Nos últimos três anos dezenas de projetos juntaram empresas portuguesas, universidades nacionais e americanas e outros parceiros científicos, no âmbito das iniciativas de I&D realizados em articulação com três parcerias que Portugal mantém desde 2006, com a Universidade de Carnegie Mellon, MIT e Universidade do Texas em Austin. Estes projetos de I&D em larga escala receberam financiamento do Portugal 2020 e investimento das próprias empresas que, pela primeira vez no âmbito destes programas, foram chamadas a liderar projetos. Alguns dos resultados alcançados são já a base de novos projetos que vão continuar a desenvolver conhecimento nas respetivas áreas. Outros terminaram com produtos que chegaram ou estão prestes a chegar ao mercado.

É o caso do AEROS Constellation que serviu para desenvolver de raiz e preparar o lançamento de um novo nano satélite (CubeSat) que será o primeiro de uma constelação, operada a partir de Portugal e com tecnologia portuguesa, a recolher dados para monitorizar oceano e áreas geográficas costeiras. O CubeSat será lançado para o espaço no dia 2 de fevereiro do próximo ano pela SpaceX e será também o primeiro satélite da futura Constelação do Atlântico a entrar em órbita.

Do lado português, o projeto juntou IMAR, CEiiA, Air Centre, Spinworks, DSTelecom, +Atlantic, Universidade do Minho, do Porto, de Lisboa e do Algarve e IST. Mais a Edisoft, que liderou e que reconhece ter encontrado aqui uma oportunidade “em termos de engenharia para aprendermos a fazer uma missão de A a Z, que era uma experiência que não tínhamos”, como diz Hélder Silva, Head of Space Software and Embedded Systems da Thales Edisoft. Do lado americano, o parceiro foi o MIT, no âmbito das iniciativas do MIT Portugal, com quem a empresa acabou por manter a relação e reuniões semanais para preparar o lançamento de fevereiro, mesmo depois do projeto ter sido oficialmente terminado.

A Edisoft trabalha na área espacial desde 2006 e já participou em mais de 50 missões, mas esta foi a primeira vez que preparou uma missão do primeiro ao último momento. Cada um dos parceiros assumiu uma tarefa. A empresa tratou da integração de software e do software a bordo e já está a explorar oportunidades comerciais para tirar partido do conhecimento que adquiriu.

“Como estamos no grupo Thales pretendemos revender a nossa expertise e o nosso on board software para outros satélites do grupo”, adianta Hélder Silva.
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O CubeSat distingue-se de outros satélites pelos instrumentos que consegue combinar num satélite com as suas dimensões, o que faz dele uma solução mais versátil mas também mais barata. Tem capacidade para “três payloads, uma câmara hiperespectral muito pequena para os requisitos que tem, Software-defined Radio - que implementa dois protocolos distintos e uma câmara de RGB, que ajuda a posicionar a imagem tirada pela hiperespectral”. É uma configuração única, destaca o responsável da Edisoft.

A capacidade de recolher informação segmentada da câmara hiperespectral vai dar aos cientistas dados mais precisos sobre as alterações nos oceanos. Por exemplo, enriquecendo os dados disponíveis sobre as diferentes cores refletidas na massa de água, importantes para monitorizar alterações nos ecossistemas. À medida que forem acrescentados novos satélites à constelação será possível revisitar com mais frequência as mesmas áreas e ter mais informação em tempo real sobre os vários parâmetros analisados.

Safeforest começou na prevenção de incêndios mas é rastilho para soluções noutras áreas

Numa área completamente distinta, os resultados do Safeforest também devem continuar a ganhar escala nos próximos anos, mas neste caso porque o conhecimento desenvolvido neste projeto de I&D pode aplicar-se a várias áreas. Numa delas já permitiu criar um produto comercial.

Safeforest é sinónimo de Sistema Robótico Semi-autónomo para Limpeza Florestal e Prevenção de Incêndios e designa o projeto que se dedicou a criar uma solução inovadora e de baixo custo para monitorizar e reduzir o risco de incêndios florestais, facilitando a conservação e manutenção de florestas. Foi pensado para agilizar a limpeza de florestas mas também de outras infraestruturas críticas para reduzir a probabilidade de propagação de grandes incêndios, como habitações, estradas, caminhos-de-ferro ou linhas de telecomunicações.

Juntou a Ingeniarius, que liderou o projeto, o Instituto de Sistemas e Robótica, a Associação para o Desenvolvimento da Aerodinâmica Industrial, a Silvapor e o The Robotics Institute na Carnegie Mellon University.

O sistema tem várias "peças", desenvolvidas por diferentes parceiros do consórcio, que no projeto encontraram e testaram formas de as pôr a trabalhar em conjunto. O sistema robótico centra-se numa máquina cuja componente mecânica já tinha sido desenvolvida pela Ingeniarius e que, no âmbito do projeto, foi integrada com outro sistema (de drones), que recolhe no terreno dados essenciais para a programação de rotas.

