Por Gustavo Laboreiro (*)

É um sonho mais antigo que a História: criar um novo ser, fruto da sua obra, igual a si em todas as capacidades e desta forma afirmar-se perante o seu criador como um filho se mostra digno do seu pai. Ou talvez a arrogância humana o leve a mostrar que as leis naturais não o transcendem. Seja como for, a ciência e a tecnologia cooperam para materializar o que hoje é apenas ficção, no entanto esta relação gera grande especulação. Porquê?

Os robôs há muito que povoam a nossa imaginação, mas a reação de qualquer criança quando finalmente observa um é, invariavelmente, de deceção. Os robôs que existem caem, no geral, numa de duas categorias: são especializados e têm a sua forma definida pela sua função (como os que integram as linhas de montagem numa fábrica e são essencialmente uma ferramenta capaz de cumprir uma função apenas) ou são definidos pela sua forma (geralmente antropomórfica) mas falham em quase todas as tarefas que uma criança de três anos consegue desempenhar sem esforço. Os famosos Asimo da Honda, a Sophia da Hanson Robotics e o Aibo da Sony, estão aqui incluídos. Os automatos especializados aumentam a nossa produtividade industrial e “roubam” empregos, os outros não são mais que curiosidades ou brinquedos ainda sem utilidade prática.

No que toca à Inteligência Artificial (IA) podemos estabelecer a mesma distinção em duas categorias. A IA especializada (ou estreita) é aquela que joga xadrez, que participou no concurso de televisão Jeopardy!, que reconhece faces e procura melhorar as nossas fotografias. Embora consigam exceder os humanos numa tarefa em particular, fora do seu uso restritivo são totalmente inúteis. Da mesma forma como um veículo marinho autónomo é incapaz de fazer uma soldadura, o Watson não consegue mover peças de xadrez e o Deep Blue não entende uma palavra em que língua seja. Nem sempre é fácil readaptar uma IA para outra tarefa.

A segunda categoria chama-se Inteligência Genérica Artificial e… é inexpressiva, para dizer a verdade! Poucos grupos de investigadores dedicam-se a este problema que é muito complexo. E para mais, a IA especializada já existe, consegue ser aplicada a diversos problemas de forma satisfatória na maior parte das vezes, e corre nas máquinas que temos hoje. Não há grande incentivo em investir milhões de euros em supercomputadores para tentar criar uma prova de conceito que será lenta e irá necessitar de mais milhões (e muitos anos) para criar algo útil (assumindo que os cientistas mais otimistas estão corretos — talvez lá para o ano 2050).

Porquê, então, um alarmismo tão grande acerca da IA? Talvez porque, agora que o hardware necessário para correr sistemas de IA (estreitos) algo complexos se encontra a preços acessíveis, esta começou a assumir rotinas que eram antes reservadas a pessoas; tal como os robôs passaram a assumir tarefas rotineiras manuais, alguns sistemas de IA começaram a desempenhar tarefas intelectuais. Como será de esperar, isso assustou muita gente que antes davam o seu emprego como seguro. Temos IA fazer traduções e legendagens, a agendar reuniões, a fazer telefonemas comerciais, a fazer atendimento ao público via chat, a escrever textos noticiosos sobre desporto, a fazer diagnósticos médicos, a criar receitas culinárias, etc. Eventualmente chegarão a desempenhar tarefas ainda mais relevantes na área de gestão, nos domínios legais ou governamentais.

Existem ainda outros desenvolvimentos que poderão deixar as pessoas menos descansadas, como a aplicação de IA para fins militares. Ao eliminar o humano da cadeia operativa, eliminam-se também as dúvidas, a empatia, a compaixão, a piedade, a consciência e o sentido de responsabilidade na guerra. Além disso, se um dos lados em conflito deixa de ter baixas humanas, qual será o incentivo para a paz? Também em breve muito código será escrito de forma automática, e como tal os humanos estarão duplamente afastados das decisões tomadas pelas máquinas.

Isto não se aplica apenas nas aplicações bélicas, mas também dos biliões de aparelhos que existirão em breve pelo mundo fora e que comunicam incessantemente uns com os outros, otimizando todos os aspetos da nossa vida. O risco aqui será de dependência. Quando os humanos já não sabem como é que estes sistemas funcionam, como poderão examiná-los ou concertá-los se necessário? Seremos meras ovelhas à mercê das decisões automáticas que condicionam quase todos os aspetos da nossa vida? Já hoje se discute se um carro autónomo deve proteger em primeiro lugar o seu ocupante ou o transeunte que possa estar no seu caminho. Muita coisa pode correr mal a curto prazo, e mais ainda no hipotético longo prazo, que não abordámos.

Em suma, a IA é uma tecnologia revolucionária que poderá trazer grandes mudanças a diversos níveis. Mas é uma ferramenta como qualquer outra, que nos pode dar asas ou causar a nossa perdição, dependendo da forma como é usada. E, enquanto Ícaro foi vítima da sua ousadia e desconsideração, o seu pai Dédalo, prudente e consciente, conseguiu aterrar em segurança.

(*) Senior Consultant, agap2IT

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