http://imgs.sapo.pt/gfx/88019.gifPortugal está a evoluir e a investir, esta é a mensagem do Governo, do Ministério da Ciência e Tecnologia e do presidente da Agência de Inovação, Lino Fernandes. No entanto, segundo este responsável não devemos esperar que o país se transforme de um momento para o outro.



As Jornadas de Inovação, que se realizaram na Exponor, e onde estiveram expostos os resultados dos esforços conjuntos entre empresas, universidades e a Agência de Inovação são disso prova.



Dos 120 projectos apresentados a público durante as Jornadas muitos já estão disponíveis no mercado, ou em fase de finalização, e segundo Lino Fernandes são o resultado visível do que se pode construir de raíz em Portugal. O objectivo é ultrapassar séculos de erros consecutivos e investir, pacientemente, na investigação e desenvolvimento para que se alcance o nível de outros países europeus.



Para que esta realidade se altere é necessário estar atento ao que se passa no resto do mundo. Lino Fernandes chama a atenção para a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, que irá ter repercussões na economia mundial, sendo que Portugal não se pode escusar de assumir um papel cada vez mais predominante.



Criar produtos próprios, apostar na exportação, e formar um número cada vez maior de quadro superiores são algumas medidas urgentes. Porém, Lino Fernandes sublinha a necessidade do emprego responsável de dinheiros comunitários e da aplicação de políticas de concentração de esforços para que possamos, em poucos anos, anular séculos de inércia.


TeK: Como estão a decorrer as Jornadas de Inovação?


Lino Fernandes:
A minha avaliação é bastante positiva. O objectivo principal destas Jornadas é divulgar os resultados da investigação que a Agência de Inovação tem vindo a apoiar nos últimos anos, os programas de investigação e o consórcio que envolve empresas e entidades de investigação. Nesta exposição estão 120 projectos, que são os resultados finais. O nosso principal objectivo é mostrar ao país que é possível haver investigação aplicada, que esta pode ser rentável e dar origem a produtos que se vendem. Tudo desenvolvido em cooperação entre as empresas e as universidades.


Apesar de serem mundos diferentes é possível esse trabalho conjunto e a demonstração está em 120 resultados, que é um número significativo.




TeK: Considera que os empresários estão receptivos ao apelo da Agência de Inovação para investir cada vez mais na investigação?

L.F.:
É verdade que a atitude de muitas pessoas não é ainda a mais receptiva, mas temos que compreender isso também numa perspectiva histórica. Portugal era um país que, há vinte anos, tinha um grau de formação escolar da sua população bastante baixo em termos europeus.

Portugal deixou-se atrasar durante séculos na formação dos seus recursos humanos e se há um baixo nível da educação da população em geral isto quer dizer que os próprios empresários e operários também têm um baixo nível de formação. A escassez de recursos humanos qualificados reflectia-se também no baixo número de investigadores.

Temos vindo a recuperar nos últimos vinte anos de uma forma acelerada, mas ainda existe esse défice. Em todo o caso se havia falta de formação nos recursos humanos era difícil que as pessoas que têm um nível de formação mais baixo conseguissem colaborar com as que tinham mais escolaridade. O país estava muito dividido entre os "doutores" e os outros.

À medida que a população portuguesa tem um maior nível de formação esse diálogo torna-se mais fácil e é isso que já estamos a presenciar.



TeK:E qual é a reacção por parte dos empresários perante este género de projectos que têm de ser desenvolvidos em cooperação com outras entidades, nomeadamente universidades?

L.F:
Estes que cooperaram estão mais envolvidos e já têm resultados. Mas, a abertura por parte dos empresários depende muito dos sectores. Existem sectores que têm um nível de recursos humanos mais elevado, como os sectores de bens de equipamento, e a farmacêutica, e o software, onde é mais fácil. Nos sectores onde o nível de formação é mais baixo, torna-se mais difícil haver projectos de desenvolvimento e investigação. Depende dos sectores e das empresas. Nesta exposição, por exemplo, existem projectos de empresas de variados sectores, desde o calçado, até à cola, portanto depende muitos das próprias empresas.

A situação está a evoluir e nós temos a esperança que este exemplo de 120 projectos – que são só uma parte, dentro de um ano faremos uma exposição maior que esta – sirva de incentivo. Somos um país que gosta muito de ver para crer e neste caso estamos, não perante teorias, mas resultados concretos. E se os meios de comunicação ajudarem a divulgar essa realidade tenho ideia que vai haver dentro de alguns anos muitas mais empresas, o que de resto tem vindo a acontecer.

