Nos últimos meses quatro start-ups portuguesas viram os seus projetos reconhecidos fora do país quando foram escolhidas pelo Seedcamp para depositar investimento e ajudar a concretizar as metas dos seus planos de negócio.



Criado em 2007, o Seedcamp é um dos maior fundos europeus de micro seed investing e mentoring, garantindo não apenas apoio financeiro a projectos em início de vida, mas também apoio ao nível da operacionalização do negócio, ligação aos mercados, adequação e divulgação dos produtos e serviços que fazem cada negócio.



"O Seedcamp é uma porta para conhecer as pessoas mais influentes do ecossistema de start-ups europeu. Isto por sua vez permite acesso mais facilitado a investimento (85% das empresas do Seedcamp receberam investimento subsequente e a mentorado", confirma Jaime Jorge, fundador da Qamine, uma das empresas apoiadas.



Na sua opinião esta será sobretudo uma oportunidade que "nos ensina a falar e andar como as melhores start-ups a nível mundial" e uma espécie de selo de garantia, que credibilizará a oferta das empresas apoiadas junto dos clientes.



Desde que foi lançado, o fundo ajudou a lançar 80 start-ups. Em novembro selecionou três empresas portuguesas e em setembro já tinha feito o mesmo com outra. A primeira foi escolhida ainda num evento em Londres, mas as três start-ups selecionadas em novembro já tiraram partido do lançamento do programa em Portugal, graças a uma parceria com a associação portuguesa de empreendedorismo Beta-i.



Além da Qamine, CrowdProcess, Hole19 e Simpletax dão nome aos projetos escolhidos. O TeK falou com os promotores para conhecer cada uma das propostas um pouco melhor.



Qamine

O produto desenvolvido pela Qamine é um software de teste que ajuda os programadores a identificar bugs ao longo de um código de programação. Apresenta-se como uma plataforma de serviços que propõe padrões de correção, de forma automática, e pode ser usada independentemente da linguagem de programação.


Jaime Jorge, que juntamente com João Caxaria desenvolveu a tecnologia, explica que a maior inovação na oferta da Qamine é a não intrusividade."A grande maioria de ferramentas que detetam bugs ou ajudam programadores a desenvolver código requere mudanças no workflow do desenvolvimento. Isto é, o developer tem de se lembrar de executar a ferramenta e navegar pelo mar de resultados que estas muitas vezes dão", explica Jaime.


A ideia aqui é garantir que os developers não têm de estar preocupados com o funcionamento da ferramenta: sempre que há alterações no código esta corre de forma automática.


Com o investimento do SeedCamp, cujo valor não revela, a dupla vai investir em infraestrutura, escritório, deslocações a clientes e na sua primeira contratação. Até à data a aposta tem sido no desenvolvimento do produto, apoiado numa estrutura simples e flexível e sem grande aposta na divulgação. Por opção mas também por não ser fácil encontrar os recursos certos. "Um dos grandes problemas foi formar uma boa equipa motivada", admite Jaime Jorge.



"É difícil reter talento técnico em Portugal sem oferecer um salário atrativo. A falta de engenheiros informáticos só agrava este problema", acrescenta o responsável. Apoiada no financiamento, a equipa procura agora bons engenheiros e markteers para prosseguir com o negócio, que se aproxima de uma milestone importante.



"Estamos a incluir várias pequenas empresas (já registadas no serviço online) do nosso segmento cloud (empresas que alojem o seu código na cloud em serviços como o Github) e uma grande empresa no nosso segmento enterprise", explica Jaime Jorge.

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CrowdProcess

O conceito na base do negócio da CrowdProcess também é inovador. A empresa desenvolveu um sistema que tira partido da capacidade instalada em computadores, através dos browsers aí instalados, para construir uma plataforma de supercomputação. A ideia é democratizar a supercomputação, tornando-a mais acessível e mais barata: multiplica capacidade de processamento disponível, que pode ser usada para fins específicos, tirando partido de recursos que não estão a ser usados.



A ideia surgiu a um dos membros fundadores para responder a uma interrogação que o próprio colocou: "e se fosse possível agregar a computação de vários computadores através do browser?".

Da pergunta o grupo tentou passar a uma afirmação e rapidamente ganhou apoio de amigos e outras pessoas próximas que ajudaram a tornar possível o projeto.



"Não foi fácil, mas a partir do momento em que a tecnologia existe, funciona e sabemos o potencial que ela tem resta-nos trabalhar em cima disso. E tentar estar à altura da ideia", explica Tiago Carlos, um dos fundadores.

E pelos vistos têm estado, porque antes do SeedCamp o reconhecimento já tinha começado a chegar, como mostra a distinção no NOVA Idea Competition, um concurso de planos de negócio da Universidade Nova de Lisboa, a Universidade em que a maior parte dos membros da equipa estudou e se conheceu.

