A utilização de aplicações para identificar utilizadores infetados e os contactos que realizaram durante o período de contágio tem sido polémica e está a gerar um grande debate entre quem defende a utilização de mais esta ferramenta para proteção da população e quem avisa que esta é só mais uma forma de monitorização e alerta para os riscos de violação da privacidade.

Os detalhes da app STAYAWAY COVID já tinham sido explicados ao SAPO TEK e na semana passada um debate promovido pela APDC, que envolveu o coordenador da app no INESC TEC,  José Manuel Mendonça, e Henrique Barros, epidemiologista e presidente do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, parceiro do projeto, permitiu esclarecer mais algumas questões sobre o funcionamento da aplicação.

Perante as muitas questões recolhemos informação de várias fontes, dos especialistas e do site da app STAYAWAY COVID para responder às principais dúvidas sobre a forma como a app vai recolher e partilhar informação, a tecnologia utilizada e a integração com as API da Google e da Apple. Se tiver questões adicionais deixe o seu comentário para que procuremos também dar resposta.

1 - Para que serve a app STAYAWAY COVID?

A ideia da aplicação é permitir que o telemóvel seja usado como um dispositivo que identifica situações de proximidade com outros utilizadores, ou melhor com os seus telemóveis, e que em situação de contágio com COVID-19 possa funcionar como alerta para possíveis contágios com os contactos realizados. Sempre sem revelar a identidade dos utilizadores infetados, dos seus contactos ou de outros utilizadores.

Numa situação de pandemia, e agora que entramos numa fase de desconfinamento, a app é uma das ferramentas que permite identificar contactos em situações de possível contágio, sendo mais eficaz do que a identificação manual (em que o paciente tem de se lembrar das pessoas que contactou nas últimas duas semanas quando é diagnosticado com COVID-19). Os especialistas dizem que não é a única solução mas que é um elemento importante, pelo menos se for utilizado por mais de 60% da população.

“Com a COVID-19, estima-se que estejamos infeciosos em média durante 10 dias. Em parte deste tempo podemos não ter quaisquer sintomas, mas 44% dos contágios ocorrem precisamente quanto ainda estamos assintomáticos! É precisamente neste período, e para reduzir estes 44%, que a utilização do rastreio digital com a aplicação é importante”, refere-se no site

Usar ou não a app de rastreamento da COVID-19? É uma questão de confiança, mas também de eficácia no combate à pandemia
Usar ou não a app de rastreamento da COVID-19? É uma questão de confiança, mas também de eficácia no combate à pandemia
Ver artigo

2 - Como é que a app avisa que estive em contacto com uma pessoa infetada?

Quando uma pessoa é diagnosticada com COVID-19, se tiver instalado a aplicação, um código do médico vai validar a informação que é enviada para o sistema. Quando os telefones dos outros utilizadores fizerem a ligação periódica ao sistema para validar os códigos de telefones com que estiveram em contacto nos últimos 14 dias, recebem a informação dessa infeção e um alerta. Não são enviadas outras mensagens, como SMS.

3 - Se tiver a app instalada não tenho de manter o distanciamento social?

Esta é uma medida de prevenção mas no site da app explica-se que “é a combinação de todas as precauções (medidas de higiene, etiqueta respiratória, considerar o afastamento físico, etc.) que nos permitirá parar a propagação da doença”.

4 - Que tipo de contacto é necessário para que seja emitido o alerta?

O que está definido como exposição de alto risco é uma proximidade mínima de 2 metros, durante cerca de 15 minutos, com uma pessoa infetada.

5 - Quando vai estar pronta a aplicação?

Os responsáveis pela aplicação têm apontado o final do mês de maio como data para a disponibilização na aplicação nas lojas de aplicações da Apple e da Google.

6 - A aplicação é de uso obrigatório?

A aplicação STAYAWAY COVID é de adesão voluntária, o que segue as recomendações europeias para as aplicações de rastreamento da COVID-19

7 - Em que telemóveis vai poder ser usada?

A aplicação está a ser desenvolvida para iOS e Android, que em conjunto têm a quase totalidade do mercado de equipamentos móveis.

8 - Vai funcionar em smartphones mais antigos?

Não é ainda claro quais são as versões dos sistemas operativos que vão ser suportadas, mas os responsáveis pela STAYAWAY COVID garantem que a app funciona em telemóveis mais antigos

9 - Que tecnologia vai ser usada na aplicação portuguesa?

