Por Luís Pinto (*)

Em 2023, temas como a inflação, a guerra, os juros e as eleições, fizeram parte da nossa realidade, quer seja nas conversas em casa, no trabalho ou nas notícias. No final de 2022, teria sido fácil prever que estes assuntos estariam na ordem do dia, mas houve um que parece ter aparecido de surpresa para muitas pessoas: a inteligência artificial. Abordar uma ferramenta como a inteligência artificial passa por compreender o seu potencial de transformação social e profissional como algo nunca antes visto. De todas as inovações tecnológicas, esta é, efetivamente, a primeira tecnologia que tem a capacidade de decidir sozinha, quer seja sobre temáticas para o bem maior ou não. A nós, cabe-nos apenas dar-lhe essa liberdade. Com a habilidade de “pensar” num fluxo muito parecido ao do nosso cérebro, acabará, inevitavelmente, por se tornar mais inteligente do que a própria espécie humana. Por estes motivos, é essencial que nos permitamos a refletir sobre os seus impactos.

Tem existido, sem dúvida, um maior despertar sobre a Inteligência Artificial enquanto ferramenta potencializadora do nosso trabalho, o que, espero eu, levará à preparação das massas para a transformação que está a chegar. Isso nota-se, especialmente, na vida profissional. Contudo, para perceber tal disrupção, e também a velocidade a que irá ocorrer, é preciso não descartar uma das áreas onde a IA poderá ter mais potencial, mas que parece ser ainda um campo por desbravar: a educação.

Enquanto profissional na área tecnológica, estas são questões que me suscitam particular interesse, por estar ciente do impacto que a tecnologia pode (e deve) ter na educação. No decorrer do ano passado fiz três masterclasses/webinars na Code for All_ - academia que atua na área da educação tecnológica e que irá continuar a promover, este ano, iniciativas de debate sobre as tecnologias emergentes - onde me desafiei precisamente a pensar um pouco mais a fundo sobre o impacto da IA na educação. Este não é, de todo, um tema fácil, principalmente porque sabemos o panorama da educação em Portugal e o atual défice de professores. Contudo, é urgente que seja abordado e discutido, para que consigamos preparar os atuais alunos para o futuro, onde a tecnologia será uma realidade absolutamente inegável. Neste sentido, para analisarmos a inteligência artificial na educação a longo prazo, deverão ser feitas algumas perguntas.

Em primeiro lugar, em 2024 devemos questionar os encarregados sobre a educação que querem para os seus filhos. Se deixarmos de ter professores, por exemplo, de Geografia, deveremos estar abertos para que uma Inteligência Artificial assuma essa posição? De facto, esta é uma ferramenta que consegue dar atenção individual a cada aluno, percebendo a melhor forma de ensinar de acordo com os diferentes ritmos de aprendizagem. A isto, junta-se o facto de conseguir criar imagens ou vídeos que ajudem à compreensão da matéria. Posto isto, se daqui a vários anos a IA conseguir ter melhores resultados do que um professor (que está condicionado pelas condições do próprio sistema educacional), qual será a escolha do encarregado de educação?

É ainda mais pertinente, a longo prazo, compreender o papel da escola na nossa vida. É um facto que estamos a poucos anos de cada um de nós ter um assistente digital, sempre conosco, que nos poderá esclarecer qualquer dúvida, que nos poderá ensinar praticamente tudo. Tendo isto em conta, deverá o método de avaliação nas escolas focar-se maioritariamente no “conhecimento martelado na cabeça dos alunos” ou expandir para outras competências, como as competências sociais ou até o pensamento criativo ou crítico, que tão importantes serão num futuro próximo?

Poucas “áreas” são tão importantes na nossa vida quanto a educação, mas esta é também uma área onde existe uma enorme resistência à evolução. Numa fase em que é cada vez menos apelativo estudarmos para sermos professores, como podemos usar a IA para ajudar profissionais de educação e alunos? Eu não tenho uma resposta certa, mas estou disposto a juntar-me a todos aqueles que queiram encontrar a solução… que é aquilo que muitas vezes fazemos na nossa vida escolar.

(*) CTO da genesis.studio.

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