Por Miguel Oliveira (*) 

Vivemos na era da informação instantânea. Qualquer dúvida pode ser respondida em segundos por motores de busca ou assistentes de inteligência artificial, mas paradoxalmente, nunca foi tão fundamental cultivar a arte de fazer perguntas. Se até aqui o valor estava em quem detinha as respostas, hoje ele reside em quem sabe questionar. Esta transformação de paradigma não é meramente uma questão filosófica—ela possui repercussões significativas na forma como iremos ensinar e  adquirir conhecimento daqui para frente.

Durante séculos, o ensino foi estruturado em torno da transmissão de respostas. Professores detinham o conhecimento e os alunos eram treinados para absorvê-lo e reproduzi-lo. Os exames valorizavam a memorização, e o sucesso era medido pela capacidade de repetir informações corretamente. No entanto, com a ascensão dos Grandes Modelos de Linguagem (LLMs) e da inteligência artificial (IA), é possível obter qualquer resposta instantaneamente, pondo em causa a eficácia deste modelo.

O que fazer quando qualquer estudante pode encontrar a solução de um problema matemático, um resumo literário ou a explicação de um conceito em segundos? A resposta está em reformular o nosso modelo educativo, deslocando o foco da retenção de informação para a formulação de boas perguntas. Afinal, nós humanos somos a única espécie que continua curiosa sobre aquilo que já conhece. Cada resposta gera novas perguntas, e é neste processo contínuo que a aprendizagem ocorre.

A curiosidade é uma força motriz da humanidade. A maior parte das grandes descobertas científicas e tecnológicas começou com uma pergunta. No entanto, a escola tradicional nem sempre fomenta essa competência. Crianças que fazem muitas perguntas podem ser vistas como desafiadoras ou dispersas, num sistema que valoriza mais as certezas do que as incertezas. Mas e se fosse o contrário?

Num mundo onde a IA pode processar volumes massivos de informação, a criatividade e o pensamento crítico tornam-se os verdadeiros diferenciadores. Para além de saber encontrar respostas, os estudantes devem aprender a fazer perguntas que levem a descobertas, conexões e soluções inovadoras. Em vez de perguntar “O que é a energia nuclear?”, poderiam questionar “Como poderíamos usar a energia nuclear para tornar as cidades mais sustentáveis?”. Uma boa pergunta não apenas traz respostas, mas abre portas para novos caminhos de investigação.

Os avanços da IA podem ser uma ameaça a alguns métodos de ensino, mas também oferecem oportunidades sem precedentes para uma educação mais personalizada e interativa. Em vez de temermos que os alunos “copiem” respostas da IA, podemos utilizá-la para fomentar a curiosidade. Professores podem incentivar os alunos a testar hipóteses, explorar cenários alternativos e comparar diferentes respostas fornecidas por IA. O diálogo entre humanos e “máquinas” pode fortalecer a aprendizagem, desde que não se limite a respostas diretas, mas estimule o questionamento contínuo ao mesmo tempo que nos permite ver o racional que leva à geração dessas questões.

Modelos como o ChatGPT já demonstram que a qualidade da resposta depende da qualidade da pergunta. Aprender a formular boas perguntas torna-se, então, uma competência essencial. Para além de ensinar conteúdos prontos, a escola precisa ensinar a fazer boas perguntas.

O ensino do presente precisa de abandonar a passividade e abraçar a investigação ativa. O método convencional de aulas em que um educador passa informações e os estudantes as recebem passivamente está em causa. No seu lugar, é necessário implementar abordagens que promovam a exploração, o debate e a experimentação. Métodos como as aprendizagens por projetos, debates e ensino mais prático e de investigação podem ser fundamentais nessa mudança.

Estamos a entrar numa era em que qualquer resposta está ao alcance de um clique, a nossa aptidão de fazer perguntas que sejam inteligentes, desafiantes e inovadoras será o verdadeiro sinal do nosso conhecimento. O futuro da educação não estará nas respostas que dermos, mas nas perguntas que formos capazes de fazer. Afinal, o progresso humano sempre foi guiado não pelas certezas, mas pelas dúvidas certas.

(*) Coordenador do Programa PsicologIA na Transformação Social da Ordem dos Psicólogos Portugueses