A app não usa o GPS mas tira partido do Bluetooth, mais especificamente o Bluetooth de baixo consumo (BLE) ,que na utilização normal está sempre a comunicar a sua presença a todos os equipamentos que estão próximos. A aplicação guarda esses códigos que depois são cruzados com a informação de infeções que ficam registadas na cloud, validando se um contacto dos últimos 14 dias foi diagnosticado com COVID-19.

10 - Quantas vezes por dia a app faz a verificação dos contactos?

A aplicação acede uma vez por dia ao servidor público do sistema para fazer a verificação da existência de códigos de contactos anteriores que tenham sido infetados. Para isso usa ligação Wi-Fi ou de rede móvel.

11 - A app é segura? Que dados vai recolher?

Os responsáveis pela app dizem que nenhuma informação pessoal é recolhida, que todos os dados são anónimos e que os códigos são eliminados ao fim de 14 dias. Este funcionamento segue as regras definidas a nível europeu e vai ser auditado pelas autoridades nacionais

12 - O rastreamento será feito por proximidade (bluetooth) ou também por GPS?

O rastreamento dos contactos feitos vai ser realizado apenas usando códigos transmitidos e recolhidos por Bluetooth. Não é recolhida a informação de localização (GPS).

13 - É possível identificar o utilizador da app?

Segundo a informação da app STAYAWAY COVID, “O sistema foi desenhado para preservar o anonimato de quem a utiliza. Os dados difundidos e recebidos pelos telemóveis, e que eventualmente são publicitados online, são gerados aleatoriamente pela aplicação sem qualquer relação com os telemóveis nem os seus utilizadores”.

Os códigos que são enviados e recebidos através do Bluetooth são guardados no telemóvel e o sistema não consegue identificar os utilizadores.

14 - Que tipo de processamento de dados vai ser feito?

O processamento da informação está limitado à aplicação do telemóvel, explica o site da app STAYAWAY COVID. ”Este processamento consiste no cruzamento destes dados online com os números aleatórios que o telemóvel de cada pessoa recebeu nos últimos 14 dias. Os dados online, como de resto todos os dados manipulados pela aplicação, são por si desprovidos de informação. Apenas o cruzamento com dados que residem exclusivamente nos telemóveis fornece a informação que todos desejamos”,

15 - Que entidades terão acesso aos dados da aplicação?

O sistema foi desenhado para evitar que qualquer entidade tenha acesso à identidade dos utilizadores. “Nenhuma entidade externa tem conhecimento da identidade do utilizador ou do seu telemóvel pelo que não o poderá notificar, seja por SMS ou outro meio alternativo”, refere-se no site da app, ressalvando porém que “Como acontece em todos os sistemas informáticos atuais, as comunicações realizadas pela Internet deixam registos, quer nos operadores de rede como nos servidores, que, com base em informação adicional externa, podem ser utilizadas para identificar o dispositivo que efectuou a ligação”.

COVID-19: Comissão Europeia quer que apps de rastreamento sejam desativadas depois da pandemia
COVID-19: Comissão Europeia quer que apps de rastreamento sejam desativadas depois da pandemia
Ver artigo

Os responsáveis pela app acrescentam ainda que o servidor oficial estará instalado em Portugal, será operado por uma instituição oficial e segundo as melhores práticas de segurança e privacidade Europeias.

Além disso, nenhuma entidade externa possui a informação necessária, e que se encontra apenas no dispositivo do utilizador, para avaliar a sua probabilidade de contágio.

16 - Quem teve a iniciativa de desenvolvimento da app STAWAYA COVID-19?

O desafio de desenvolver a aplicação foi lançado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, aos vários laboratórios associados da área das ciências da computação, como explicou José Manuel Mendonça, professor Catedrático da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e presidente do Conselho de Administração do INESC TEC, que coordenou todo o projeto de criação da aplicação móvel.

17 - Que organizações estão envolvidas no desenvolvimento da app STAWAYA COVID-19?

Para além do INESC TEC participam no projeto o ISUP – Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, e duas startups spinoff do INESC TEC, a keyruptive e a UBIrider, que estão a   entrar no mercado em áreas da criptografia e segurança da informação e nas áreas da desmaterialização da informação e da mobilidade.

18 - Pode haver mais do que uma app a funcionar em Portugal?

