Os números mostram que há ainda mais de 20% de infoexcluídos em Portugal, que nunca utilizaram a Internet porque não têm meios ou não têm interesse, mas isso dificilmente se verifica entre os participantes da conferência “A Internet é um lugar Estranho”, hoje organizada pela Associação DNS.pt, que faz a gestão do domínio de topo de Portugal na Internet (o .pt) que assinala os 30 anos de existência.

E será a internet um lugar estranho ou um espaço onde todos nos movimentamos já sem o distinguir do espaço físico? Curiosamente as pessoas ainda referem que “vão à Internet” e essa foi uma expressão por várias vezes utilizada durante a primeira parte da conferência na NOVA SBE, em Carcavelos. Mas notou-se também algum receio e retração na comunicação online, mesmo por quem “nasceu na Internet”, pelo menos como personalidade pública, como acontece com a autora do blog A Pipoca mais Doce. E até Pedro Boucherie Mendes, jornalista e "um simples utilizador da internet", admite que já foi ameaçado de morte duas vezes na Internet pelas suas opiniões, e que já pensou arranjar uma forma de processar alguém “e talvez um dia o faça só para dar o exemplo”. Entre as intervenções e as perguntas do público parece que o pior da Internet podem ser as pessoas.

Ana Garcia Martins, autora do blog A Pipoca mais doce, admite que a Internet se transformou “num lugar muito estranho onde é difícil estar”. Há 15 anos, quando criou o blog, havia uma leveza diferente, as pessoas usavam a internet para se divertir, e hoje fazem-no para se indignarem e arranjarem polémicas, o que é complicado para quem tenta debater temas mais corrosivos.

“Há muitos insultos”, afirma, garantindo que hoje se retrai muito mais no que escreve e tenta estar nas redes de forma diferente, protegendo-se. “Estou uma pipoca mais contida. Antes de escrever alguma coisa penso 550 vezes se alguém se vai sentir ofendido”, afirma, exemplificando que se escreve “Bom dia Lisboa, está um dia fantástico”, alguém no Porto se sente indignado porque está a chover e ela não sabe o que é uma vida difícil.

Pedro Boucherie Mendes tem uma visão mais positiva da internet, que defende ser “o melhor instrumento que há para a democracia e conhecimento”, e aponta as múltiplas vantagens que a abertura do acesso à informação permite, com a possibilidade de pesquisar tudo para ter múltiplos pontos de vista e dos alunos irem além da doutrina única imposta pelos professores que vigorava quando estudou na Universidade Nova. Ou para conhecer pessoas interessantes e até meter conversa com uma rapariga, ou um rapaz, o que era mais difícil antes da Internet.

Mas há pontos negativos, e lembra que há uma relação estranha com as figuras públicas, porque “as pessoas acham-se no direito de nos contestar de forma violenta”. Explicando que já foi ameaçado de morte duas vezes afirma que já pensou em arranjar uma forma de processar alguém, e que talvez um dia o faça, para dar o exemplo.

“Há um sentimento de impunidade total, pode detrás do ecrã as pessoas pensam que podem dizer o que querem e dizem as maiores barbaridades”, afirmou Ana Garcia Martins, que explicou que já foi expulsa de um grupo de mães pelos comentários que fez nas redes sociais e que seria importante responsabilizar as pessoas pelo tipo de comentários e agressões verbais. A blogger diz que ficou a saber que as pessoas mesquinhas que se veem nas telenovelas realmente existem através deste tipo de comentários, e afirmou mesmo que basta alguns cliques para descobrir quem as pessoas são, onde moram, onde trabalham, defendendo até que as empresas deviam poder despedir com justa causa os colaboradores com base no tipo de comentários que fazem.

O tema do Artigo 13, da legislação de Direito de Autor que está a ser preparada na Europa, também foi abordado e Pedro Boucherie Mendes desvalorizou o vídeo que foi divulgado pelo youtuber wuant, mostrando que está contra quem defende que não deve existir esta regulação e lembrando que para fazer um programa de televisão tem de pagar direitos de imagem e que “o Wuant com os seus videozinhos pode usar o que quiser porque na internet pode fazer o que quiser”.

“Não gosto de trabalhar numa área muito regulada e haver “wuants” que me roubam o público e estão numa área que é o faroeste”, afirmou, explicando ainda que o youtuber provavelmente não gostaria que alguém ganhasse dinheiro a imprimir a sua cara numa t-shirt ou em canecas e a vender. Mas realçou também que não tem nada contra o youtuber, mas que também não tem nada a favor.

A conferência continua durante o resto da manhã no mesmo modelo de “contraposição” entre duas personalidades convidadas em cada painel, estando previsto que termine pelas 13 horas.

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