, lembrando ainda que tem menos barreiras à entrada com os modelos de integração dos serviços que não obrigam a grandes investimentos iniciais.

Consciência dos riscos e utilização responsável da IA

Mesmo com uma visão optimista, e o entusiasmo que transmite quando fala sobre IA e IA generativa, há alguma coisa que assuste Manuel Dias, ou o preocupe com a tecnologia? “Nada me assusta do sentido geral, mas tenho preocupações porque todos percebemos que qualquer tecnologia pode ser usada no sentido maléfico”, admite.

Para o responsável de tecnologia da Microsoft, cabe a todos nós, às empresas e instituições que regulam, à sociedade, colocar o máximo número de salvaguardas possíveis. E por isso saúda o que a União Europeia está a fazer de forma pioneira com o AI Act, a regulação para a Inteligência Artificial, e o que a Microsoft está a promover nos seus produtos, que defende que é muito relevante, de colocar salvaguardas em todas as camadas para minimizar os riscos, porque estes existem.

“Se há alguma coisa que me preocupa é ver alguns cenários em que a tecnologia não é usada da forma que idealizámos, e temos de estar conscientes. Mais uma vez a capacitação não serve só para sermos mais produtivos, serve para estarmos conscientes dos riscos e anteciparmos esses riscos. Temos essa responsabilidade”.

Ainda assim, e olhando para o passado, todas as tecnologias tiveram os seus riscos que a humanidade soube ultrapassar, desde a eletricidade à energia nuclear. “Fomos conseguindo colocar salvaguardas e aqui temos de o fazer rapidamente, isso para mim é uma preocupação, porque a tecnologia evolui rapidamente a regulação muitas vezes não tem a mesma velocidade […] Há um sentido de urgência de colocarmos estas salvaguardas, falarmos sobre elas e estarmos cientes, enquanto sociedade, mas isto já se punha com a cibersegurança e com a Inteligência Artificial antes da IA generativa”.

Sou optimista, a Microsoft também, mas é um optimismo responsável, de saber o que pode ter maior risco e tentar antecipar esse risco, colocando salvaguardas na tecnologia, regulação que permita ter uma análise melhor e antecipando esses riscos”, completa.

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