No último inquérito de investigação às empresas realizado pelo Observatório da Ciência e Tecnologia existiam mais de 500 empresas com actividades de investigação e desenvolvimento. Em 1995 eram pouco mais de duzentas. Os pedidos para os nossos concursos de apoio à investigação e consórcio também estão a aumentar de forma acelerada.



TeK:Quais são as empresas a investir mais nesta área de investigação e desenvolvimento?

L.F:
Como é natural em Portugal são as PMEs porque existem poucas grandes empresas. Algumas grandes empresas investem, mas, de facto, essa é uma das fraquezas da nossa investigação empresarial. Talvez não o façam por questões de estratégia empresarial, não vou comentar, mas constatamos que tirando algumas empresas grandes, sobretudo na área das telecomunicações, muitas empresas não investem significativamente em investigação e desenvolvimento. Isso dificulta que se recupere rapidamente para níveis europeus.

Podem existir muitas pequenas e médias empresas a investir, mas se não houver grandes é difícil e as estatísticas não vão reflectir esse investimento por parte das PMEs. Por outros lado, nós não temos em Portugal alguns dos sectores que mais investem nesta área em outros países mais desenvolvidos. Por exemplo o sector da defesa, num país como a França é responsável por grande parte da investigação e desenvolvimento empresarial.

Encontramos problemas de estrutura na nossa economia que depois se reflectem no investimento. No entanto, em termos de PMEs temos uma grande quantidade de projectos de investigação.



TeK: Na sua qualidade de presidente da Agência de Inovação, qual é o seu comentário em relação ao último relatório da Direcção Geral de Empresas da Comunidade Europeia, onde se pode ler que Portugal está na cauda da Europa em termos de Inovação?

L.F.:
A visão que tenho dos números apresentados é que temos que ter cuidado com esses relatórios. Como o anúncio das Jornadas diz "Portugal é um país de ideias feitas", mas não somos só nós que temos ideias feitas, no estrangeiro também têm ideias concebidas sobre Portugal.

No próprio dia em que esse relatório foi divulgado nós enviámos para Luxemburgo uma reacção, uma crítica, dizendo que alguns daqueles indicadores estão desactualizados e que dizem respeito a quatro anos atrás, o que na situação portuguesa é muito significativo. Por outro lado há problemas do ponto de vista metodológico que nós contestámos e, estamos neste momento a discutir, em termos do indicador sintético que eles construíram. Pensamos que esse relatório será corrigido, e de resto ficará mais compatível com outros relatórios da Comissão Europeia.

Existe outro relatório feito pela Direcção Geral de Investigação da União Europeia em que Portugal está, em termos de dinâmica de evolução, à frente da média dos países europeus. Só existem dois indicadores em que Portugal não está a recuperar mais que a média da União Europeia. Esses indicadores são a questão das patentes e do comportamento de capital de risco para investimentos hight-tech.



TeK: Perante um documento desta natureza, qual será a percepção com que os investidores estrangeiros ficam de Portugal?

L.F.:
No estrangeiro existe a percepção que Portugal é um país atrasado e portanto ao terem acesso a um indicador que é relativamente mau, com base em dados desactualizados, não ficam muito admirados porque é coerente com uma imagem que eles têm do passado. Fazer com que as pessoas vejam Portugal por aquilo que ele é agora e não por aquilo que ele era há dez anos é difícil.

Existe também o preconceito de que continuamos a ser um país atrasado de senhoras de lenço preto que andam de burro. Nós sabemos que já não é assim, mas no exterior essa ideia ainda existe, e apesar do país estar a mudar rapidamente, a mentalidade não está a mudar ao mesmo ritmo, mesmo dentro do país.



TeK: Acha que este relatório poderá afastar os investidores de Portugal?

L.F.:
Trata-se de um relatório preliminar, é um documento de trabalho, só que em Portugal os meios de imprensa divulgaram-no como um documento definitivo. Empolgaram-no demasiado quando se trata de um documento de trabalho e não definitivo. Está em processo de discussão, em análise, e os indicadores estatísticos não são objectos imateriais, há critérios e métodos e por isso é preciso serem trabalhados.

O que mais me preocupa aí é que existe no estrangeiro uma ideia de Portugal que é desadequada em relação à realidade actual. E nós temos, enquanto povo, que fazer um esforço para mostrar que Portugal apesar de continuar a ter atrasos estruturais significativos está a recuperar a uma grande velocidade, como de resto é reconhecido pelo outro relatório.



