Era o ano de 1995, o Internet Explorer dava os primeiros passos, a Yahoo tinha acabado de ser lançada e Sergey Brin e Larry Page ainda não tinham escrito o algoritmo que daria origem à Google. Em Portugal, no centro de informática da Universidade de Aveiro, surgia o Serviço de Apontadores Portugueses (S.A.P.), um diretório de sites portugueses que haveria de evoluir para motor de busca e mais tarde para portal, e o acrónimo SAPO (com o Online) assumiria a identidade de uma empresa e uma equipa, tornando-se uma das marcas mais conhecidas e associadas à Internet em Portugal.

O dia 4 de setembro assinala hoje os vinte anos de vida do SAPO, um aniversário que mais uma vez o TeK não poderia deixar de referenciar, até pela ligação que o site tem com o portal desde o ano 2000, sendo um dos parceiros de conteúdos com mais longevidade numa rede extensa do mundo dos media portugueses.
Sem alinhar em saudosismos, Celso Martinho, diretor geral do SAPO e cofundador, explica que o que mais o orgulha neste percurso é que, “independentemente de todos os contextos pelos quais passámos, desde o contexto universitário, à startup, a vinda para Lisboa, a integração no Grupo PT e as suas várias fases, o SAPO tem uma cultura e uma forma de estar, e uma relação como talento, que torna o projeto um pouco único no país”.

O orgulho do cofundador do projeto vai também para a equipa que o tem acompanhado, e que “me fez permanecer no meu primeiro emprego neste tempo todo”, justifica em entrevista ao TeK, mas entre os momentos mais relevantes Celso Martinho não deixa de salientar a evolução feita a partir do motor de pesquisa e a diversificação do projeto com a criação do Portal.

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1997: O motor de pesquisa do SAPO

“O que nos motiva é olhar para o futuro e não para o passado, e a noção de que a experimentação e o erro fazem parte do processo. Temos conseguidos antecipar os comportamentos dos utilizadores da internet, num negócio difícil cuja natureza é a constante mudança, mas temos conseguido sistematicamente encontrar os momentos com antecipação, foi o caso de quando investimos no portal, nos conteúdos, com uma rede forte de parceiros, que monetizamos com sucesso, o aparecimento do mobile, o ecommerce, os classificados, toda a modernização que a própria Internet teve”, refere.

A importância do SAPO como fábrica dentro do Grupo PT e o MEO, e o papel do desenvolvimento de inovação para dentro da empresa de telecomunicações é igualmente um dos pontos destacados por Celso Martinho, que admite que foi muito importante ter um Grupo que acreditou na capacidade do SAPO e lhe deu meios para desenvolver novos produtos e serviços.

Mas esta ligação umbilical não terá limitado a possibilidade do SAPO alcançar outro tipo de desenvolvimento e notoriedade a nível internacional? Celso Martinho acredita que não, e que, apesar de se poderem fazer vários exercícios comparativos e cenários, foi a ligação à Portugal Telecom que ajudou a desenvolver a presença internacional de forma relevante, apostando na lusofonia e em mercados relevantes, assim como a notoriedade que a associação dos conteúdos e da marca ao acesso à internet trouxe ao SAPO. “Mais do que fazer exercícios do que poderia ter sido, sentimos grande gratidão. Hoje somos dos poucos projetos na Europa, e talvez no mundo, que conseguimos fazer frente a gigantes com recursos infinitos, o que é muito difícil”, acrescenta, lembrando que há países como a vizinha Espanha onde o panorama é bastante diferente e os portais não estão a conseguir manter a sustentabilidade.

Celso Martinho não fugiu às perguntas relacionadas com as recentes alterações do Grupo PT, e à entrada da Altice, colocando a questão como um fator que abre novas perspetivas para o futuro. “O SAPO tem de ser visto como um portal mas também como uma fábrica de produtos e serviços […] A Altice deu um sinal claro de que o projeto e a equipa são ativos importantes para a estratégia do Grupo e a recente reorganização reforçou esta ideia. O SAPO continua forte no negócio da publicidade e do portal e temos perspetivas de continuar a crescer”. E o facto da Altice ter operações em vários países e presença em outros operadores pode ser uma oportunidade que o SAPO não quer deixar de explorar, levando o know how que desenvolveu para a PT para outras geografias e contextos.

