Há quase três décadas no mercado e a meio de um ano que se antecipa como um dos melhores na história da companhia (em termos de rentabilidade), a JP Sá Couto é hoje JP Inspiring Knowledge, uma mudança de nome que adaptou a empresa a um negócio que se tornou mais internacional que nacional, mesmo continuando a controlar 20% do mercado da distribuição de PCs a nível local.

A educação revolucionou o negócio da empresa nortenha que hoje quer revolucionar a vida de crianças que dificilmente teriam acesso às tecnologias de informação, nos países emergentes onde os Governos têm usado as escolas para mudar essa realidade. É o caso da Bolívia, do México e mais recentemente do Quénia.

A companhia portuguesa experimentou a educação em Portugal há sete anos com o Magalhães e tirando partido de design de referência da Intel para este mercado (que continua a usar) deu o salto para a América Latina, que passou a ser o seu mercado mais importante. Só na Venezuela faturou quase 200 milhões de euros em 2013.

Hoje a companhia quer ser uma referência mundial nos projetos de educação em todo o mundo. Aposta em força nos países emergentes, mas quer ter um papel mais forte na Europa.

Pretende consegui-lo com os mais jovens, mas também admite o interesse em trazer para a região um modelo que já está a testar no Uruguai, onde vai vender 350 mil tablets para seniores, num projeto que além da vertente lúdica, pretende ser uma forma de pôr esta comunidade a contribuir para a sociedade, usando as TIC.

Jorge Sá Couto, presidente, falou com o TeK e garantiu que todas as frentes são importantes no negócio da JP, mas admitiu que assumem lugar de destaque os projetos que permitem às crianças ter acesso a recursos que de outra forma não teriam. Tanto profissional como pessoalmente.


TeK: No último ano as receitas da JP IK na Venezuela, que se transformou no vosso principal mercado a nível mundial, caíram de forma muito significativa. Explicam no relatório e contas de 2014 que a descida se deveu à crise no país e que obrigou a novas estratégias, que passaram por parcerias na Ásia e mais serviços. Pode detalhar?

Jorge Sá Couto: Para a Venezuela é muito mais fácil obter crédito através de bancos chineses do que através de bancos portugueses, porque têm relações privilegiadas com a China. O ministério queria continuar a fazer o projeto connosco, mesmo com as limitações que tinha ao nível da compra de produto e nós arranjámos uma solução, indicando-lhes um dos fabricantes dos produtos que desenvolvíamos e estabelecendo uma relação direta com eles. Nós passámos a ficar apenas com a gestão de um conjunto de serviços, onde se inclui gestão de apoio à fábrica, reparações dos equipamentos, gestão e controlo das entregas, validação de sistemas operativos e conteúdos. Foi uma alteração com aspetos positivos, já que este novo posicionamento exige um menor esforço financeiro e, embora não faturando tanto, também nos permite ter mais rentabilidade. 

TeK: É um modelo que pode fazer sentido noutros mercados?

Jorge Sá Couto: Sim, é um modelo que já estamos a aproveitar para aplicar noutros países e que nos permite deixar de lado aquilo que não nos interessa, como a venda de produto. Estamos mais interessados na conceção e desenvolvimento do produto. Queremos posicionar-nos cada vez mais no desenho, implementação do projeto e serviços associados. A venda do produto estamos a deixar para países que têm linhas de financiamento a médio longo prazo para oferecer. É uma via que vamos seguir nos países que tenham relações privilegiadas com a China.

TeK: Mas se durante o ano passado o vosso negócio na Venezuela diminuiu, noutras regiões da América Latina aumentou, como na Bolívia ou no Brasil. O que estão a fazer no Brasil, onde ainda não deram nota de projetos relevantes?

Jorge Sá Couto: O Brasil é um país muito descentralizado. O nosso trabalho tem de ser feito muito ao nível da região ou dos próprios municípios. Já ganhámos alguns projetos de dimensão mais pequena a esse nível e estamos neste momento a implementar algumas iniciativas. É um país onde será muito difícil ter um projeto global para todo o Brasil e onde por isso nos focamos neste âmbito regional e local. Com esse objetivo constituímos uma joint-venture com uma empresa local para poder receber know-how dessa empresa sobre o mercado da educação no Brasil.

TeK: Na América Latina, este ano, quais são então os principais focos do vosso negócio?

Jorge Sá Couto: Temos um projeto na Argentina que existe há seis anos e continua. Acabámos de ganhar um projeto para seniores no Uruguai. Temos o projeto na Bolívia, que é um dos nossos projetos bandeira. Ganhámos um concurso para a entrega de soluções chave-na-mão, praticamente tudo no projeto é da nossa responsabilidade. Temos lá uma equipa portuguesa a trabalhar e estamos também com empresas locais. Estamos a desenvolver parcerias no Peru neste momento. Estamos a fazer um primeiro projeto-piloto no Equador e continuamos na Venezuela. No México ganhámos um concurso federal e estamos neste momento a implementar um projeto que prevê a entrega de quase um milhão de tablets e que se prevê, tendo em conta o sucesso dos últimos dois anos, que continue a crescer nos anos seguintes.

