Por António Bob Santos (*)

Um dos principais fatores que condiciona a nossa capacidade de inovação prende-se com as características da nossa estrutura produtiva. Mais de 2/3 da produção e das exportações nacionais está assente em produtos com baixa ou média-baixa incorporação tecnológica. Estas características decorrem da natureza do nosso tecido produtivo, nomeadamente: o baixo défice de qualificações dos trabalhadores (cerca de metade tem apenas 4 anos de escolaridade), dos proprietários das empresas (apenas um terço possui licenciatura), a reduzida dimensão das empresas (cerca de 90% tem menos de 10 trabalhadores) ou a reduzida exposição à concorrência internacional (cerca de 95% das empresas não exportam). Outros fatores, como a descapitalização das empresas, o seu elevado nível de endividamento ou os défices de colaboração e de confiança entre os agentes económicos contribuem para que o que se produz em Portugal, de forma global, esteja assente em atividades pouco intensivas em conhecimento e em inovação.

Ao mesmo tempo, tem-se verificado uma nova dinâmica empresarial nos últimos anos, baseada em novas empresas de base tecnológica (start-ups e spin-offs), construídas e lançadas em torno das tecnologias digitais e da Internet. Estas empresas possuem níveis mais elevados de habilitações e de qualificações, com estratégias orientadas para os mercados globais. Embora não sejam ainda muitas, algumas delas têm já conseguido alguma projeção internacional, colocando Portugal no mapa do empreendedorismo mundial.

Contudo, para que esta nova dinâmica subsista em Portugal, e se multipliquem os casos de novas empresas de sucesso, convêm estarmos cientes da elevada taxa de mortalidade das start-ups (mais de 70% nos primeiros 5 anos) e da concentração das atividades num reduzido número de setores (turismo e serviços). Desta forma, o desafio para os próximos anos deverá passar por:

  • Atuar ao nível das razões que levam a essa mortalidade (planos de negócio desadequados dos mercados, problemas de financiamento, de competências de gestão ou de networking), aumentando a taxa de sobrevivência no mercado;
  • Estimular a diversificação das atividades, com a criação de start-ups e de spin-offs de base industrial. Este facto poderá contribuir para acelerar o processo de reindustrialização do país, acrescentando valor às suas atividades;
  • Promover canais de ligação entre as start-ups/spin-offs (tecnologicamente mais atualizadas) com as PME com mais dificuldades - numa lógica de inovação aberta - contribuindo para a troca recíproca de experiências, de conhecimento e o desenvolvimento de projetos colaborativos e em cooperação.

 

As políticas públicas têm um papel fundamental neste processo, como lembra a história recente. Ao longo dos últimos 10 anos foi-se construindo um contexto favorável para o empreendedorismo e a inovação, com impulso forte do lado das políticas públicas: as iniciativas no âmbito do Plano Tecnológico (como a “Empresa na Hora”), do SIMPLEX (como os serviços públicos online), da Agenda Digital (como as infraestruturas de Banda Larga), o capital de risco público (como a InovCapital e, depois, a Portugal Ventures), ou os financiamentos para a I&D e inovação dos fundos comunitários (QREN/Portugal 2020). Este contexto tem vindo a ser reforçado pelas políticas públicas locais e autárquicas (como a Start-up Lisboa ou a Start-up Braga), das infraestruturas tecnológicas (como os Parques de Ciência e Tecnologia) e do ensino superior público (como as incubadoras e aceleradoras de ideias).

O aproveitamento dos instrumentos públicos à disposição e a propensão dos mais jovens para a criação de novas empresas de base tecnológica tem de ser aproveitada para atenuar a dualização existente no tecido empresarial, contribuindo para que o que agora constitui uma exceção (empresas inovadoras, com vocação internacional) seja uma tendência predominante no espaço de uma geração, ou seja, nas próximas duas décadas.

(*) Doutorando em Economia e Especialista em Políticas de Inovação 

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