Segundo informação que tem sido partilhada publicamente, a Google e a Apple só vão permitir a implementação de uma aplicação por país com a utilização da sua API.

19 - A aplicação é eficaz no rastreamento à COVID-19?

A eficácia da aplicação depende do número de pessoas que a instalarem e a utilizarem. Segundo as análises de modelação realizadas, só com 60% de utilização será possível conseguir eficácia na identificação dos casos de contágio. Esta análise teve como base o exemplo do Reino Unido.

modelação com base na experiência do Reino Unido

20 - Quem faz o diagnóstico da infeção da COVID-19?

O diagnóstico é feito pelo médico e o sistema que está a ser desenvolvido, e que ainda não está finalizado, prevê que seja um código do médico, em conjunto com o utilizador da aplicação que foi diagnosticado com COVID-19, que garante o envio da informação para o sistema para que depois a app emita o alerta às pessoas que estiveram em contacto com o infetado.

21 - Como é que funciona o sistema de alertas?

O alerta é feito dentro da própria aplicação, não utilizando SMS. Os utilizadores que tenham estado em contacto com uma pessoa que tenha sido diagnosticada com COVID-19 recebe um alerta dentro da app.

Portugueses exigem proteção de dados e anonimato nas aplicações de rastreamento da COVID-19
Portugueses exigem proteção de dados e anonimato nas aplicações de rastreamento da COVID-19
Ver artigo

22 - Os dados ficam para sempre no sistema?

Segundo informação no site “os dados nos telemóveis são apagados pela própria aplicação, no máximo, ao fim de 21 dias e todos apagados quando a aplicação é desinstalada. Os dados online, de forma análoga, são removidos, no máximo, ao fim de 21 dias”. Também se refere que todo o sistema será descontinuado quando for declarado em Portugal o fim da pandemia.

23 - O código da aplicação vai ser auditado?

A informação partilhada indica que o sistema será alvo de uma Avaliação de Impacto sobre a Protecção de Dados (AIPD) que contará com a contribuição do Centro Nacional de Cibersegurança e a consulta à Comissão Nacional de Proteção de Dados.

Os responsáveis dizem ainda que “no momento em que a aplicação seja disponibilizada nas lojas oficiais da Apple e da Google todo o código fonte do sistema terá sido auditado pelo Centro Nacional de Cibersegurança e estará publicamente disponível para o escrutínio de todos”.

24 - A aplicação é compatível com as API de contact tracing da Apple e da Google?

A interoperabilidade da aplicação já está a ser testada com as primeiras versões das API da Apple e da Google.

25 - Quais são as recomendações europeias para as aplicações de rastreamento da COVID-19?

A Comissão Europeia divulgou as recomendações para  proteger a privacidade dos cidadãos, recomendando que os dados serão anónimos, e que as apps sejam desativadas depois da pandemia. O documento com as recomendações está online e a CE diz que vai fazer relatórios regulares da implementação nos vários países europeus.

26 - Como é feita a interoperabilidade com as apps de outros países?

Para além do rastreamento dentro de Portugal, o sistema tem como objetivo a interoperabilidade com o maior número possível de iniciativas de rastreio digital da COVID-19, Europeias e de fora da Europa. Por isso o desenvolvimento está a ser articulado com os diversos países Europeus que estão a desenvolver aplicações semelhantes, em particular baseadas na arquitetura DP^3T. “Desta forma deverá ser possível o cruzamento dos dados recolhidos pela aplicação com aqueles disponibilizados online por qualquer um destes países”, refere-se no site da app STAYAWAY COVID.

27 - O que é a DP^3T Decentralized Privacy-Preservind Proximity Tracing?

A app é baseada no protocolo DP^3T que foi desenhado para sistemas descentralizados com base na proximidade que garantem o rastreamento mantendo a privacidade. O código fonte está disponível no GitHub.

As respostas são baseadas em informação recolhida de várias fontes, dos especialistas e do site da app STAYAWAY COVID para responder às principais dúvidas sobre a forma como a app vai recolher e partilhar informação, a tecnologia utilizada e a integração com as API da Google e da Apple. Se tiver questões adicionais deixe o seu comentário para que procuremos também dar resposta.

Newsletter

Receba o melhor do SAPO Tek. Diariamente. No seu email.

Notificações

Subscreva as notificações SAPO Tek e receba a informações de tecnologia.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.