Enterprise Architecture: teoria ou realidade?




Por Rui Pedro Vaz e Tiago Teixeira Duarte*



"An enterprise architecture is a rigorous description of the structure of an enterprise, [..] including enterprise goals, business functions, business process, roles, organisational structures, business information, software applications and computer systems" (from Wikipedia, the free encyclopedia).



Independentemente das questões que se possam colocar relativamente à abrangência da definição anterior ou até à fiabilidade da sua origem, desta resulta uma evidência objectiva e incontornável: uma "arquitectura empresarial", para se traduzir em valor efectivo para uma Organização, tem que ser completa, transversal e integrada. A potencial complexidade inerente à sua implementação e gestão deve ser mitigada pela adopção de automatismos e procedimentos que aproximem, de forma transparente para os intervenientes, a teoria à realidade.



De facto, a completude e transversalidade das "arquitecturas empresariais" traduzem-se, simultaneamente, no potencial de valor que podem gerar para as Organizações, mas também no principal foco de resistência à sua adopção. Este (des)equilíbrio de forças resulta da necessidade de, com uma "arquitectura empresarial", ter que se garantir uma descrição rigorosa e permanentemente actualizada das estruturas, modelos, componentes, relações, fluxos, princípios e terminologias referentes a todos os domínios relevantes da Empresa, nomeadamente ao nível dos seus recursos humanos e responsabilidades/competências, processos de negócio e de suporte, sistemas e tecnologias de informação, clientes e fornecedores, etc.



Mas que valor efectivo podem de facto gerar as "arquitecturas empresarias" para as Organizações? Porque motivo modelos teóricos relativamente consensuais, alguns deles com décadas de evangelização (p.e. Zachman, DoDAF, TOGAF, e mais recentemente o NGOSS), não encontram aceitação e aplicação prática generalizadas junto dos gestores e Organizações actuais?

[caption]Rui Pedro Vaz e Tiago Teixeira Duarte – Associate Partner e Senior Consultant da GMS[/caption]

"In theory there is no difference between theory and practice. In practice there is" (Jan van de Snepscheut, matemático holandês).



No tecido empresarial actual o termo "arquitectura" surge normalmente associado a iniciativas de planeamento/organização de sistemas e tecnologias de informação, contexto no qual as Organizações interiorizaram já a respectiva relevância num quadro de gestão estratégica e operacional dos mesmos. Mas será esta utilização contida o resultado de falta de ambição/visão dos gestores ou apenas um primeiro estágio de maturidade natural num roadmap mais completo de cobertura dos vários domínios das Organizações? Talvez de ambos…



Por um lado, é evidente a incapacidade das "arquitecturas empresarias" se imporem na agenda dos gestores como ferramentas prioritárias de gestão, talvez em resultado de, no contexto socioeconómico actual, terem objectivos "potencialmente conflituantes" (eficácia versus eficiência, resultados curto prazo versus estratégia de médio/longo prazo). Por outro lado, e em bom rigor, existe de facto um conjunto de barreiras à sua concretização que, realisticamente, dificulta a adopção efectiva destas ferramentas de gestão e aconselham a sua implementação faseada, nomeadamente:


- Contexto económico-financeiro actual, que inibe o investimento em iniciativas internas (ainda que de natureza estrutural) que não se traduzam, de forma objectiva e imediata, em "produtos e serviços";

- Algum desconhecimento dos conceitos relevantes inerentes e do respectivo potencial de aplicabilidade (ir mais além do que "arquitecturas aplicacionais"); e

- Rotatividade de gestores e recursos especializados, que dificulta a obtenção de consensos e a mobilização da necessária capacidade de actuação e decisão.



No entanto, os aspectos anteriores têm que ser analisados à luz daquilo que são as mais valias directas e indirectas para as Organizações que resultam da adopção das "arquitecturas empresariais", designadamente:


- A integração de processos, workflows, sistemas e responsabilidades, fomentando a eficiência e flexibilidade do negócio, e uma gestão financeira mais sustentada;

- A sistematização e alinhamento de estratégias, políticas corporativas e os objectivos operacionais, promovendo a convergência das perspectivas de curto, médio e longo prazos;

- A gestão estruturada de sistemas e tecnologias de informação, e das suas relações/integrações, potenciando a sua contribuição efectiva para o desenvolvimento do negócio; e

- A modelização coerente e completa da informação da Organização, desenvolvendo a capacidade de captação, gestão e capitalização do conhecimento existente.



Assim, em resultado dos argumentos anteriormente apresentados, consideramos que existe efectivamente valor para as Organizações na adopção de "arquitecturas empresariais", uma vez que estas consolidam modelos completos, integrados e coerentes dos diversos domínios organizacionais, os quais são essenciais para a adopção de estratégias empresariais flexíveis/ágeis alinhadas com o actual clima empresarial de constante mudança e inovação.


A natureza e enquadramento sectorial de cada Organização, bem como as respectivas características individuais (e nível de maturidade) em termos culturais, processuais e tecnológicos, determinarão o faseamento a adoptar, os recursos a investir e os resultados a ambicionar.



*Associate Partner e Senior Consultant da GMS Consulting

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