Para já o SAPO mantém em Portugal a liderança na área de portais, que quer conservar, apostando numa rede de parceiros com quem tem uma relação a longo prazo, mas Celso Martinho acredita que para garantir a sustentabilidade no futuro é preciso “experimentar e adaptar modelos a novos comportamentos dos utilizadores, à utilização de novos dispositivos e perfis de consumo”, onde as redes sociais têm um papel importante.

“Serão tempos interessantes, onde muitas experiências vão dão errado mas se permitirmos que se possa investir em experimentação há uma vantagem competitiva face aos que vão estar parados”, justifica. E por isso o SAPO continua a “mexer” e a experimentar, e está a lançar novos produtos, como o SAPO24 que foi revelado há cerca de um mês.

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2015: SAPO24, um dos projetos mais recentes

Esta visão permite também que o SAPO olhe para os gigantes da Internet numa perspetiva de colaboração e concorrência, nomeadamente com a Google e o Facebook, que reconhece como canais que permitem chegar aos utilizadores de forma eficiente e mantendo uma relação de proximidade, mas com os quais disputa um mercado publicitário que é limitado, embora esteja a crescer a ritmos interessantes em Portugal.

Também aqui a visão é de experimentação e de adaptação aos movimentos do mercado, reconhecendo que existem riscos em alguns modelos, nomeadamente para os negócios de conteúdos que se coloquem numa posição de dependências de uma rede que não controlam e que a qualquer momento pode mudar as regras do jogo.

Sem querer entrar em campos da futurologia, o diretor geral do SAPO olha com confiança para as perspetivas que se apresentam para os próximos anos, apesar de ser difícil traçar cenários a 3 ou a 5 anos, e mais ainda para as próximas duas décadas.

“Na área do portal, assumindo que as variáveis não mudam, vamos continuar a fazer o nosso trabalho, a ser irreverentes e a descobrir modelos que funcionem para os utilizadores, mantendo a configuração de parcerias, mantendo uma rede forte e não excluímos a hipótese do SAPO vir a ter de produzir conteúdos no futuro ou procurar novos parceiros dividindo oportunidades e riscos de forma diferente”, assume Celso Martinho.

Já na área de “fábrica” de serviços as perspetivas são diferentes e as oportunidades que se abrem no Grupo Altice podem levar a um crescimento exponencial, se forem bem exploradas. “Há uma série de projetos que o SAPO tem para a PT e que podem ser bem explorados noutras telcos”, explica, sublinhando que no entanto as duas áreas do SAPO têm uma grande interligação e que as culturas e as equipas são as mesmas, existindo grande sinergia entre o Portal e o desenvolvimento de serviços.

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E as mudanças no cenário da Internet e da tecnologia? Admitindo que aqui se entra numa área de futurologia, Celso Martinho confessa que gostava de ver resolvido o problema das baterias, o que seria muito útil para a humanidade, mas mais a sério revela as preocupações que tem com o desenvolvimento da Inteligência Artificial e das áreas do conhecimento do corpo humano que já permitem a preservação durante séculos sem que a mente o acompanhe. As biotecnologias, o conhecimento dos materiais e a evolução da energia são igualmente desenvolvimentos que o diretor geral do SAPO acompanha com atenção, inquietação e também otimismo.

Preocupações sérias também estão relacionadas com a crescente regulamentação da Internet, que tende a tornar a rede menos abertas e desvirtuar o que foi um conceito inicial que permitiu o desenvolvimento de inovação e criou oportunidades para os utilizadores acederem ao conhecimento e as empresas desenvolverem novos serviços que têm mudado a vida das pessoas.

“Era muito bom que se consagrasse a Internet como uma plataforma neutra e como um bem essencial a que todos devem ter acesso e com as mesmas oportunidades”, um desejo que tem sido expresso por muitas personalidades ligadas ao desenvolvimento da Internet e da Tecnologia mas que infelizmente parece ser cada vez mais contrariado pela realidade.

Afinal este é também o ambiente que permitiu ao SAPO registar a evolução significativa dos últimos vinte anos e é o cenário mais prometedor para que nos próximos anos se possa continuar a assinalar o aniversário do projeto.

Fátima Caçador

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