Por Keri Gilder (*)

A migração crescente dos vários setores de atividade, e da sociedade em geral, para o digital coloca a questão de saber quais os impactos que esta mudança coloca às atuais plataformas e serviços digitais, às redes, aos centros de dados, à cloud e às outras infraestruturas de comunicações, bem como às interfaces com os clientes.

O ano de 2020 revelou-nos todo o poder que o ecossistema digital possui. Se uma pandemia desta magnitude e características tivesse acontecido há uma década, a transformação digital que ocorreu de forma extremamente rápida, não teria sido possível. Conseguir manter em funcionamento empresas que exerciam a suas atividades a partir de grandes edifícios, situados no coração das principais cidades de todo o mundo, e, ao mesmo tempo, passar os seus colaboradores para o modo de trabalho remoto a partir das suas casas, foi um grande desafio. No entanto, e tal como acontece com muitas outras transformações digitais, apesar da rapidez deste processo e das muitas vitórias alcançadas, há ainda muitos aspetos que precisam de ser ajustados para que todos possamos beneficiar e prosperar no mundo digital.

À medida que o ano de 2021 vai avançando e que a grande urgência que todos experimentámos no início do ano passado se dissipa, muitas empresas procurarão internamente refletir sobre como se podem preparar melhor para a transformação em curso. É também assim connosco, e de uma forma geral com todo o setor das telecomunicações. Foi um privilégio facilitar as mudanças que nos permitiram manter as sociedades, as comunidades e os serviços essenciais em funcionamento durante um ano sem precedentes - no entanto, temos de continuar a otimizar ainda mais a nossa organização e a nossa indústria, para que possamos acompanhar devidamente o novo mundo digital e as novas formas de trabalhar. Grande parte desta tarefa passa por incorporarmos tecnologias mais inteligentes em tudo o que fazemos. No entanto, tal não significa usarmos simplesmente as tecnologias de inteligência artificial e de machine learning. Na verdade, precisamos de melhorar a criação de insights sobre a forma como os clientes estão a utilizar a nossa rede e de ser mais proactivos na forma como os ajudamos a otimizarem as suas operações.

Depois de 2020 as pequenas e médias empresas nunca mais serão as mesmas. Urge que repensamos a infraestrutura do nosso negócio. Ao fazê-lo, vamos aumentar a importância da inovação e das soluções e serviços de vanguarda. Neste contexto, tecnologias como o 5G também irão ter um papel determinante a desempenhar no novo panorama das redes. Antes ligávamos grandes edifícios a metros uns dos outros. Agora, com os trabalhadores a operarem em modo remoto e espalhados por uma miríade de localizações, isso já não faz sentido. Por isso, teremos de agir em conformidade com esta nova realidade e traçar novos planos, mais adequados aos novos tempos que vivemos.

No novo ambiente digital é igualmente essencial garantir que as redes e os dados que estas transportam são seguros. E este é um desafio que todos os participantes no ecossistema digital terão de enfrentar em conjunto. Até porque sabemos que em períodos em que a economia atravessa dificuldades as ondas do crime aumentam. Durante os períodos de incerteza gerados pela recessão, os criminosos exploram os medos das pessoas e já perturbaram padrões de comportamento. No atual clima de recessão, onde o impacto do Covid-19 já alterou profundamente os padrões de funcionamento da rede muito além do previsível ou/imaginável, as vulnerabilidades podem estar mais expostas do que nunca. Neste contexto, há que ter particular atenção às muitas lacunas existentes na segurança, e que advém de a maioria dos trabalhadores estar a operar em modo remoto. Adicionalmente, o trabalho da maioria das equipas de TI e de segurança já está para lá do limite. Esta é uma questão que não podemos ignorar, até porque a fasquia nunca foi tão elevada como agora. As empresas precisam por isso de agir já, incorporando a segurança no desenvolvimento e na criação das redes, dentro destas e nos seus limites, bem como, e de forma transversal, ao longo de toda a parametrização das aplicações.

