A WeDo Technologies reúne por estes dias em Lisboa mais de 400 especialistas de telecomunicações e de outras indústrias, oriundos de 50 países, para o 10º encontro de utilizadores que a tecnológica portuguesa organiza anualmente.

Este ano a grande novidade é o alargamento das soluções de Enterprise Business Assurance a outras indústrias onde a WeDo Technologies não tem histórico. A propósito da forma como a empresa está a montar a estratégia, Rui Paiva falou com o TeK numa entrevista curta mas onde houve tempo para perceber o caminho que o CEO da tecnológica quer fazer nos próximos anos e avaliar o que falha na estratégia das empresas portuguesas para conseguir chegar a uma dimensão e estatuto semelhante ao da WeDo.

TeK: A WeDo avançou com alargamento a outras áreas verticais em outubro. Como está a correr e a captação de novos parceiros

Rui Paiva:
Em relação ao nosso plano inicial estamos atrasados um ano, por razões internas e também para preparar a tecnologia. Só começámos o processo de alargar verdadeiramente as áreas a partir de outubro do ano passado e o que estamos a fazer, e vamos finalizar em junho, é a parte toda processual: ver o que são as metodologias, os certificados, os processos e as formações para preparar tudo para que, nos sectores fora das telecomunicações, possamos usar um canal indireto. Não é só o software que tem de ser adaptado às novas áreas e, para ser um terceiro a implementar, como temos de certificar o parceiro.
Por isso vamos começar a ser efetivos a partir de junho e diria que até final do ano gostava que tivéssemos os parceiros principais já todos preparados para que efetivamente o grande resultado comece a acontecer durante o ano que vem. Já temos várias referências, algumas das quais são apresentadas hoje, mas isso foi principalmente para provarmos a nós próprios que a tecnologia permite fazer tudo. Agora é preciso é realizar aquilo em que somos bons: somos bons a fazer software e a perceber do mercado de telecomunicações, não tem sentido fazermos as outras coisas que não fazemos bem, portanto desenvolvemos o software e os melhores integram.

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TeK: E qual é a vossa ideia em termos de número de parceiros? Referiu os big five. A vossa ideia não é ter milhares de parceiros como tem uma Microsoft ou uma SAP?

Rui Paiva:

Não porque o nosso tipo de negócio não é dirigido às PME. O típico negócio da WeDo tem um investimento inicial de meio milhão de euros. Por isso estamos a dirigir-nos aos big five mundiais, considerando depois que em mercados locais há também empresas deste perfil, como em Portugal acontece com a Novabase, por exemplo, que é relevante. E há “Novabases” de outros países em que eventualmente faz sentido estabelecer parcerias. A Novabase não é nosso parceiro neste processo mas eventualmente poderá vir a ser.

A nossa ideia é fazer acordos com os parceiros globais que transportam o know how e depois eventualmente com um ou dois dos maiores locais.

TeK: Não corre o risco de perder identidade? A história da WeDo está muito sustentada no know how das Telecom e com este alargamento a outras áreas, onde não tem histórico, pode perder essa mais valia.

Rui Paiva:
Não porque vamos manter a nossa área core. Tudo o resto é sustentado no mesmo produto. A base tecnológica é exatamente a mesma. A diferença é que nas telecomunicações nós já temos pré-configurações pré-feitas e nas outras não teremos. Eu diria que mais à frente vamos convergir para todas as áreas terem configurações pré-feitas porque os parceiros que vamos trazer para acelerar o negócio, e o que incorporamos na tecnologia, já vem ser pré-feito. Mas nessa altura eventualmente a dimensão já será tão grande que também a tecnologia já será integrada por terceiros.

TeK: Que expectativas têm em termos de metas num futuro próximo para o crescimento destas novas áreas fora das Telecom?

Rui Paiva:
Nós achamos que até 2020, ou 2021 porque estamos atrasados um ano, pelo menos 40% do negócio já terá de vir dai.

TeK: E estas áreas de utilities, healthcare e sector financeiro serão as principais? Ou outras áreas podem surgir num futuro próximo?

Rui Paiva:
Eu acho que serão os parceiros que nos vão levar para novas áreas, nós não podemos fazer as coisas todas. Neste momento estamos focados a preparar estas áreas e depois acho que naturalmente o mercado vai procurar porque a tecnologia é agnóstica.

Estas soluções aplicam-se a empresas que têm muitos sistemas para trás e tem muitos clientes. A complexidade é que faz estas falhas todas. Nós usamos internamente, mas uma empresa como a nossa, que tem poucos clientes, é B2B, não tem muita lógica.

Nós temos um cliente russo que tem 100 milhões de clientes. Nós aqui podíamos instalar isto na Direção Geral de Contribuições e Impostos que tem 10 milhões e isso demorava uma tarde.

TeK: Apesar da aposta nas novas áreas o evento destes dias tem sobretudo pessoas da área das telecomunicações e ainda pouca representatividade de outras indústrias.

Rui Paiva:
Sim porque ainda continua a fazer sentido juntar tudo, pelo que confluímos em alguns momentos, e esta é uma comunidade que tem experiências para contar e que tem já uma dimensão significativa.

