Os números e análises mostram que a Europa continua a perder terreno face aos Estados Unidos e à China na inovação, em várias das áreas fundamentais, como a inteligência artificial, a supercomputação e cibersegurança. E o que pode ser feito para recuperar a liderança? A questão é central no ICT2018, o evento europeu que junta várias conferências e exposição de projetos, mas também o fórum de apoio a startups, e que decorre entre 4 e 6 de dezembro em Viena, na Áustria.

“O ICT 2018 mostra a criatividade e a excelência dos investigadores europeus. Mas o nosso próximo desafio é transformar os seus resultados em produtos de sucesso e empresas, que tragam novas oportunidades aos cidadãos e benefícios a toda a economia”, sublinhou Mariya Gabriel, comissária europeia para a Economia Digital e Sociedade, numa mensagem gravada na sessão de abertura do ICT 2018.

O financiamento é um fator chave e a comissária destacou a importância de se conseguir um acordo para cumprir o orçamento proposto de 9,2 mil milhões de euros. “Estamos num momento crucial para desenhar os instrumentos financeiros que tornam realidade o futuro digital”, avisou, lembrado que o programa Digital Europe tem um orçamento ambicioso para 2021-2027, e que é essencial para investir em computação de alto desempenho, inteligência artificial, cibersegurança e competências digitais avançadas.

Esta semana o Conselho Europeu de um passo importante na aprovação, ainda parcial, do programa Horizon Europe que vai decorrer entre 2021 e 2027 e que tem uma proposta de orçamento de 100 mil milhões de euros. Este programa deverá decorrer em paralelo com o Digital Europe e dá continuidade ao Horizon 2020, que o comissário Carlos Moedas classifica como uma das maiores histórias de sucesso europeias.

Este acordo ainda não toca as questões orçamentais, até porque o valor total a atribuir ao Horizon 2020 depende do que for definido para o orçamento global da União Europeia, que está ainda em debate, e que definirá o valor a atribuir ao programa Digital Europe.

Kahlil Rouhana, responsável pela DG Connect, admitiu que nos últimos 20 anos a Europa contribuiu menos para a investigação do que devia, sobretudo a nível do investimento, que não aumentou na proporção do que o digital pesa no mercado, nem do impacto que tem na sociedade.

“Em 20 anos não progredimos muito no valor que investimos, mas o digital triplicou no valor de mercado, o impacto cresceu na sociedade, e há 20 anos eramos 15 países e hoje somos 28”, lembrou o executivo, avisando que “há muito para andar”, o que motivou uma proposta muito ambiciosa para o próximo programa digital. “Só assim vamos conseguir ser líderes e ter a melhor capacidade de inovação, a melhor infraestrutura e as competências”, reforça, lembrando que por cada euro investido em inovação por parte da UE há mais 10 do sector privado, e que isso faz mexer a economia.

Do lado do Banco Europeu de Investimento, Wilhelm Molterer não poupou avisos para o atraso na europa e para o Gap digital que existe, referindo que é preciso aumentar em pelo menos 20% o investimento para a chegar a 3% de investimento em Investigação e Desenvolvimento (I&D).

“O que precisamos é de uma framework forte, não só de regulação mas de planeamento, uma capacidade de planear e implementar”, adiantou, referindo que é também essencial reforçar as parcerias público-privadas e abrir as portas à ligação entre as empresas e a investigação. “Somos muito envergonhados a partilhar a investigação que é feita”, sublinha, lembrando que este é um desafio da sociedade e não da indústria ou dos investigadores.

Dois exemplos da forma como a inovação está a avançar em áreas chave, mas encontrando barreiras diversas, quer pela falta de regulação transversal que pela falta de uma estratégia concertada, são os carros autónomos e a inteligência artificial. Pierre Chehwan, responsável pela Navya, uma empresa francesa que está a desenvolver veículos autónomos avisa que há ainda muitos entraves a nível do licenciamento dentro da Europa, mas também noutros mercados que querem impor barreiras ao desenvolvimento desta tecnologia por parte das empresas europeias. “Estamos à frente neste sector mas precisamos de defender a liderança”, avisa.

Na área da inteligência artificial Pekka Ala-Pietila, presidente do grupo de alto nível para a IA, admite que a Europa perdeu a liderança para os Estados Unidos e a China na área de consumo, mas que há oportunidades importantes no B2B, que representa mais de dois terços da faturação, mas também na área pública. “Temos boas empresas, high tech hubs e não somos os melhores em machine learning, mas somos bons em robótica, e temos muito talento nesta área”, explica, alertando, porém, para o facto de ser importante também reinventar a forma como trabalhamos. “Temos de ganhar velocidade e aprender com os erros, mas mais rápido”, sublinha.

Entre as mensagens relevantes na abertura da ICT 2018 está também a necessidade de ganhar rapidez no processo de decisão, que é ainda muito burocrático e lento. “Precisamos de um modelo novo, mais rápido, porque precisamos de competir com os Estados Unidos e a China […] A Europa tem de se concentrar mais nos grandes tópicos e deixar os temas acessórios para os países”, defendeu Margarete Schrambock, ministra austríaca para o digital e a economia.

Uma conferência centrada na inovação

Mais de 5 mil investigadores, empresas e decisores estão registados para o ICT 2018 que decorre entre os dias 4 e 6 em Viena, com mais de 100 sessões paralelas de conferências e debates, espaço de networking e exposição, onde figuram os principais projetos europeus de investigação.

Há ainda maratonas de ideias e o fórum de inovação e startups, workshops e vários eventos paralelos dedicados aos temas da investigação, financiamento e inovação.

Organizado em conjunto pela Comissão Europeia e a presidência austríaca do Conselho da União Europeia, o ICT 2018 tem como tema Imagine Digital – Connect Europe e o objetivo é que a discussão ajude a definir também as prioridades da transformação digital na sociedade e na indústria, servindo de ponto de encontro para investigadores e empresas envolvidas na I&D europeia.

Na área de exposição estão presentes alguns dos principais projetos financiados pelos programas europeus e nos dias 5 e 6 o Innovation and Startups Forum acolhe sessões dedicadas a temas mais técnicos, como o blockchain, e a entrega dos prémios Innovation Radar.

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