Na prática, as equipas de drones fazem o mapeamento das áreas a limpar e a carregadeira de lagartas remove vegetação indesejada com recurso a um destroçador florestal, seguindo a rota criada a partir dos dados recolhidos pelos drones, que entretanto já foram analisados por inteligência artificial para definir percursos que evitem árvores e outros obstáculos.

Integrar estes sistemas e encontrar forma de tirar partido dos inputs de um para melhorar a ação de outro foram os grandes ganhos da colaboração.

“Durante o projeto fizemos vários testes, para confirmar a capacidade de mapear corretamente rotas, definir com rigor o que deve ou não ser removido pelo robot e validar a capacidade para executar no terreno os planos traçados pelo sistema”, explica Micael Couceiro.

O CEO da Ingeniarius acredita que no futuro o protótipo passe a produto final. É preciso amadurecer a solução, mas também encontrar quem esteja disposto a investir no gigante de quase 4 toneladas que é o robot usado no projeto. Enquanto isso, a tecnológica vai tirando partido do software de navegação e perceção do robot desenvolvido no projeto para aplicar a soluções noutras áreas.

Ajudou já uma empresa do Luxemburgo, a colocar no mercado um robot autónomo para a limpeza de painéis solares com versões para solo e telhados, o F1A e o P1A. Na pecuária, a tecnológica que desenvolve soluções de engenharia e robótica à medida, quer usar a tecnologia num sistema para limpeza de vacarias e está a olhar ainda para a construção civil.

K2D pôs a DSTelecom a ver o fundo do mar com outros olhos (e planos)

A DSTelecom também acredita que pode ir longe com os resultados do projeto de I&D que liderou no âmbito das iniciativas do MIT Portugal, o K2D: Knowledge and Data from the Deep to Space. Se no Safeforest o desafio partiu dos parceiros da academia, no K2D foi a empresa de telecomunicações a lançar a ideia e a procurar parceiros para a materializar numa solução real. O K2D dedicou-se ao desenvolvimento de um sistema de monitorização dos oceanos, que pode vir a funcionar a uma escala global. O sistema tira partido de Cabos Submarinos Inteligentes, equipados com sensores conectados aos repetidores óticos.

O último protótipo foi concluído recentemente, com o apoio da Marinha Portuguesa e instalou um cabo submarino inteligente com 2km de comprimento nas imediações do porto de Sesimbra, em mar aberto e com profundidades que em algumas zonas são superiores a 100 metros. Uma infraestrutura deste tipo pode recolher dados em tempo real sobre sismos, tsunamis, fauna marítima, poluição, circulação de embarcações, submergíveis, ou temperatura da água, entre outras.

A empresa começou a olhar para o tema que a levou ao projeto de I&D como uma oportunidade para criar uma proposta de maior valor, numa área de negócio adjacente àquelas onde já está. Hoje admite a possibilidade de vir a criar uma empresa à parte para explorar o potencial da solução desenvolvida.

A DSTelecom opera uma rede de fibra usada por operadores de telecomunicações para fornecerem serviços em zonas de baixa densidade populacional. A infraestrutura cobre 800 mil casas em 140 concelhos, com planos para chegar às 900 mil, mas sabe que neste domínio a margem de crescimento vai esgotar-se dentro de algum tempo. A “estratégia para o futuro passa por crescer em áreas adjacentes”, tentando replicar o modelo de negócio da fibra nas comunicações sem fios, mas também olhando com interesse para as ligações marítimas, admite Ricardo Salgado.

“Posicionamos-nos para ser o parceiro que podia investir na substituição e gestão dos cabos submarinos que ligam o continente e as ilhas. Procuramos manifestar ao governo e ao regulador essa disponibilidade e foi na sequência disso que o regulador nos desafiou a acrescentar algo de novo a uma possível proposta para uma nova infraestrutura desse tipo”, revela o CEO da DSTelecom.

Os contactos e desenvolvimentos seguintes deixam pouca esperança à empresa de que venha a ser o parceiro escolhido para o projeto, mas a solução entretanto desenvolvida no consórcio de I&D pode ter aberto caminho para explorar oportunidades numa nova área.

Esta experiência permitiu-nos “perceber que hoje há um potencial de negócio associado à captura e tratamento de dados até superior àquilo que é o negócio de transmissão de dados por cabos submarinos. São outros tipos de stakeholders, como institutos, marinhas, governos, mas há muito interesse”, reconhece Ricardo Salgado.

O responsável adianta que a operadora está a “procurar perceber a melhor forma de dar continuidade” ao trabalho realizado, mas não descarta a hipótese de vir a fazer um spin-off e a criar uma nova empresa dedicada a esta área.

O K2D reuniu além da dstelecom, a Universidade do Minho, o INESC-TEC, ASN – Alcatel Submarine Cables; AIR CENTRE – Associação para o Desenvolvimento do Atlantic International Research Centre, Universidade dos Açores, o MIT e o Cintal – Centro de Investigação Tecnológica do Algarve.

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