A viagem do Elefante
Por Gustavo Homem (*)


Os internautas Portugueses descarregam filmes da Internet. A associação de clubes de video descarrega caixotes de papel na Procuradoria. Não se sabe se alguma destas descargas é crime mas o que se vê, entre esgares bipolares de gozo e incredulidade, é toda esta gente contar espingardas. Ocupa-se este texto de relatar não o que aconteceu, porque isso na verdade não sabemos, mas o que, segundo a razão e a lei dos grandes números, podia bem ter acontecido.

Estava-se no dia do comunicado. Talvez a dita associação saiba o que diz. Mais vale comprar ou alugar o filme online, pensou, do que ir catar torrents e legendas e apanhar uma seca valente até conseguir ter algo que se veja. E assim sempre ganham qualquer coisa. Foi animado deste sentimento despesista que se dirigiu o intrépido internauta ao site da associação. Com o MBNET em punho e os EUR a querem saltar da conta como pipocas inquietas no microondas, o sangue fervia-lhe nas veias com a expectativa de obter de forma cómoda o mais recente blockbuster. Vai-se a ver e a ideia não era essa. Era outra diferente. A ideia, se é que a esta pré-histórica lembrança se pode sequer chamar ideia, era despir o pijama, descer as escadas, dar corda ao motor para rumar a um tal de clube, escolher um filme, a seguir levá-lo para casa e voltar mais tarde para entregá-lo. Do site constavam 4 ou 5 dos tais clubes de diferentes zonas do país. Incrédulo, esfregou os olhos. Foi ver melhor. O site já estava em baixo.

A meio da estridente gargalhada lembrou-se dos problemas com o DRM dos ebooks e das BDs do Achille Tallon que já não se conseguem comprar em Português, salvo em edição pirata digitalizada e impressa por conta própria. Lembrou-se dos sites das televisões nacionais em que encontrar seja o que fôr é fácil para o Sherlock Holmes e do tvtuga.com em que – legal ou não – tudo aparece organizado e a funcional. Lembrou-se do Ensitelgate e da guerra da Sony com os utilizadores da Playstation 3. Acercou-se de si a ideia de que as comunidades se organizam para pôr a funcionar as coisas que lhes dão jeito. A esta, juntou-se a impressão de que algumas corporações não querem vender as coisas de que as pessoas gostam. Querem, ao que parece, vender o que lhes convinha que as pessoas gostassem. Veja-se, por exemplo, como era bom se as pessoas gostassem de comprar MP3 com protecção de cópia ou achassem que gravar filmes numa box cujo disco rígido pode avariar a qualquer momento, sem que do conteúdo se possa fazer um backup, é uma ideia genial.

Sorriu imaginando-se a levar o país ao mecânico apenas para ouvir a resposta: "olhe que não tem arranjo, agora só um país novo". "Guardou" o MBNET e puxou do Vuze.

Isto de sugerir aos outros façam o contrário do que querem nem sempre é uma ciência exacta. Torna-se difícil quando os outros são muitos ou quando são teimosos. É quase sempre mais fácil cobrar do que contrariar. Está claro que para cobrar é preciso prestar serviço e se o serviço de aluguer ou compra de filmes online existisse em Portugal haveria moral para condenar quem o não usasse. Mas se o serviço de aluguer de filmes obriga a uma mensalidade fixa (MEO, etc) ou a despir o pijama e ligar o carro, creio ser seguro afirmar que os internautas já têm um melhor. É um que não demorou 10 anos a aparecer.

[caption]elefante[/caption]No fundo, o problema dos internautas gostarem da Internet, e portanto de fazer downloads, é semelhante ao dos gourmets gostarem de comida, ou dos fanáticos da ferrovia gostarem de andar de comboio, com a diferença que aos demais nenhuma associação ainda tentou tapar a boca ou bloquear um túnel a meio da viagem. Interrogo-me se um dia alguém quererá proibir os comboios e obrigar-nos, por decreto, a ir ao Porto de elefante. Seria um inaceitável retrocesso pela lentidão e desconforto mas também uma fraca ideia de negócio já que hoje em dia se vendem muitos bilhetes de comboio.

E quem nunca esteve de trombas que atire a primeira pedra.

“Enrolando com a tromba uma porção de forragem que bastaria para satisfazer o primeiro apetite de um esquadrão de vacas, salomão, apesar da sua vista curta lançou-lhes um olhar severo, dando claramente a entender que não era um animal de concurso, mas sim um trabalhador honrado a quem certos infortúnios, que seria demasiado longo relatar aqui, haviam deixado sem trabalho […].”


José Saramago, A viagem do Elefante

(*) director técnico da Angulo Sólido
Este artigo de opinião já tinha sido publicado no blog da empresa.

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