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"Suor, massa cinzenta, pontas dos dedos, pestanas. E dinheiro, claro" têm sido os ingredientes chave para desenvolver o projeto, já no terreno.



"Neste momento estamos a ganhar tracção já com várias centenas de utilizadores, fornecedores de computação, mas o nosso foco neste momento é com alguns clientes-protótipo", detalha o responsável.



Estes clientes, como explica, vão ajudar a fazer o "batismo de fogo" da plataforma que é uma das prioridades de momento. Para além disso, os planos da Crowdprocess passam por criar um mercado de computação distribuída que satisfaça necessidades nos mais variados setores, como sejam a biotecnologia, energia, banca, saúde, entre outros. "É um negócio pensado para um mercado global", explica Tiago.


O ritmo de desenvolvimento do projeto, que neste momento conta com cinco pessoas, será determinado à medida das necessidades dos clientes "sejam eles grandes centros de investigação, grandes empresas, investigadores individuais ou até entusiastas e curiosos".



Hole 19



A Hole19 será talvez a empresa mais conhecida no leque das quatro escolhidas pelo Seedcamp para investir. O Golf está no centro da proposta desta empresa portuguesa que desenvolveu uma aplicação (web e móvel) para os amantes da modalidade ou para quem está a apender. A ideia é centrar na aplicação um conjunto de serviços ligados à modalidade.



Alguns já estão disponíveis, outros em preparação. E o investimento do Seedcamp dará uma ajuda, sobretudo ao nível da equipa, desenvolvimento de produto e para promover um roadshow nos Estados Unidos em 2013. "Também já estamos a negociar com os maiores fornecedores de reservas de campos de golfe (tee-times) da Europa", explica Anthony Douglas, fundador.



Para já a plataforma soma 1.000 clientes e mais uns 2.500 utilizadores. Está disponível em oito mercados: Suécia, Alemanha, Reino Unido, Holanda, Espanha, Portugal, Hungria, Luxemburgo e tem o suporte de uma equipa de cinco pessoas.



Várias distinções marcam o percurso de internacionalização como o prémio Criativas Unicer/Serralves, o Vodafone Mobile Clicks em Portugal, o Top 7 mobile startups da Europa ou uma menção honrosa no prémio SIM da Samsung.



Montar uma equipa sólida, escalar o produto para além de Portugal e levantar capital têm sido os principais desafios na vida da Hole19, assume Anthony Douglas, revelando que, antes do SeedCamp a Hole19 já tinha garantido um investimento (próprio) de 100 mil euros.





Simpletax

Em setembro também a Simpletax tinha recebido apoio do fundo europeu. O que atraiu o Seedcamp foi a solução de preenchimento das declarações de impostos que já está disponível em Portugal (Modelo3), agora em formato internacionalizável. O objetivo é chegar a 35 milhões de clientes, somando o número potencial de clientes em Portugfal e no Reino Unido. Quando em setembro participou no Seedcamp em Londres a empresa já levava um número interessante de utilizadores no portefólio, pouco habitual em empresa tão jovens, como puderam constatar por comparação com as restantes empresas participantes.


Com o novo investimento será possível saltar etapas e procurar alcançar novos objetivos. Acelerar o desenvolvimento do produto, através da contratação de novos recursos, é um dos objetivos. Reduzir o risco dos canais de distribuição para entrada no mercado do Reino Unido é outra prioridade.


Disponíveis para a tarefa estão 50 mil euros. "O Seedcamp aplica investimentos iniciais de 50.000 euros nas empresas que apoia, sendo que a nossa não foi exceção", explica Celso Pinto, fundador.

Em março a empresa, agora com oito pessoas, já tinha também garantido um investimento de 20.000 euros que chegou para provar o conceito no mercado português. "No espaço de algumas semanas já tínhamos atingido o break-even do investimento com a faturação conseguida", revela Celso Pinto.



"Entendo que nem sempre seja fácil ou óbvio identificar formas de faturar por um serviço online, no entanto posso afirmar que o facto de termos obtido este resultado teve bastante peso na nossa aceitação para o Seedcamp e no que tem acontecido desde então", identifica o responsável.


O primeiro investimento foi pessoal, dos responsáveis do projeto e, como refere Celso Pinto, terá sido uma das maiores dificuldades do projeto até à data: os sacrifícios pessoais dos fundadores para implementar a ideia. A decisão foi certa, mas difícil, reconhece Celso Pinto.


Outra dificuldade reconhecida é a falta de abertura da entidade que opera o Portal das Finanças para suportar serviços externos. "Quando comparamos a realidade no Reino Unido e a nossa realidade, vemos que estamos a anos luz no que toca à abertura das plataformas governamentais a serviços de terceiros", acrescenta o responsável.



Escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

Cristina A. Ferreira

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