TeK: Em termos da evolução do negócio, a perspetiva de crescimento para este ano é como referiu de 10%?

Rui Paiva:

10% para Portugal é ótimo mas globalmente não. Eu acho que temos de crescer pelo menos 20%. Temos isso em orçamento e estamos a lutar para isso. Temos de ver que estamos no início do ano e tipicamente a maior parte da receita fazemos no final do ano, pelo que estamos on track.

TeK: Que expectativas têm em relação à vossa presença internacional? Vão alargar o número de países onde têm escritórios, e pagam impostos, e o número de colaboradores? As novas áreas de negócio têm influência?

Rui Paiva:

Vamos continuar nos mesmos países onde estamos [são 12] mas vamos é ter mais pessoas fora. Já temos quase metade dos colaboradores fora e temos estado a recrutar mais a nível internacional, ou para a fábrica que é em Braga.

TeK: Nos últimos tempos a WeDo tem crescido mais organicamente, sem aquisições significativas. Estão a considerar novas compras?

Rui Paiva:

Estamos sempre a considerar mas por enquanto eu acho que conseguimos continuar a crescer organicamente. Tem sentido é contratarmos pessoas muito boas que nos ajudem a fazer canal, fomos buscar algumas pessoas muito boas à Microsoft, o que é a melhor forma de internacionalizar conhecimento.

TeK: Fugindo agora da WeDo e passando à Sonae SSI, a aquisição recente da S21sec já está a dar frutos? Terminaram a integração dentro do negócio?

Rui Paiva:

Estamos ainda em processo de integração porque esta é uma área complementar. Basicamente o que fazemos é comprarmos áreas que sentimos que são trend de mercado e têm crescimento, e com tantos dados hoje em dia há duas áreas de interesse que são a segurança e o analytics. Do ponto de vista do business plan era uma empresa que tinha um conjunto de problemas e por isso mesmo conseguimos entrar e estamos a “limpar” tudo isso. Este ano será um ano de consolidação da limpeza e o próximo é um ano, esperamos nós, de crescimento.

TeK: Com a nova legislação de data breach esta área tem também tendência a crescer…

Rui Paiva:

O mundo está a mudar muito nesta área, a privacidade dos dados e controlar isso mesmo, até porque os problemas são todos eletrónicos, já não se fazem só fraude física. É um caminho que para nós é muito relevante estar lá, mas é preciso aprender como é. Mas queremos na mesma lógica: que tenha por base um produto e que esse produto seja global. Eles têm uma base de serviço mas também de produto e neste momento estamos a desenvolver a tecnologia para isso.

TeK: Olhando para as empresas portuguesas não vemos a mesma capacidade que a WeDo tem de encher uma sala como esta, com uma representação tão importante de uma indústria como as Telecom e de tantos países. O que é que diferencia e como se pode “replicar” o modelo?

Rui Paiva:

Sim, é verdade como tanta gente e de tantos países não há ninguém. Há uma coisa que é importante dizer: grande parte das empresas de tecnologia no mundo inteiro são feitas para ser vendidas e não para ser grandes. Outro negócio que existe muito similar é o da biotecnologia. Nesse aspeto as empresas portuguesas não são diferentes porque o grande evento é a venda.

Depois há outra coisa: a maioria das empresas portuguesas são de serviços, e essas não podem escalar, não tem lógica, sobretudo num país que não tem massa crítica. Têm de ser empresas de produtos e dessas há poucas.

Se eu fizer uma lista existimos nós, a Outsystems, a Altitude Software, Primavera e PHC e essas assim. Mas há poucas. E nestas empresas, quando o desígnio é crescer, tem de se investir muito e delapidar os resultados em troca do investimento. Normalmente as pessoas querem fazer cash-in e para isso não podem fazer investimento. Nós investimos em marketing e promoção cerca de um milhão de euros por ano. Este evento que está aqui custou 250 mil euros.

É preciso também convencer os acionistas e não é fácil porque os ciclos de crescimento custam. Mas esta história de conseguir produto, que seja multi-mercado, configurado com espaço para parceiros, é um trend único. Eu acho que se conseguirmos fazer bem isso podemos fazer um caso sério de uma empresa de software no mundo. Não sei, mas acho que nós vamos fazer uma história.

Quando desenhámos a empresa, quando começámos, definimos a empresa processualmente. Fizemos o desenho todo. Tínhamos a vantagem de que tínhamos trabalhado todos em multinacionais e tínhamos trazido esses métodos. Não há muitos casos de pessoas que se tenham despedido de multinacionais para fazer isto, porque mesmo nós ganhávamos mais dinheiro nas multinacionais do que aqui.
A mim o que me motivou, e a muitos outros, foi que víamos que a decisão era sempre tomada fora. Porque trabalhar numa multinacional aqui em Portugal não é desafiante. Ganha-se dinheiro mas não há o desafio para o “brain”. Nós quisemos fazer o contrário: se a Microsoft tem uma sede em Redmond porque é que nós não podemos ter uma sede aqui?

Fátima Caçador

Nota da Redação: foi corrigida uma gralha no nome da OutSystems

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