O Encontro Nacional sobre Tecnologia Aberta trouxe, este ano, a Portugal, Jane Silber, a CEO daquela que é conhecida como a empresa que tem o flavour Linux mais popular entre os desktops.

Com o tema "Linux Anywhere, Everywhere", a responsável da Canonical referiu entusiasmada à assistência do evento algumas das batalhas ganhas nos últimos anos pelo sistema operativo, como o facto do factor qualidade ter ultrapassado o dos custos na decisão de escolha pelo open source.

Aproveitou também para salientar alguns pontos onde as coisas não têm corrido tão bem, notando que os programadores de software livre ainda escrevem muito para dentro, esquecendo-se que tal "linguagem" não fará sentido para o utilizador final.

Em entrevista ao TeK, Jane Silber falou destes e de outros desafios que o Linux enfrenta actualmente, deixando algumas perspectivas de futuro para o open source.

TeK: O Linux tem vindo a ganhar terreno entre o público em geral em todo o mundo, mas não com o ritmo desejado… Porque é que isso acontece e o que poderá ser feito para acelerar a taxa de adopção?

Jane Silber:
Por um lado, houve uma adopção muito rápida, quando se pensa na mudança que pedimos às pessoas para fazerem em termos da sua experiência com o computador… pode ser uma mudança muito exigente e significativa. Mas por outro lado, ainda é uma quota de mercado muito reduzida, é um facto.

Penso que o que tem de mudar de forma a fazermos crescer esta quota de mercado é fazer com que as pessoas queiram Linux porque dá resposta às suas necessidades, lhes permite fazer o que querem fazer.

Durante anos o Linux cresceu porque as pessoas faziam o download e o instalavam nas suas máquinas, mas actualmente poucas pessoas estão dispostas a fazê-lo. O Linux hoje em dia tem de estar disponível na decisão de compra e a decisão de compra faz-se nas lojas. Se o Linux continuar a ser uma escolha que se faz depois da compra inicial, esse crescimento não vai acontecer. É por esta razão que na Canonical lutamos para ter o Ubuntu instalado de raiz nos computadores. Esse é um caminho difícil: é mudar as dinâmicas em todo o ecossistema. Mas estamos a fazer pressão nesse sentido.

[caption]Jane Silber[/caption]

TeK: A existência de tantos flavours Linux não pode ser um factor prejudicial…?

J.S.:
Sim, é algo que gera alguma confusão, mas também significa que os Governos e as empresas também apostam na criação de versões locais que acabam por ser até bastante importantes em algumas áreas, como a da educação, e vocês têm um bom exemplo, com o Magalhães.

Essa fragmentação significa igualmente que não tem existido uma força central forte impulsionadora no ecossistema, aquilo que estava a falar há pouco. Por isso, sim acho que atrasou o processo de adopção, principalmente na cadeia inicial de valor do ecossistema. É uma espécie de "faca de dois gumes", tem vantagens e desvantagens.

TeK: Quais são os maiores desafios para o software open source, hoje em dia?

J.S.:
Oferecer uma melhor experiência ao utilizador é um dos desafios. Se pensarmos na forma como o open source é desenvolvido, de forma distribuída, sem que seja necessário trabalhar conjuntamente, esse modelo funciona no caso do código, mas é difícil de aplicar quando se está a desenhar a experiência de utilização. As coisas estão a melhorar nessa área, mas ainda há um longo caminho a percorrer.

Um outro desafio é a priorização no ecossistema de hardware. É necessário provar aos fabricantes que há valor económico em suportar Linux. Também aí as coisas começam a mudar, mas continua a ser um grande desafio.

TeK: O Ubuntu é visto como o flavour Linux mais comercial. Quantas pessoas usam o vosso produto?

J.S.:
Não sabemos números exactos, porque simplesmente não os contamos. Decidimos que não íamos exigir registo aos nossos utilizadores. Temos algumas métricas, mas sabemos que nenhuma delas está totalmente correcta. De qualquer modo dão-nos taxas de crescimento, e essas taxas de crescimento têm sido fortes. As nossas estimativas mais conservadoras (bastante conservadoras) apontam para a existência de 12 milhões de utilizadores.

TeK: O desktop continua a desempenhar papel central na estratégia da Canonical? Como encaram a chegada de novos formatos, como o netbook ou o tablet?

J.S.:
Absolutamente. Foi a nossa porta de entrada no mercado e o consumo continua a ser uma prioridade para nós. O que a chegada dos novos formatos trouxe foi, essencialmente, uma mudança da definição de desktop. Notebooks, netbooks, smartbooks, tablets ou desktops acabam por ser todos, no fundo, dispositivos com os quais um individuo interage directamente. Depois uns são mais móveis do que outros.

A proliferação de dispositivos é positiva para o Linux e para o open source, e é positiva numa série de aspectos. Um deles é que dá a oportunidade ao open source de proporcionar uma experiência de utilização multi-plataforma.

TeK: Qual é para si a área do open source mais "prometedora" do momento?

J.S.: É o crescimento desta cultura de participação a que assistimos em redes sociais e sites, na produção independente de música e no jornalismo e no reconhecimento que essa participação social espelha o que se passa no mundo do open source. São as mesmas "forças" em questão, independentemente de estarmos a falar na área tecnológica ou numa área de criação artística.

Essa dinâmica, em que uma disciplina pode aprender com a outra, é muito excitante. Há trocas muito interessantes que podem ser feitas.

TeK: E como é que acha que o software open source poderá evoluir?

J.S.:
Irá transformar-se na forma natural de escrever software. A determinado ponto no futuro vamos parar de falar de software open source e será apenas software. Afinal, reconhece-se que esta é a melhor maneira de escrever e desenvolver software, com uma forma mais aceitável de o distribuir.

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