TeK: Considera importante que os vários Ministérios trabalhem políticas conjuntas para o desenvolvimento da inovação?

L.F.:
O Proinove é um exemplo dessa colaboração, um dos seus objectivos é exactamente tentar articular as políticas de todos os Ministérios e cruzar informações. E na comissão interministerial do Proinove, em que eu participo em representação do Ministério da Ciência e Tecnologia, estão representantes dos Ministérios da Economia, Planeamento, Administração Pública, Finanças, Educação e Solidariedade. O Proinove foi desenvolvido por este grupo interministerial e há neste momento um levantamento de todas as políticas para definir como elas se devem articular. Trata-se de um esforço no sentido de tentar articular melhor as políticas no sentido de forçar a aceleração do ritmo da inovação. É uma preocupação real do país e nossa também.



TeK: Quanto tempo levará Portugal a alcançar o nível de inovação de outros países europeus?

L.F.:
Não sei quantificar, mas quando o Primeiro Ministro António Guterres, fala em recuperar o atraso estrutural numa geração penso que está ao nosso alcance. Em alguns campos recuperámos em muito menos tempo. A recuperação do uso da Internet tem crescido, segundo dados do último ano, a um ritmo espantoso, e a educação também se está a recuperar.

O problema é que as gerações mais novas já têm um nível de educação escolar praticamente ao nível europeu, mas a média do país é que não, porque as gerações mais velhas têm níveis de escolaridade muito inferiores. Mas, daqui a uns anos, o nível de formação médio da população portuguesa vai crescer muito rapidamente, porque as gerações mais velhas vão sair do mercado de trabalho.

A curva média vai acelerar e é preciso ter esta perspectiva de que somos um país dual. Quando se houve dizer que o sector dos moldes em Portugal é dos mais evoluidos tecnologicamente naquele sector perguntamo-nos como é possível. Recordo que a média do país é que é baixa, porque coexistem realidades muito diferentes de sectores modernos e de outros que não se têm modernizado tanto.

Outra questão é saber em que medida os sectores mais modernos se desenvolvem muito rapidamente e os outros vão desaparecendo. O país é muito diferenciado e a média engana muito. Portanto, a média do país vai evoluir rapidamente se, no caso da formação, continuar um esforço muito grande de modo a conseguirmos recuperar o atraso.

Em termos de indústria o processo é semelhante. Existem sectores que estão mais modernos e evoluidos tecnicamente ao nível do resto da Europa. Por exemplo, o sector do calçado estabelece como objectivo liderar dentro de alguns anos a indústria do calçado na União Europeia. Portanto, há sectores que conseguiram recuperar o atraso em cinco anos, outros demorarão mais algum tempo.

Na ciência, melhorámos muito no número de investigadores, mas temos ainda que fazer um esforço, que poderá ser vencido em sete anos.



TeK: Que medidas deverá então tomar o Governo?

L.F.:
Devem-se concentrar esforços e ser mais exigente, não podemos admitir que as empresas não paguem impostos, não podemos admitir fábricas em que não existam condições de trabalho, não deverá haver apoio público para empresas que não se comportem de acordo com a sua responsabilidade social.
Temos que ser mais exigentes com a aplicação dos dinheiros públicos. Estes fundos e os subsídios não devem servir para ajudar empresas que não têm futuro a sobreviver, mas para ajudar a que o futuro cresça mais depressa em Portugal. Tem que haver uma maior exigência da parte da própria opinião pública em relação à utilização dos dinheiros públicos. Mas, eu estou optimista em relação ao futuro, em particular em relação à exposição dos resultados, à sua dimensão e variedade.

Esta exposição responde a uma atitude de responsabilidade que é a mostra de projectos apoiados com dinheiros públicos. Os projectos da Agência de Inovação foram apoiados com 8 milhões de contos, que viabilizaram um investimento de 16 milhões de contos, e há a obrigação de dizer para que é que o dinheiro serviu. Como é evidente nem todos têm sucesso. Mas, aqui chegou-se a resultados.

Suponho que existem naqueles projectos cerca de cinquenta patentes já registadas, ou em vias de o ser, o que é um número muito significativo. É por isto que nós dizemos que existe um Portugal inovador, está aqui a prova com projectos que vão desde a agricultura até à critica de software. Isto é uma amostra do que pode ser o Portugal do futuro.



Natércia Pereira da Silva

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