
Por Rafael Ferreira (*)
A mobilidade elétrica está a transformar-se rapidamente, impulsionada por avanços tecnológicos que vão muito além da simples eletrificação dos veículos. Enquanto caminhamos rapidamente para um mundo mais digital e automatizado, torna-se evidente que o verdadeiro roaming e a padronização tecnológica serão elementos-chave para garantir uma experiência fluidae eficiente para os utilizadores de carros elétricos. Assim, o futuro não vai depender apenas da infraestrutura física, mas também (e sobretudo) da capacidade de integração entre redes, inteligência artificial (IA) e blockchain.
Atualmente, os players do setor compreendem que um dos grandes desafios da mobilidade elétrica é a fragmentação dos serviços de carregamento. Diferentes operadores (CPOs) e fornecedores de serviços de mobilidade elétrica (eMSPs) utilizam sistemas próprios, muitas vezes incompatíveis entre si. Esta realidade cria barreiras artificiais para os utilizadores, que acabam por enfrentar dificuldades no carregamento dos seus veículos, fora da rede habitual.
Assim, a solução passa pela adoção de protocolos universais, como o OCPI (Open Charge Point Interface) e a norma ISO 15118, que permitem a comunicação padronizada entre diferentes redes de carregamento. Estes protocolos possibilitam o roaming real, eliminando a necessidade de múltiplas contas, cartões RFID, ou aplicações específicas. Quando implementados corretamente, garantem que um condutor possa carregar o seu veículo em qualquer posto, independentemente do operador, de forma simples, transparente e conveniente.
Esta é uma questão vai além da conveniência: um sistema interoperável é a base para uma mobilidade elétrica inclusiva e escalável. O país ou região que compreender esta realidade em primeiro lugar, e que conseguir implementar uma regulamentação adequada, poderá tornar-se numa referência global no setor da mobilidade elétrica.
Adicionalmente, com o rápido avanço da inteligência artificial, acredito que estamos prestes a entrar numa nova era da mobilidade elétrica. Os agentes pessoais de IA terão a capacidade para desempenhar um papel fundamental nesse ecossistema, assumindo tarefas que hoje exigem a intervenção humana, tais como a gestão de carregamentos.
Espero que, num futuro breve, carregar um veículo elétrico seja tão simples como ter saldo numa carteira digital. Através de blockchain e contratos inteligentes, os utilizadores podem pré-aprovar transações para determinados fornecedores, permitindo, por exemplo, que os seus agentes de IA tratem automaticamente da gestão dos carregamentos. O processo será tão fluido ao ponto de estacionarmos o carro e a IA garantir, de seguida, que tudo acontece sem complicações.
Mas os benefícios da IA neste setor vão, claro, além da conveniência. Por exemplo, na otimização de carregamentos, com o sistema a escolher automaticamente os postos mais eficientes e económicos, reduzindo custos para os utilizadores. Adicionalmente, a IA poderá ajudar numa melhor gestão da rede elétrica, distribuindo-a de forma equilibrada, evitando picos de consumo e garantindo a estabilidade da rede. Por fim, e na ótica da Sustentabilidade, os algoritmos avançados poderão direcionar os carregamentos para momentos de maior disponibilidade de energia renovável, tornando a mobilidade elétrica ainda mais ecológica.
O futuro parece-me promissor, mas a implementação de roaming universal e a adoção da IA na mobilidade elétrica não dependem apenas da tecnologia. É fundamental que a regulamentação acompanhe essa evolução, garantindo que os padrões abertos sejam amplamente adotados e que as barreiras artificiais sejam eliminadas.
Os governos devem compreender que a regulação não pode ser um entrave ao progresso. Pelo contrário, deve trabalhar como facilitadora e promover um ambiente onde a inovação possa florescer e a sociedade possa colher os benefícios de toda essa transformação. Sem dúvida que os países que apostarem numa regulamentação ágil e terão uma vantagem competitiva na transição para a tão desejada mobilidade sustentável.
Não serão apenas os carros que conduzimos que vão definir o futuro da mobilidade elétrica. A experiência digital também é fundamental, pelo que o verdadeiro roaming, em conjunto com tecnologias de inteligência artificial e blockchain, permitirão uma revolução na forma como interagimos com os postos de carregamento.
Não podemos perder este comboio. A mudança já está a acontecer, e os países que liderarem esta transição de forma inteligente, vão ter um papel central na nova economia da mobilidade. Anseio por um futuro simples, eficiente e sem barreiras: chegar, carregar e seguir viagem – sem cartões, sem burocracia, apenas com tecnologia ágil ao serviço das pessoas.
(*) Co-fundador e CTO da miio
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