TeK: Na Venezuela tem a expectativa que este novo modelo vos permita recuperar os níveis de receita que vinham atingindo nos exercícios anteriores?

Jorge Sá Couto: A própria JP Sá Couto tem feito uma transformação nesse sentido. Já não somos tão focados no dispositivo em si mas na solução, onde o dispositivo é apenas uma parte, embora importante, da solução. Claro que com o número de países que estamos a abrir este ano, não apenas na América Latina, mas também em África e este ano também na Ásia, pretendemos compensar o volume de faturação, ainda que para nós o mais importante seja a rentabilidade.

TeK: Na área da investigação e desenvolvimento estão a trabalhar para criar coisas novas que possam ajudar a promover essa rentabilidade mais elevada?

Jorge Sá Couto: Nos trabalhamos continuamente nessa área. O grande objetivo neste momento é conseguirmos entregar projetos de integração com uma medida tangível, onde seja possível, ao fim de um ano dizer, este projeto foi implementado e graças a isso foi possível melhorar nestes aspetos. Internamente estamos a trabalhar nesta área. Temos um grupo pedagógico já grande que é quem faz, normalmente em Portugal mas também noutros países, a recolha dos elementos que nos permitem desenvolver as soluções e acredito que estamos numa tendência muito forte de nos tornarmos um global solutions provider em todo mundo. Já temos esse reconhecimento e queremos cada vez fazer mais e melhor e obviamente evoluir nesta área.

TeK: Esta transformação que a companhia tem vindo a fazer para alcançar esse objetivo e adaptar-se aos novos desafios que vão surgindo tem implicado mudanças importantes na organização? O número de colaboradores mantém-se estável, mas pergunto noutras áreas?
Jorge Sá Couto: A JP é uma empresa com 26 anos e não há empresa que consiga subsistir se não estiver sempre em transformação. Hoje ainda ainda mais, porque a velocidade a que as coisas acontecem é tão grande que se não estivermos em constante transformação não conseguiremos sobreviver. A nossa estratégia passa por irmos sempre transformando para melhorar, mas com o menor impacto possível na estrutura. Promovemos a mobilidade interna de pessoas que vão mostrando valor e que podemos direcionar melhor para a área da educação ou da pedagogia. Quando achamos que temos de facto lacunas e que precisamos de melhorar vamos ao mercado buscar especialistas na área. Hoje, em qualquer projeto de educação que haja no mundo, a JP tem de ser considerada. Podemos ganhar ou não, o que é outra questão, mas tem de ser considerada. Trabalhamos para isso.

TeK: Para além de uma presença forte na América Latina, já estão em países como a Arábia Saudita ou a África do Sul. Isto trouxe complexidade ao processo de internacionalização? São países que para além de geograficamente distantes terão muitas outras diferenças.
Jorge Sá Couto: É verdade. Nós entrámos bem, por várias razões, no mercado da América Latina mas não ficámos por aí. Quisemos chegar a outras regiões. Avançámos para África, onde contamos ter muito boas noticias a breve prazo e também contamos fazer outros projetos na Ásia e isso é importante porque só assim conseguimos perceber as diferenças entre regiões e adaptar o nosso mindset a essas diferenças. Temos soluções globais mas temos conseguido adaptá-las bem a cada país e penso que esse tem sido um dos nossos fatores de sucesso. Mas o que também verificamos é que, mesmo havendo uma dispersão geográfica muito grande, há coisas de uns projetos que conseguimos sempre aplicar noutros sítios e esse conhecimento vai tornando mais fácil gerir projetos em diferentes países.

TeK: Pode adiantar já algum detalhe relativamente ao projeto que contam apresentar em breve na África do Sul?
Jorge Sá Couto:
Na África do Sul conseguimos uma vitória grande. Torna-mo-nos consultores do país para a área da educação o que é uma conquista importante, porque reflete aquilo que já fizemos noutros países e porque nos permite estar presentes numa já numa fase que vai conduzir à criação de novos projetos. Esta área da consultoria é muito importante para nós porque se é impossível ganharmos todos os projetos de educação no mundo e estar em todo o lado ao mesmo tempo, é possível marcarmos presença como consultores externos e ter um papel no desenho de iniciativas que se convertam numa mais-valia para cada país. Quando começámos nisto, há cerca de sete anos, a questão que se colocava era se devíamos usar tecnologia nas escolas, hoje o que se quer saber é como devemos usar essa tecnologia. Essa é a resposta que nós temos e que queremos dar com este posicionamento. Como se faz, como se medem os resultados e como podem os governos e as escolas concluir que o investimento foi bom e positivo para o país.

