Por Nuno Batista (*)

Startups, Fintech, Blockchain, unicórnios. Depois de uma semana de Web Summit em Lisboa que considero positiva profissionalmente com muita informação nova acerca de temas importantes como a inteligência artificial, ciber-segurança ou proteção de dados, deixo algumas notas sobre o que encontrei dentro e fora das portas do evento.

Para os estrangeiros, Lisboa é um local agradável onde se vê um esforço para que as coisas corram bem. Para quem cá fica, este esforço para agradar quem vem de fora deixa pouca coisa para além do óbvio retorno comercial dos 70.000 visitantes da edição deste ano. Ainda assim, existem muitos pontos positivos:

  1. A Web Summit traz muita gente a Portugal. O Aeroporto está cheio, os hotéis lotados, os restaurantes sem sítio onde sentar mais gente. É como uma segunda época alta, diz o presidente da câmara. Tudo isso justificam os 110 milhões investidos para que a conferência fique mais 10 anos.
  2. A FIL e o Pavilhão Atlântico merecem eventos como este. São locais bem feitos de raiz com capacidade e qualidade para receberem 70.000 pessoas sem problemas.
  3. A expansão da FIL é perfeitamente compreensível para manter a zona interessante, atual e moderna para estes eventos e outros ainda maiores.
  4. Durante estes dias vê-se muito do que é ser português: saber receber, saber servir, não ter medo de trabalhar. Muitos voluntários portugueses dispostos a fazer o que for preciso para que nada corra mal.
  5. Muitos engenheiros portugueses a garantir que as infra-estruturas funcionam. É das poucas conferências onde o Wi-Fi funciona o que para 70.000 pessoas não deixa de ser impressionante.

Quando passamos as portas, contudo, a realidade é diferente e o valor para as empresas portuguesas reduz drasticamente:

  1. Não existe uma comissão que organize a representação portuguesa no evento. Isto significa que diferentes órgãos e iniciativas nacionais que quiseram marcar presença como foi o caso do Invest Leiria, ficaram num canto, enquanto outros como o Invest in Azores ficaram noutro sem qualquer tipo de coerência. Iniciativa Made of Lisboa? outro canto.
  2. As startups portuguesas não estavam agrupadas ou identificadas como tal, algo que foi feito, por exemplo, pela França ou Espanha. Curioso que as startups apoiadas pela Altice tenham ficado à frente do seu stand, devidamente identificadas.
  3. À excepção de 2 ou 3 PMEs como a Outsystems, não existe nenhuma empresa de relevo portuguesa: a PT (agora Altice), a Fidelidade ou a EDP já não são nossas e empresas como a Sonae ou a Galp não marcam presença.
  4. Tal como as empresas, também a lista de oradores e convidados carece de expressão portuguesa. À excepção do André Villas-Boas apenas o CEO da Altice (patrocinador) tiveram oportunidade de partilhar as suas ideias em palcos de relevo e existem tantos portugueses a mostrar serviço na área do digital com coisas interessantes para partilhar.
  5. A mesma realidade aplica-se às empresas asiáticas, impossíveis de ignorar no panorama tecnológico internacional e que simplesmente não acharam interessante vir a Lisboa. Falar hoje de tecnologia e não falar do Alibaba ou WeChat parece ignorar uma parte significativa da indústria.
  6. Também consequência do motivo anterior, não existe nada que assegure que a Web Summit daqui a 10 anos será relevante, pois a fórmula não parece difícil de replicar. O investimento realizado prevê o aumento para 100 mil participantes por edição mas é apenas uma previsão baseada no crescimento dos últimos anos. Algum dia terá de estagnar.
  7. Fica a impressão que a organização do evento não tem especial carinho por Portugal: o Paddy Cosgrave que não é capaz de dizer um “boa tarde” em português no dia da abertura e recebi vários emails com erros ortográficos quando fazem referência a locais na cidade, como “Cais de Sodres”. Isto leva a crer que a equipa organizadora não é propriamente constituída por portugueses.

A tecnologia, inovação e empreendedorismo é vista pelo governo como um escape para anos de estagnação ou retrocesso económico e a Web Summit uma espécie de bandeira para concretizar esta visão. Assegurar o evento por mais 10 anos era claramente importante para combater a ideia de um país atrasado e projetá-lo como inovador.

Por outro lado, o otimismo excessivo relativamente à tecnologia é perigoso e isso vê-se no discurso de António Costa: tentar convencer empresas para se estabelecerem em Portugal porque temos excelentes comunicações é pensar que os portugueses têm memória curta ou o Siresp já funciona? Mas a culpa não é só dele: sintonizar a Rádio Renascença às 9h e ouvir dizer que podem encontrar a próxima “empresa unicórnio” é incompreensível.

Existe uma grande diferença entre ser o anfitrião do evento e tirar partido do que se passa lá dentro e Portugal neste momento fica-se pelo primeiro. Já que nos comprometemos a ter a Web Summit em Lisboa por mais 10 anos, tente-se também organizar comitivas, convidar portugueses com cargos de relevo na área ou apoiar projetos de universidades. Não se compreende como é que a Universidade de Aveiro tem vindo a ser durante anos um pólo de tecnologia e robótica e não venha a Lisboa mostrar o que anda a fazer.

E não menos importante, tente-se ensinar a quem cá vem como se diz “Good morning” em português e que se aperceba que a FIL é em Portugal, pois a única bandeira portuguesa em destaque é a que está desde 1998 no Summit da torre Vasco da Gama.

(*) Digital Marketing Specialist no Swatch Group

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