Por outro lado, nos debates sobre a economia e o ecossistema digitais não podemos ignorar o elemento humano. Assim, e por exemplo, do ponto de vista tecnológico, é vital que garantamos que as pessoas nas comunidades rurais não sejam excluídas deste movimento de transformação, devido aos níveis incipientes de conectividade que existem nestas regiões. Este é um desafio que tem de ser reconhecido e resolvido conjuntamente por todo o nosso setor. É preciso um esforço para superarmos o fosso digital e resolvermos as questões que contribuem para a discriminação digital ou/e para a infoexclusão. Quer seja porque não existem redes de comunicações suficientemente evoluídas e potentes em certas regiões para garantirem as ligações, quer seja porque as pessoas não têm os meios económicos necessários para pagarem os acessos e os consumos de internet, ou até para adquirirem os dispositivos necessários para trabalharem a partir de casa.

Também não podemos deixar que este novo ambiente, que nos trouxe uma maior flexibilidade na maioria dos casos, leve a que a inovação desapareça das empresas e aumente o isolamento das pessoas. Quando refiro a fuga da inovação das empresas, quero dizer que é muito difícil replicar o ambiente orgânico inovador que geralmente acontece quando as pessoas se reúnem num escritório físico. Certamente já todos estivemos em reuniões virtuais de brainstorming, mas com frequência não conseguimos sentir a mesma química que experienciamos quando estamos juntos com os nossos colegas ou parceiros todos numa mesma sala. Por isso, precisamos de pensar na forma como estruturamos os nossos ambientes, para que possamos promover este mesmo ambiente colaborativo no novo mundo do trabalho. Além disso, como anteriormente referido, o isolamento é mau para a saúde mental. Esta, aliás tem sido uma das minhas grandes preocupações durante ao longo desta pandemia. Considero que este é um aspeto crítico em que todos os gestores precisam de se focar atualmente.

Na Colt, a maioria de nós está a trabalhar em casa desde março do ano passado. A segurança das nossas equipas é prioritária para nós, e isso abrange também a nossa segurança mental. Criámos um amplo leque de iniciativas de apoio à saúde mental dos nossos colaboradores, e esforçamo-nos para chegar aos que se encontram em situações mais críticas, criando ambientes em que aqueles que estão mais frágeis possam admitir que precisam da ajuda dos que os rodeiam. Este é um momento que temos de ensinar as pessoas a reconhecerem os sinais da depressão e da ansiedade, encorajando-as a ajudarem os que estão em pior situação. Nunca estivemos tão ligados como atualmente, e é muito importante que possamos utilizar esta possibilidade para ajudar os outros sempre que nos seja possível.

Todos estes aspetos têm de ser considerados na forma como abordaremos este ano. Tendo assumindo o papel de CEO da Colt em maio de 2020, atirei-me de cabeça para o ecossistema digital e tive de aprender rapidamente a apoiar melhor os nossos clientes, os nossos parceiros e as nossas pessoas num contexto que estávamos a viver pela primeira vez, e os livros de gestão sobre este tema ainda não foram escritos. Esse esforço, para mim, centrou-se sobretudo em pensar nas ligações. Não apenas nas ligações físicas da nossa rede de comunicações, mas também, e sobretudo, nas ligações que temos uns com os outros, com os nossos parceiros e com os nossos fornecedores que fazem parte e alimentam o nosso ecossistema digital. Isto levou-me a olhar para dentro da Colt e a falar com as nossas equipas sobre como poderiam contribuir para melhorar e otimizar a nossa organização. Também me fez pensar nos pilares que sempre estiveram no ADN da Colt e na forma como nos podemos basear neles, para garantirmos que o nosso negócio mantém o nível de agilidade necessário para apoiarmos os nossos clientes à medida que estes avançam no seu desenvolvimento.

Apesar de, por vezes, ter sido muito desafiante liderar uma empresa neste preciso momento histórico, também tem sido um verdadeiro privilégio. Não só a Colt tem uma posição crítica no ecossistema digital, como também pode desempenhar um papel crucial na criação de um sector que alimenta a forma como o mundo funciona, contribuindo para tornar os nossos ambientes mais inclusivos, mais conectados e mais transformadores do que nunca.

(*) CEO da Colt Technology Services

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