Por Pedro Lourenço (*)

Imbuído no espírito de partilhar dicas de poupança, fui tentar entender a real "poupança" que a Apple prometeu aos seus consumidores, aquando do lançamento do novo iPhone. Numa breve pesquisa, retirei duas conclusões interessantes:

A primeira, foi que a "poupança" foi apenas do lado da gigante Apple e não do cliente que vier a adquirir o equipamento. Na realidade, a marca poupou no material gasto no packaging, ao remover o carregador e os earphones (só neste ponto existirá uma redução de custos na ordem dos milhões de dólares), além da prometida redução e emissões de carbono equivalente a mais de 2 milhões de toneladas de emissões de carbono, pois pagará menos às empresas de logística, tendo em conta a diminuição do envio de mercadorias. O que realmente assistimos é a uma pura redução de custos de produção, packaging e distribuição, por parte de uma das maiores empresas mundiais.

Até aqui, tudo bem! Posso até referir que tendo em conta o desperdício, é uma medida bem estruturada, pois existirão milhões de carregadores inutilizados pelo mundo, que representam apenas lixo eletrónico.

Contudo, este ponto leva-nos diretamente ao cerne da questão. Se a ideia inicial foi poupar recursos, o ambiente e em consequência o custo de produção, como pode a Apple ter uma política comercial antagónica a este princípio?

Em resposta, chegámos à segunda conclusão. O volume de vendas do iPhone 12 irá representar o maior crescimento de EBIT na história da Apple, tendo em conta a massiva redução de custos e o enorme crescimento de vendas, assente numa "inverdade". Com a estratégia de não entregar o carregador, a maioria dos consumidores irá necessitar de adquirir um novo. Ora porque nunca teve um iPhone anteriormente ou, porque a versão que tem não é compatível com o cabo USB‑C para Lightning. Além destas evidentes oportunidades para a marca vender um novo carregador com um preço inicial de 25€, a Apple foi mais longe e promoveu massivamente o seu novo carregador MagSafe por íman, que será o mote para a venda de toda a linha de novos acessórios desta nova tecnologia.

Como se não bastasse, o incremento no custo de aquisição do novo iPhone, vai além do carregador e dos earphones, ao verificarmos que o valor base deste equipamento também disparou dos habituais 829€ para os 929€. Neste caso, a sedução é feita pela entrada de novos modelos, mais "acessíveis" pela sua reduzida dimensão, com os iPhones Mini, que estão a ser vendidos pelo preço do modelo normal do iPhone 11 de 64 GB de há um ano. Assim, para se adquirir um modelo compatível com a dimensão do equipamento similar à versão 11, será necessário desembolsar mais 100€ em 2020.

Devo confessar que não sou um Apple lover, pois sempre fui adepto do sistema operativo Android, contudo essa condição não é emocional e reconheço a qualidade dos equipamentos que correm IOS. Porém, não posso ficar indiferente quando uma marca com o impacto social e económico, como a Apple, tem a coragem de abordar o mercado com uma mensagem enganadora, assente numa ideologia ambiental, quando na realidade é apenas economicista.

Felizmente a capacidade de comunicação entre consumidores através de plataformas como o Portal da Queixa e as redes sociais, representa hoje em dia, um mecanismo de enorme importância na desconstrução de ações que lesam os seus interesses.

(*) CEO do Portal da Queixa, Fundador da Consumers Trust e Embaixador da Comissão Europeia para os Direitos do Consumidor

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