TeK: Com tudo o que aprenderam nestes sete anos e tendo em conta o que se propõem fazer hoje, como olha para aquilo que foi – e também para aquilo que não chegou a ser – o Magalhães?
Jorge Sá Couto:
O Magalhães foi um projeto que surgiu num ministério que não foi o da educação. Surgiu no ministério das obras públicas, ligado às operadoras, e para nós foi um processo de entrega massiva de computadores às famílias para poderem ter acesso à Internet. A outra componente, que tinha a ver com a utilização nas escolas e com métodos de utilização escolar, que era da competência do ministério da educação, foi algo que dissemos várias vezes que era importante para que o projeto ficasse completo e para que se pudesse medir o impacto do investimento, que foi grande na altura. Foi algo que nós achámos que nunca foi conseguido. Entendemos que possam existir razões para isso mas alertámos muitas vezes que para medir o sucesso do projeto era preciso garantir uma utilização muito maior nas escolas. Mesmo assim penso que o projeto teve um impacto intangível muito grande, que é difícil dizer concretamente no que se traduziu, mas ainda hoje vemos coisas a acontecer que conseguimos facilmente ligar com esse projeto. Foi pioneiro e tudo aquilo que é pioneiro tem muita coisa a melhorar.

TeK: Com o fim do programa onde se inseria o Magalhães o mercado da educação em Portugal passou a representar zero, ou algo próximo disso, no vosso negócio. Na Europa também vale pouco. O que estão a fazer na região? Tem a marca MyMaga com alguns produtos mas a renovação da oferta não tem sido significativa. Qual é a estratégia?
Jorge Sá Couto:
As caraterísticas do mercado europeu, que Portugal também partilha, traduzem uma filosofia de investimento completamente diferente [no que se refere ao uso das TIC na educação] havendo muito mais investimento privado, da parte das próprias escolas ou dos pais, do que de instituições ou governos. O que nós fizemos, até tendo em conta a tendência dominante na Europa de incentivar os alunos a levarem os seus próprios equipamentos para as escolas, foi criar a marca MyMaga, que não é mais do que um sucessor do Magalhães com um nome mais adaptado à internacionalização. Este marca traz consigo um conjunto de software e serviços já instalados que pode ser comprado numa qualquer prateleira de supermercado de um país da Europa. Também temos soluções fechadas e prontas a serem utilizadas por empresas que são especialistas neste sector da educação nos seus países, porque percebemos que é uma região completamente diferente, com outras exigências. É uma realidade que se aplica a outros mercados maduros, como os Estados Unidos e Canadá.

TeK: É correto considerar que são mercados onde vão fazendo por estar mas que não são prioritários?
Jorge Sá Couto: Não. Para nós também são mercados prioritários. Estamos a criar toda esta área do MyMaga, com uma equipa nova e que queremos afirmar. Achamos que os nossos números dentro da Europa daqui a alguns anos vão ser completamente diferentes dos que temos hoje.

TeK: Este ano têm previstas novidades para a marca MyMaga, seja ao nível dos equipamentos ou das soluções que aí incluem?
Jorge Sá Couto: Sim. Vamos lançar algo a que chamamos Classroom in a Box, que é uma sala de aula quase numa caixa que se pode transformar numa secretária e que rapidamente permite ao professor dar uma aula. Também temos novos equipamentos que vamos apresentar no regresso às aulas em várias países europeus, além de Portugal. Vamos lançar um dois em um.

TeK: Em Portugal a área de distribuição é a mais forte, caiu um pouco no ano passado. Isso é um reflexo da crise ou uma opção estratégica, e o resultado de focar o negócio mais numas áreas em detrimento de outras?
Jorge Sá Couto:
O negócio de distribuição faz parte de uma unidade de negócio completamente distinta. Somos especialistas nesta área, onde estamos há mais de 20 anos. Temos uma quota de mercado acima dos 20% e não queremos de forma nenhuma ser monopolistas. Temos uma carteira de clientes muito interessante, com pequenas empresas junto das quais temos até vindo a desenvolver programas que as ajudem a perceber mais desta área da educação e a vir connosco para outros países. Não estamos a crescer muito, mas estamos alinhados com o mercado. É uma área que continua a ser estratégica e onde continuamos a estar empenhados e a querer oferecer mais serviço a um cliente que são sobretudo pequenas empresas, microempresas.

TeK: Mudaram o nome do Magalhães e também alteraram nos últimos meses o nome da empresa. Estas alterações aconteceram só porque era importante preparar melhor a empresa para a internacionalização ou também marcam o início de um novo ciclo, concluído que está o processo judicial em que a empresa se viu envolvida e dada a polémica que o programa Magalhães acabou por gerar?
Jorge Sá Couto:
Magalhães era um nome muito difícil de dizer noutros países e JP Sá Couto ainda mais e daí resultava que em cada país nos chamavam um nome diferente. Tivemos de fazer essa mudança e optar por um nome internacional e hoje com JP IK e MyMaga facilitámos esse processo. Obviamente que o que refere é importante. Achamos que não temos de nos distanciar de nada. Cada fase é uma fase e tem o seu tempo, com aspetos positivos e negativos, dos quais devemos tirar elações e por isso não renegamos nem um segundo do nosso passado. Isso é algo muito claro cá dentro, mas aproveitámos essa necessidade que tínhamos identificado para fazer a alteração tendo em conta todas essas questões.

Cristina A. Ferreira

 

Nota de redação: Corrigida a informação relativa ao número de tablets que a JP-IP vai vender no Uruguai

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